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A mostrar mensagens de 2014
E ali estava, longe de "a quem" queria pertencer, longe de ser quem queria ser... Aquele sítio que sempre fora seu perdia força, perdia sentido... Sentia vontade de segurar o tempo que lhe fugia por entre o coração, sentia vontade de controlar o tempo de trás, de dizer o que jamais seria dito... Perdia-se em si, perdia-se de onde não era por não ser de lá... E assim, perdido de si, perdido em si dos outros gritava o que ninguém conseguia ou poderia ouvir... Todos o julgaram mudo, todos o julgaram perdido e ninguém era capaz de o ouvir... Nada era o que sentia dizer, e inaudível todo ele ficou para sempre.
O dia corre cinzento lá fora, o dia corre escuro dentro de si... Sem nada que aparentemente o possa deixar mais escuro que a alma de alguém que tudo perdeu e nada pode ganhar, sente-se escuro e frio e vazio... Vazio de sentido, desprovido de futuro, perdido de sonhos, perdido de tudo. E a vida, essa dança multicolor, continua, hoje escura, amanhã, talvez, cheia de luz... Porque a vida é isto, magia a perder de vista e quando se perde a magia que nos faz brilhar, resta-nos o não brilho... E um dia, quando a vida for só "não brilho" que os momentos de magia o encham por dentro, caso contrário esbarrou com o fim.. O seu fim...

Partir

Uns partem do princípio, outros partem do fim. E a vida é isto, um partir sempre para outro lado,. Por pouco sentido que faça, por muito que custe, por parecer impossível é preciso partir, partir sempre. Tanto que a vida é sempre a "partir" que no fim parte-se da vida.

ESD ESL

E a vida nunca é muito mais que nada... Nunca é muito mais que um deixar de ser, um desaparecer em nós, um desaparecer nos outros... Os momentos fantásticos de sempre passam a ser passado irrepetível, os telefonemas de vontade passam a ser uma mensagem anual de boas festas, os momentos partilhados deixam de ser e aos poucos somos nada, somos uma memória perdida em quem já não nos encontra... Somos um silêncio calado nas noites sem barulho... Podemos tentar e acreditar que ainda fazemos algum barulho e gritar, gritar para nunca mais sermos ouvidos... E o fim, dia após dia nos leva para longe de quem fomos e do que quisemos ser, a cada dia o fim puxa-nos para a verdade... A vida é uma longa caminhada para o nada.... E no fim, somos vazio, somos um buraco de memórias, um emaranhado de sonhos perdidos e de vidas desfeitas, um conjunto de desencontros, uma perda de tempo nesse que é de sempre... O fim... E no fim sabemos que ao menos não perdemos sozinhos, o "fim" perde connosco…

.f

Não foram tão poucas as vezes que lutara contra a perda. Era inconcebível no pensamento dele que perder fosse uma possibilidade, pelo menos uma perda sem luta, sem raiva, sem garra. O perder, perder de braços baixos, de olhar preso ao chão, aquele perder de quem não luta não fazia sentido, nunca o havia feito em si. No entanto, via-se diante da perda, depois de lutar, depois de se vencer a si, depois de tentar vencer o mundo, depois de tentar vencer a razão... Nada a fazer, pensava... A cada minuto que passava a perda ganhava força e forma, era inevitável. "Seria então uma perda?" perguntava-se. "Não teria sido apenas uma vitória durante todo o tempo em que lutara contra o impossível, contra a sonho não realizável?" E, no meio de toda a confusão entre vitória e derrota, de decisão e não decisão, de tristeza e a alegria... O sentimento era o mesmo, era um saber perder sem razão, era um saber não ganhar o que sempre seria... E o sentimento de vazio, quer tenha sido …

Nunca serás... Até ao fim

E... À noite, quando a luz se vai e os medos e o escuro e a verdade te surgem e te acordam do dia que sonhavas, Percebes que lutas e lutarás sempre por um nunca será, que chega a ser enquanto não encostas o corpo à cama e à alma à verdade. Quente pelo sonho, deitaste ainda morno, para começar a gelar no calor que só se faz sentir à superfície... O futuro, esse, há-de vir cheio de nada, cheio do que nunca foi... E vais deitar-te assim, até ao fim dos dias, com quem nunca foste... Vais crescer como quem nunca cresceu realmente. Vais viver como quem já viveu mil anos e hás-de morrer como quem ainda não nasceu. Envolto em sonhos serás sempre feliz, à luz da realidade serás vazio. E no fim quando a luz e o escuro se misturarem, serás só mais uma sombra que vagueia sem norte, sem razão, sem rumo, sem um porto seguro... Sem casa, à procura do que nunca seria, mesmo quando encontrado. À procura do que nunca foi, e do que nunca será serás sempre mentira. Serás a farsa que te não viu viver, tã…

Serás?

Entregue ao que nunca será, vive como se fosse para sempre... Entregue ao impossível, vive como se sempre tivesse sido, sem nunca for... Entregue ao que não é, ao que não são, vive como se ser já fosse!! Perguntar-lhe-iam se serão felizes com o que nunca será... Teria como resposta um "foram" enquanto forem... Novamente entregue a si e ao que é, quer voltar a não ser.. Porque o que nunca será, será sempre perfeito. Porque se sabe sempre como é e como seria o que nunca será... Perguntar-lhes-iam como se vive hoje sem amanhã e teriam como resposta que se vive como quem é feliz agora e não se importa de não ser amanhã. Porque, como se só pode ser feliz hoje sem pensar na dor de amanhã, tem de se viver com o impossível de amanhã como o possível de hoje. Sabe que não serão para sempre, sabe que nunca serão. Mas também sabe que não sabe nada. E o impossível de ontem já foi possível hoje e pode ser amanhã. E os dias vão passando e o impossível que será sempre, não o foi até ali. E…

Pura Magia

Por magia entendia-se, na maioria das vezes, uma ilusão... Um truque, uma forma de enganar o público menos atento... A partir dai passou a chamar-se de ilusionismo e o impacto da ilusão foi destruindo aquilo que se entendia como mágico. A magia deixou de existir simplesmente. Tudo mais não era que um truque, uma farsa, uma ilusão. A magia, aos poucos, perdeu-se na mentira da ilusão... Poucos seriam os que ainda descobriam magia... Verdadeira magia, magia que não mentia... Algures no meio de milhares de pessoas ainda se podia encontrar uma ou outra pessoa capaz de não fazer truques, capaz de não "mentir", capaz de ser verdadeiramente magia. Algures no meio de uma multidão conseguia ver-se alguém capaz de não fazer truques, de ser magia apenas, de não temer enfrentar o mundo com verdadeira magia. Muitos não conseguiriam ver para além da simplicidade de um gesto óbvio, que não engana. Poucos foram os que perceberam que era pura magia...

Palavra

"Vou escrever-lhe" pensou... Depois entendeu, e bem, que as palavras nunca chegariam para lhe dizer tudo. Não havia nada tão maior que o que tinha para lhe dizer... E, no entanto, as palavras mostravam-se raras, insuficientes, pequenas... Restava-lhe acreditar, acreditar que tudo o que não dizia fosse ouvido e compreendido. Afinal, as palavras não são assim tão importantes... E diz-se que palavras leva-as o vento... E eles eram isso, eram vento, eram tempestade, eram brisa, eram suspiro, eram respirar. Dentro deles tinham o mundo inteiro... As palavras chegariam para dizer que traziam nos seus mundos mares e oceanos, que eram tempestade, que trovoavam de quando em volta, que gritavam mudos, que sorriam um com o outro... Sim as palavras diriam isto... Mas as palavras nunca seriam suficientes para descreverem o que sentiam juntos, para descrever o poder de dois mundos diferentes a chocar um no outro... As palavras nunca seriam capazes de perceber a forma como seguravam o mund…

Quase

Tantas vezes ficamos à beira do quase fizemos que acabamos por nos contentar com o que quase foi feito. Acabamos por ter uma vida que nunca será perfeita porque lutar pela vida que sempre quisemos há-de custar mais que ficar com o futuro que já se tem como certo. Arriscar torna-se cada vez mais sem sentido, a vida, essa, já nos ensinou que o tempo nos consome a alma e o corpo. Somos muitas vezes consumidos pelo passado, tantas vezes consumidos pelo presente, que nos consome o futuro que se nunca alcançará. Caminhamos cheios de  histórias de"teria sido fantástico" e por quase ter sido tantas vezes quase se consegue ser feliz, quase se consegue ser inteiro. E ao fim, consumidos por tudo o que não fomos, por tudo o que não tivemos, há-de chegar o último dia, o que nos consome a alma, o que nos diz que independentemente de todos os cenários possíveis, o fim chegaria sempre. No fim não se pergunta se se foi ou não feliz, se valeu ou não a pena, no fim aceita-se apenas que ser fe…

Chega

Chega um dia em que deixam de ser os princípios o meio para sermos quem somos. Chega um dia em que sermos quem queremos deixar de fazer sentido. Chega o dia em que o sofrer é inevitável e nem o conforto de se saber que se sofre para um bem maior é suficiente para acalmar uma dor que grita, calada num quarto fechado e escuro de olhos fechados. Chega um dia em que queremos deixar de sentir, chega o dia em que não queremos saber dos nossos princípios, nem dos nossos meios, nem de nós nem de ninguém. Chega um dia em que só queremos fazer parte da multidão, ser igual a toda a gente, O dia em que nos bastar ter o que os outros têm. Chega o dia em que nos sentimos de menos, chega o dia em que sabemos que não valemos a pena. E chega o dia em que só queremos desaparecer. E esse dia chega e fica... E há-de ficar para sempre. Porque quando se é marcado no coração o para sempre corre-nos no sangue até ao fim. Mas chega. Chega de tudo e chega de quase viver. Chega de lutar contra a evidência e co…

Vendo ir

E às vezes é só assim... Um baixar os braços, um desistir, um deixar ir... E esperar que, de alguma forma, um dia, a vida lhe va piscar o olho e dizer "anda ser feliz"... E é com essa estranha confiança que vai continuando a viver como quem ainda não morreu... Mas, sabem os outros que aquele viver já não é de quem ainda vive, percebem que é um viver de quem ainda não morreu...

Palavras leva-as o vento

Pediu-lhe baixinho que o ouvisse, pelo menos desta vez... Não é que desta vez o que tinha a dizer fosse mais importante que de todas as outras vezes, talvez fosse apenas porque sentia que aquele era o momento de dizer tudo o que havia a ser dito, como que se o que fosse dizer desta vez e mais uma vez, fosse ter um efeito diferente do que teve de todas as outras vezes... Esquecera-se, por aquele instante, que se não pode esperar reacções diferentes com a mesma "mistura de palavras" de sempre... Sentia de repente que pouco a pouco seria esquecido, sentia que nunca mais seria procurado, aos poucos sentia-se como se não mais fosse ser encontrado... A inquietude do esquecimento fazia com que a brisa que lhe varria o pensamento de quando em volta se transformasse numa tempestade de proporções nunca antes sentidas... As palavras voavam a uma velocidade incontrolável, o pensamento, esse, perdia-se nas palavras e não se encontrava na razão... Sentia como que, se não dissesse tudo ag…

E o tempo do tempo

Com o passar do tempo, vem o tempo certo, o tempo de perceber se fomos, se vamos ser, se devíamos ter sido ou ido... Chega o tempo certo de perceber se o caminho foi o certo ou o errado. Com o passar do tempo percebemos se vale a pena, se valeu a pena, se teria valido a pena.
Com o passar do tempo percebemos que aquele "Adeus" que nos demorou mais a sair era como que uma forma de percebemos que queríamos ter ficado Ou então percebemos que o "Adeus" se tornou mais prolongado porque se não sabia para onde ir. Ficamos apenas o tempo suficiente para deixar de ter medo de não haver outro sítio.
Com o passar do tempo vamos sentido o poder do querer, do sentir, o poder da vontade. vamos sentindo o poder da vontade de querer ter ficado ou ter ido, poder de não querer ter ficado ou o poder de não querer ter ido Com o tempo ganhamos o poder de decidir se foi bem ou mal escolhido e com este poder surge o peso da derrota do saber, do saber que deveria ter sido diferente.
Com …

À medida

E à medida que o tempo passava questionava-se sobre e onde a vida o levaria. à medida que os anos iam passando iam ficando menos dias... Iam ficando mais coisas por fazer... As escolhas de um qualquer dia iam reflectidas pelo futuro em diante, um futuro que tinha cada vez menos dias, cada vez menos escolhas, cada vez menos opções, cada vez menos vida, cada vez menos magia, cada vez menos verdade... Não é que fosse velho... Ainda... Não é que se tivesse arrependido... Ainda... Mas já passaram muitos dias, muitas decisões, muitas dúvidas e demasiadas certezas incertas... À medida que o tempo lhe fugia da vida percebia que já não podia errar tanto, que já não podia alegar não saber das consequências... E o tempo, esse que nunca pára, esse de que tudo se lembra, esse de que dizem curar tudo... O tempo que antes parecia demais, hoje torna-se de menos... Errar já não é possível, viver o impossível já é só gastar dias... Continuar a sonhar é um gastar de horas... Acreditar na mentira é tent…

Fica o que seria

Um dia, enganado pelo seu próprio sonho e enganado pela errada ideia de que podia controlar o seu futuro, deixou-se ir, acreditando que conseguiria sempre guiar a sua vida através do sonho que um dia imaginara. Crente em todos os ideais que julgava ter, confiante nos princípios que lhe haviam dito ter foi caminhando, a medo... às vezes... Convicto noutras tantas foi sempre... Foi sempre até onde julgava ser possível. E até ali, onde um dia percebeu que às vezes os sonhos são pequenos quando se encontra algo tão maior e não mais pequeno que o amor, o amor sincero, o amor sem limites, o amor em todo o sentido da palavra, Palavra essa que um dia também lhe haviam explicado o significado. Explicaram-lhe, mas nunca lhe explicaram que o amor, por si só era um sonho, um sonho de dois, um sonho muito maior do que qualquer sonho que pudesse alguma vez perseguir sozinho. Ainda confiante nos seus princípios e ideias, deixou-se levar pelo amar, pelo gostar, pelo querer estar. Por não querer esta…

Partir

Às vezes partimos de nós, deixamos quem éramos numa mala e escondemos no sótão e esperamos que nunca ninguém nos encontre. Ele partiu naquele dia, no dia em que achou que havia chegado a altura de largar tudo e ir atrás de outra coisa qualquer. Fechou-se na mala e deixou outro "eu" dele sair, um "eu" que nunca foi ele, mas que a partir daquele dia teria de ser. Um eu que aceitara perder tudo para sempre, e que voltaria a conquistar-se a si e a tudo noutro dia qualquer. Seria como que transformar toda uma vida em coisa nenhuma e fazer de conta que o passado nunca foi dele. Julgava ser possível abandonar tudo o que fazia dele quem era, as pessoas, as ideias, os princípios, os pensamentos. Tudo lhe parecia fazer sentido naquele dia. O que ainda não tinha percebido é que podia largar tudo, podia recomeçar sem ninguém, poderia voltar a ser nada. O que nunca conseguiria era ser feliz, nunca conseguiria ser inteiro sem aqueles que fazem dele quem ela, sem aqueles que lhe…

Para sempre

E depois vem a vida... E ensina-te que tudo o que queres não é teu, que por muito que lutes nunca terás o teu sonho, que por muito que corras não alcanças essa felicidade. E depois vem o dia em que decides desistir de tudo, o dia em que não queres saber, o dia em que dizes que dali em diante será sempre a perder. E depois vem o dia a seguir, o dia em que percebes que tudo o que não tinhas seria sempre maior do que aquilo poderás vir a ter, o dia em que não ter era melhor que ter outra coisa qualquer. E agora é sempre tarde demais, porque tudo o que não tinhas, era só isso, o que não tinhas e agora, agora sabes que nunca terás... E assim terás de viver, sem nada, para sempre. Desisti ontem de hoje e amanhã.

Saber

"Encostei-me a ti, sabendo que eras somente onda. Sabendo bem que eras nuvem depus a minha vida em ti. Como sabia bem tudo isso, e dei-me ao teu destino frágil, fiquei sem poder chorar,
quando caí."

quando se sabe... é como se nunca se quisesse saber!

E os dias vão assim!!

"Suspiro a cinzento escuro, nestes dias. Tenho o céu todo a trovejar nos olhos.É muito cinzento, mesmo para um amor daltónico. Cansa-nos a alma mal ela acorda.
Não lhe dá espaço para rasgar um ou dois vincos de riso.
Nada.
Arrasta-nos para o fundo do mundo.
Quando era (ainda) mais novo adorava estes dias. Estava intimamente ligado com o facto de não haver aula de educação fisica. E isso enchia-nos de coisas para fazer. Mesmo à custa de nunca as virmos a fazer.
Hoje em dia, mais precisamente hoje, desmancha-me. Vento, chuva e frio não alimenta muita esperança aos olhos.
Pelo menos aos meus.
Dá vontade de esconder o dia de toda a gente e esticar as pernas numa casa de janelas cimentadas.
Os dias cinzentos têm esse duro dom de descansarem uma lupa sobre o que quer que nos doa peito adentro.
A lupa é tão grande...
Que venha o sol, nem que seja por um quarto de hora, para nos lembrar que há vincos na alma."

Até ao fim

Nunca se sabe até quando se lembra o que se não pode esquecer.  Nunca se sabe quando é que o tempo dá o último golpe na memória  de quem se perde no espaço e se vai encontrando no tempo passado.  Agora, que ainda me lembro e ainda te posso dizer quem sou, ouve o que tenho para te dizer. Antes que um dia partas na memória como  quem parte num sonho há muito construído, antes que deixes de ser a luz que apaga a noite lá fora e guia os que vagueiam sem destino, antes que o tempo e o espaço se confundam com sonho e realidade, antes que a vida te torne numa sombra sem rosto, antes que a vida e os caminhos nos troquem os dias e as vontades e as memórias e os  momentos, antes que os medos de nós nos atropelem numa qualquer  rua mais escura de dia, antes que sejas passado sem presente e futuro apagado, antes que... Antes que o fim se tente impor no que seria para sempre deixa que diga que o fim é uma miragem e o tempo é um  caminho sinuoso e íngreme numa viagem atribulada e sem destino  adiv…

Nunca se perde inteiramente

Quando o mundo se juntava para o derrubar fazia-se rodear das pessoas que lhe seguravam o mundo... Os seus pilares... Enquanto aqueles pilares, os que sempre o sustentaram e sempre o apoiaram e nunca o questionaram, o aguentassem não perdia, não se perdia... Era neles que se tentava segurar, eram eles que lhe diziam calados quem era. E mesmo quando tudo se julgava perdido respirava fundo, perto daquele ou daquela que um dia poderia ir, mas que ainda ficava e ficaria para sempre mesmo que fosse. Era como que se na calma deles encontrasse o próprio equilíbrio, num mundo falso de vaidades e de mentira, de invenções e desilusões. Era o estar aflito e aos poucos ser abalroado por uma calma que lhe dava força para mais um dia. E enquanto assim fosse diz-se que aguentaria uma vida ou duas. Enquanto todos os que o julgavam ter derrubado o achavam, ele recuperava perto daqueles que se não importam de se entregar como derrotados por uma vitória maior. A vitória da amizade, do amor, do que é ve…

Nada...

E os dias, que caem um atrás dos outros, seguidos de noites que se prolongam e se perdem. Perde-se vida, perde-se tudo, perde-se tudo o que se teve e não se ganha o que se ganharia. Em troca da efémera sensação de liberdade de 2 copos cheios de vazio, vistos por dois olhos embriagados que nada vêem, acordamos ao outro dia com o nada que se adivinhava e presos à consequência do vazio. E os dias são só isso, uns atrás dos outros e tudo se perde a cada dia, nada se ganha e a cada noite tudo se perde. E ele, ele ainda julgava que ganhava alguma coisa, foi então que acordou, vazio, cheio de nada do dia anterior e cheio de tudo o que viria a seguir. E assim seguiu, como seguem os que vão andando ao sabor de nada.

Vasco Graça Moura

"quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.

quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não

tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão."
O mundo fica mais pobre...



Talvez

Debruçara-se naquela que não foi a sua varanda de sempre. Descansava o corpo atirado contra o muro, todos os dias o mesmo atirar, todos os dias o mesmo corpo cansado. Longe já iam os dias em que se enconstava pelo prazer de um cigarro à leve brisa que lhe empurrava o sol pela face. Ao fundo todo um mundo, um mundo todo ele novo, que já há muito conhecia mas que todos os dias lhe provava ser sempre diferente, sempre novo. Não se sabe do cansaço, se de ter deixado de prestar atenção a tudo o que era novo no velho mundo de sempre os cigarros eram como que leves passageiros numa pesada brisa que já não conseguia empurrar o sol. Dali, da varanda que não foi sempre a mesma tudo lhe parecia igual. De corpo caído e sem força avistou nada. E como seria bom ser nada, passar de leve pela vida como se a vida fosse pouco. O bom que seria poder acordar todos os dias e esquecer ontem amanhã. Passar pelas pessoas, imune aos seus julgamentos, aos seus pensamentos pequenos, passar como passa tantas ve…

Diz-se que.

Andava perdido, sempre perdido, dele dizia-se nunca se ter encontrado. O tempo não o encontrava, os sítios, pelo menos os que se diziam como os certos perdiam-se dele. Às vezes cruzava-se com o sítio certo, mas o tempo teimava em dizer-lhe que não era. Os sítios a que chamava seus iam-se perdendo no tempo, o tempo, esse por sua vez arrastava-o com ele sempre. Mesmo que não fosse e ficasse o tempo passava e ia sozinho sem ele. Ele ficava quieto naquele que queria que fosse o sítio certo. Outras vezes o tempo levava-o para onde não pertencia, ou levava-lhe o "aonde queria estar" para longe. O tempo, à medida que ia passando por ele, ensinava-o que tinha de ser onde estava, que não valia a pena correr atrás de outro sítio. Ensinou-lhe que nem sempre o cenário é perfeito, às vezes é bom que não seja. o tempo não lhe dava tudo e ameaçava-o constantemente que lhe ia tirar tudo. Na altura certa estava no sítio errado e no sítio certo estava na altura errada. Desencontrado dizia-se…

The time is now

Hoje sentamos aqui, bebemos ali, aproveitamos tudo o que há para aproveitar ali, rimo-nos aqui, em casa, rimo-nos ali, com aqueles que gostamos, que são de casa... Hoje vemos um filme, hoje ouvimos uma música, hoje brincamos, hoje corremos, hoje jogamos, hoje bebemos até ser amanhã, hoje vivemos, hoje aproveitamos, hoje... Agora... Amanhã, amanhã seguimos com a vida para a frente, amanhã traçamos planos, amanhã poupamos, amanhã é outro dia, amanhã recompensamos, amanhã corrigimos, amanhã vamos levar as coisas a sério, amanhã abraçamos o futuro, amanhã lutaremos pelo melhor futuro, amanhã pensamos... Hoje, hoje podemos aproveitar só, hoje podemos viver sem culpa, hoje podemos correr sem objectivos, hoje podemos beijar o nascer do sol, podemos beber da fresca aurora que se avizinha, hoje podemos adormecer com a manhã e a acordar embalados pela doce confusão que se faz lá fora, pelas pessoas que vivem amanhã. Hoje podemos ficar aqui só, quietos, abraçados, hoje podemos ficar aqui a cont…

Verdes, as cortinas

Encontraram-se pela primeira vez, pelo que se lembra o tempo, num quiosque de uma estação de autocarros. Ambos à procura de alguma coisa que lhes ocupasse as mãos e o pensamento durante a viagem, como que se conhecessem a viagem tão bem que a paisagem já lhes não trouxesse nada de novo, se calhar fizeram muitas vezes a mesmo viagem, mas sozinhos. Eram dois, cada um a seu canto, e talvez um dia fossem eles um só no mesmo canto (há coisas que se sentem e não se sabe). A medo aproximou-se dela. Falaram durante algum tempo. E agora? O que vem agora? O que acontece depois do inicio, onde será suposto chegarem? Ainda eram apenas dois desconhecidos e já teriam mil cenários possíveis. Pediram um café. No espaço entre o café e o virar de duas folhas de jornal poderiam ter sido tudo, poderiam nunca ser nada. Foram, durante este bocadinho, alguma coisa, dois desconhecidos que se cruzaram por acaso. Enquanto mexia o café perguntou-se como seria o próximo encontro, como seria a próxima viagem, co…

Da vida para sempre (Gabriel Garcia Marquez)

"(...) enfrentei pela primeira vez o meu ser natural enquanto decorriam os meus noventa anos. Descobri que a minha obsessão de que cada coisa estivesse no seu lugar, cada assunto no seu tempo, cada palavra no seu estilo, não era o prémio merecido de uma mente ordenada mas, pelo contrário, um sistema completo de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, mas como reacção contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir a minha mesquinhez, que passo por prudente por ser pessimista, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que não se saiba que pouco me importa o tempo alheio. Descobri, por fim, que o amor não é um estado de alma mas um signo do Zodíaco. "

Ficas para Sempre!
Mais uma noite, mais uma aventura talvez!! De início ia a medo a meio ia com muito mais medo ainda!! Não é fácil viver num mundo onde se quer agradar a todos e ele sabia-o, tarde demais talvez... No fundo nunca se respeitara, respeitara sempre os outros acima dele. E com esse respeito a única coisa que ganhava era mais medo ainda... Um dia, numa tarde quente e cinzenta de Verão desnorteado cruzou-se com ela, cheirava a flor de mar, aquela combinação de doce com salgado, sabia-o antes de se aproximar dela. Ao aproximar-se perdeu-se, ela vivia livre, livre dos julgamentos dos outros, vivia para si e depois para os outros, construiu-se para poder construir nos outros! Ele, ainda a medo, deixou-se ir, perdido, sem perceber onde iria este caminho levar. Estava fascinado com a complexidade daquela simplicidade... Foi sempre assim a medo e sabe-se que se foi embora antes de perceber o que era tudo aquilo! O medo mais uma vez havia vencido, restava-lhe agora ser forte para uma outra vida... …
Como que em tom de despedida, como quem percebe que construiu um mundo aonde não pertence fugiu, com o falso pretexto de que ir seria a melhor saída para quem nunca chegou a entrar... Fugiu, como que se ficar fosse condenar a chegada que nunca o chegou a ser... À medida que corria percebia que queria ficar e à medida que se ia afastando percebia que só queria ter ficado... E foi... Foi sempre, porque ir era não ficar, era não ser... Não se sabe se chegou a ser, só se sabe que nunca foi!!
Este blog merece melhores dias, em tom de "até já" e de respeito por quem se habituou, me despeço dos que me seguem!! "até já"!!
Vivia assim... Como quem não vive! Todos duvidavam dele, mesmo quando parecia fazer sentido... Muitos havia que o ouviam, que o viam e que o tentavam viver, muitos se agarravam a ele, como que se fosse a última, a derradeira, esperança, a esperança que fazia com que continuassem a suportar a realidade tantas vezes fria, sem cor, tantas vezes cruel, tantas vezes injusta... Era quase como um acreditar por falta de uma opção melhor. Havia outros que até eram felizes e se prendiam a ele também de quando em volta, fazia-os voar, fazia-os viver o que nunca seria, levava-os onde nunca ninguém poderia ir e trazia-os de volta a casa... Com ele muitos voaram livres como nunca seriam, presos a uma realidade pesada que não permitia sequer pensar em depois de amanhã. Por onde passava deixava um sorriso no rosto, um sorriso calmo, sereno, um sorriso de que nem tudo estava perdido e ainda tudo era possível. Mesmo assim, era visto como uma aberração, como um absurdo... Às vezes passeava os que não a…

Para sempre

Dançava sob o olhar atento da lua, os seus movimentos eram livres e deixavam-se levar pelo sabor do vento, porque o vento soprava de acordo coma sua vontade. Até a lua conseguia ver a alegria que carregava no olhar, aquela alegria de quem sabe que sempre foi ao sabor da vontade e de que nunca nada a prendeu, nem a própria lua, que sempre a vigiou, lhe chegou a prender a imaginação. E quando a sua encantada brisa sopra à alma de um qualquer distraído, por um breve momento que poderá durar para sempre, dança-se ao sabor do luar e à sua vontade. E é neste dançar quase que inocente que se morde a felicidade, é neste breve instante que se promete querer ficar para sempre.

Estar onde não ser

Num qualquer dia diz-se que se apercebeu... Vivera muito tempo iludido pela realidade que se esquecera da razão da imaginação... Ou seria ao contrário!? Às vezes esquecia-se do seu lugar, colocava-se em sítios que não era seus, pelo menos não seriam durante muito tempo e na realidade... Parecia-lhe que seriam eternos. Outras vezes saía de onde pertencia para estar aonde nunca seria... Vivia realmente o que nunca viveria, como que se já tivesse sido o que nunca foi... Por vezes julgavam-no perdido num mundo que não era igual aos outros... Talvez não fosse, o mundo é cheio de coisas que são e de outras que nunca serão... O mundo dele é cheio de coisas que não são e sempre foram e cheio de coisas que são e que nunca seriam... Por vezes chamavam-lhe louco, mas no seu mundo diz-se que ser louco é uma opção, como no mundo dos outros viver também o é. Ser louco seria ser mais ou ser menos, mas seria não ser igual aos seres dos outros... Às vezes fazia sentido e ficava onde não era... Outras…

Em P3

"Não faço anos hoje, nem amanhã nem sequer para o mês que vem. Ainda assim, há aniversários a toda a hora à minha volta e, como diz o povo, ninguém está a ficar mais novo. Eles, como eu, estão a aproximar-se perigosamente dos trinta anos – aquela idade que, em miúdo, achava eu que já se estava acabado para a vida. Que já se começavam a fazer os planos para a reforma. Que ter trinta anos era a fronteira da estabilidade: a partir daqui, cuida-se dos filhos, entra-se às nove e sai-se às seis e os dias pouco passam disto. Naturalmente, estava redondamente enganado.
É certo que os tempos mudaram demasiado desde o início dos anos noventa para cá, mas hoje, chegar aos trinta parece-me o maior desafio das nossas vidas. É a era do tudo ou nada. Em que olhamos para trás e as conquistas nos parecem sempre poucas. Apontamos, por isso, os binóculos para a frente e observamos as miragens das ambições de sempre. Se não for nesta década, dizemos ingénuos a nós mesmos, podemos esquecer. Aos quar…

Talvez

Antes sonhara toda a vida. Imaginara como seria o amanhã e o depois e o entretanto... Imaginara todas as conquistas que alcançaria um dia. Imaginava uma vida perfeita, uma vida única, julgava ter a capacidade de ser diferente de todos e adorado por outros tantos... À medida que os dias que um dia imaginara se lhe esbarravam com a vida começou a perceber que talvez tudo o que imaginou mais não era que o que toda a gente imaginara também... Lá atrás, onde sonhava de olhos abertos, julgava-se diferente e no fundo nunca foi diferente... A diferença talvez fosse que nunca partilhara o seu mundo com ninguém, os seus sonhos, os seus objectivos e como se dizia já há muito, um sonho que não é partilhado mais não é que isso mesmo, um sonho... Os dias iam passando e ia coleccionando derrotas, leves, pesadas... Das vitórias todas que tinha imaginado juntou derrotas e à medida que o tempo ia passando as derrotas pequenas quase eram como vitórias... Agora, de cada vez que viajava para o futuro mai…

"Onte"

Ver demais é um problema de visão mais grave que qualquer outro, ou outro qualquer... Não há ainda solução para aqueles que vêem para além do horizonte, não há ainda quem nos consiga fazer parar de olhar para lá de "onte"!!

Vai vento que a tempestade é uma criança

Vivia ao sabor do vento!! Diziam todos os que para ele olhavam com olhos de quem vê passar uma estrela cadente lá no horizonte... Os que viam mais de perto percebiam que às vezes o sabor do vento lhe dava vontade de ir contra ele. Às vezes quando tudo seria mais simples deixando-se levar impunha-se e tentava contrariar a corrente, de nada poderia valer para o mundo, mas fazia-o sentir-se solto no seu... Livre de correntes que prendiam os outros todos ao chão. Às vezes bastava-lhe perceber como seria a vida se a vida não fosse assim! às vezes sentia que tudo seria de uma outra forma qualquer, mas logo percebia que era assim porque os ventos nem sempre levam a sítios seguros e nem sempre levam a tempestades inultrapassáveis... Ficava ali, no meio, entre a felicidade e a tristeza, era como que estar no meio de um rio e olhar para as duas margens e não perceber para onde se devia remar. Era para ele fácil perceber que teria uma vida perfeita daquele lado, ou uma vida miserável do outro l…

Cartas anónimas

"Amor, ao leres esta carta vai para o meio do jardim, dá um beijo numa flor julgando que dás em mim; Vai-te carta voando, cada uma diz o que quer, mas eu queria muito que fosses minha mulher..  Passei à tua porta estava dizendo teu pai "Tantas tantas têm caído, mas minha filha não cai!!"... Por teres sido enganada tens andado a cismar, andas toda aferrada, ninguém te pode aturar. Neste dia 1 de Abril, dia da brincadeira, só penso em ti e gostava de estar sempre à tua beira. Tristes dias eu senti, duro é o meu viver, ter-te junto a mim era o meu maior prazer. Queres saber quem eu sou mesmo, hoje podes saber e chorar por toda a vida sem nunca me chegares a ver. Se vires o mar vermelho não te assustes que é sagrado, são as lágrimas de sangue que por ti tenho chorado.  Ai amor não tenhas pena de não saberes quem eu sou, pensa bem e imagina quem já tanto te amou. Sou todo teu para sempre, muitas e muitas felicidades... (deste que sempre te ama) "
Isto, pelo que eles co…

Era uma vez...

Não foram poucas as vezes que me questionei acerca do que seria eterno, do que será ser para sempre... Há muito me indagava se havia algum significado em eternidade, se valeria a pena ser eterno... As dúvidas nunca se dissipavam completamente... Às vezes parecia absurdo pensar que sim, não fazia sentido a memória, a intensidade da vivência, da convivência, da entrega, tudo isto parecia não fazer sentido, tudo isto parecia vazio de conteúdo, tudo isto mais não era que um pensamento confortável para aligeirar a vida tantas vezes, aparentemente, vã, vazia, fugaz, efémera... Outras vezes, dias mais solarengos talvez, a eternidade fazia algum sentido, haveria sempre memórias que se prolongariam para sempre, haveria com toda a certeza alguém que, mesmo deixando de estar fisicamente presente, viveria para sempre dentro de nós, nos sussurraria ao ouvido com aquela palavra que nos recordava novamente do propósito da vida, do verdadeiro propósito da partilha, da entrega, da felicidade já divid…

Pedaço de vida

Tinha uma vontade incontrolável de fazer, pensando bem ainda não tinha construído nada e o que tentava construir mais tarde ou mais cedo caíria... Tinha também uma vontade enorme de que as coisas corressem bem, como sempre haviam corrido até então... Não era infeliz, pelo contrário, sentia bem o sabor da felicidade, não era tudo, mas caminhava para o todo que seria. Tinha uma vontade insaciável de viver!! Tinha uma vontade incontrolada, ainda, de conquistar o mundo... O seu mundo... Decidiu então escrever num papel em branco todos os objectivos, decidiu espelhar o seu futuro num papel branco, um simples papel que mais não seria que o sítio para calcular o futuro... Não conseguiu escrever nada, nada do que pensava lhe parecia fazer sentido, nada lhe parecia possível escrever, como que se escrever destruísse cada objectivo calculado... E tudo voltou a fazer sentido, o futuro não se adivinha... E a folha em branco serviu apenas para adivinhar o passado.

Adeus

Despediram-se muitas vezes... Como que a treinar para um adeus que já há muito havia sido imaginado e que dificilmente seria outra coisa além disso... Sabiam que num qualquer dia a vida os levaria para longe um do outro... Cruzarem-se foi um feliz acaso e talvez tivesse sido sempre se ficassem... Mas, no fim de contas, quis o destino que se aproximassem já com a certeza de que não ficariam tanto tempo como talvez quisessem. De todas as vezes que se despediram com o leve tom de saberem que não iam doeu... Pensar destruía-os lentamente... Quando chegasse esse tal último adeus, aquele em que iam perceber que se voltariam eventualmente a cruzar, como quem volta a passar por aquele sítio que se transformou noutro, onde se passaram horas a rir de nada, onde se inventaram histórias encantadas para sempre, e que não iria nada ser igual, talvez tivessem vontade de ficar e voltar a ser o que já foram, mas sabiam que iriam seguir "viagem", porque já ali não pertenciam, ou julgavam não…

No fim foi igual aos outros todos

Perdido num mundo que não conhecia, tentava incessantemente encontrar alguma coisa... Sentia sempre que estava incompleto, sentia a cada passo que lhe faltava outro... Era uma busca constante de uma coisa que nem sabia o que era... Os dias iam passando e ele caminhando pelo tempo, como que se, a cada passo, vislumbrasse outro caminho, um caminho melhor, talvez. E enquanto caminhava de olhos postos no desconhecido, caminhava sem medo, com vontade, com convicção... Embora perdido, sabia que se iria encontrar em algum lado, que a qualquer momento daria o passo certo, o passo decisivo, o passo esperado. No fundo não procurava nada, procurava só o motivo pelo qual não queria parar de caminhar... Sentia-se perdido na multidão que já julgava ter encontrado tudo, ouvia as suas histórias, as suas conquistas, as suas vitórias e todas lhe pareciam iguais, vulgares contos... Muitas vezes pensou que, no fim de contas, a maioria das pessoas que ouvia é que estavam perdidas, perdidas nas suas vulga…

Cada um

Não foram poucas as vezes que fora atropelado!! Atropelado pelos outros, pelas ideias dos outros, pelas tendências dos outros, pela opinião dos outros, pela lógica dos outros, pela (in)capacidade dos outros, pela vontade dos outros... Calou e calou-se muitas vezes por causa dos outros... Calou-se com a dor dos outros, calou-se pela tragédia dos outros, calou-se pela (im)possibilidade dos outros, calou-se pela falta dos outros, na falta dos outros, calou-se sempre... Calou-se, foi atropelado, deixou-se sempre ficar para trás... Os outros, esses não se calavam, eles julgavam o mundo deles maior que o dos outros, julgavam os problemas deles maiores que os dos outros, cultivavam em si, esses outros, o espírito de de mártires, de infortunados... Nunca imaginou, porém, que calar-se tantas vezes o levasse um dia a ser atropelado por si próprio, pelas coisas que calou, pelas opiniões que calou, pelas vontades que atropelou, pelos medos que enfrentou (ou não), nunca pensou que os medos que es…

Num sítio encantado

Já tinha sido há muitos anos... Num sítio encantado que ninguém conhecia, nem eles sabiam que existia, nem depois de o construírem. Viviam sem pensar e teriam sido felizes se se não tivessem lembrado de pensar. Nunca ninguém lhes havia dito que se não podia pensar em sítios encantados, ninguém lhes disse que o pensamento é que destruía sítios perfeitos. Perdidos uma vez em pensamentos, correram o risco de destruir o tal sítio, o sítio encantado deles. Tempestades surgiam a cada pensamento, o sol desaparecia a cada conclusão do que tudo significaria, a lua não surgia enquanto ponderavam o depois. Ninguém lhes tinha dito. Entre promessas perdidas numa vida que nunca chegou a ser dos dóis deixaram fugir aquele sítio construído à beira mar, exposto às ondas maiores, aos ventos mais fortes, exposto a tudo o que o podia destruir... Mas, enquanto não tinham pensado, eram intocáveis, nem a maior tempestade os conseguiria destruir, diziam os que de longe os conseguiam ver de quando em volta!!…

De: Helena Coutinho

"Aqui jaz um corpo que esculpiu palavras.
Aqui jaz o sorriso de quem ousou querer o mundo dos imortais;
os cabelos onde borboletas passeavam liberdade
e as mãos de jardim, onde beija-flores bebiam fantasia…
Aqui jaz a que não temeu sonhar todas as vontades do coração.
Aqui repousa a alma da que jamais descansou de sentir tudo,
de todas as maneiras.
Aqui ecoará, para sempre, um querer, infinito, de poeta.
Aqui perdurará o tempo que a vida não me deixou escrever."

Boa noite

Mais uma noite havia passado... Mais uma noite perdida... Talvez... Afinal, quantas noites já perdera ao longo destes anos... Já há muito havia percebido que a maioria das noites não dormidas pouco mais eram que nada. Pouco mais que uma dor de cabeça no dia seguinte... Deitou-se embriagado pelas conversas da treta, drogado pelos cenários de embriaguez que perseguiu a noite inteira. Antes tomou um café, como que para despertar para dormir. Ou para se envolver com as pessoas que perderam a noite a dormir e acabavam de acordar para mais um dia, enquanto ele se preparava para dormir. Chegado a casa caiu redondo, como que se o café o tivesse deixado cheio de energia para dormir. Quando acordou tinha a ideia de que a noite não fora nada, foi uma noite igual às outras todas. O tempo passou e outra noite se aproximou. Aos poucos foi percebendo que não foi só mais uma noite, foi uma noite diferente das outras todas, voltou a ver o sol nascer. Voltou a perceber que nem tudo se perde na tempest…

No meio do caminho tinha um poeta

"No meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra."
Carlos Drummond de Andrade

Uma cerca, uma pequena cerca

Era feliz, até ali, até onde conhecia. No fundo nunca pensara muito no que teria feito para ser feliz. A vida corria-lhe como o sangue, que sabia correr-lhe nas veias desde aquela vez que se cortara a avançar aquela cerca. Não ligou muito, a felicidade estava do outro lado, o golpe, esse, mal o sentiu. Atingido o outro lado, a felicidade corria-lhe mais depressa que a dor lhe percorria o corpo. Muitos anos lhe haviam atravessado desde esse pequeno golpe de felicidade. Agora, da janela, olhava para a cerca e perguntava-se como a teria algum dia avançado, era alta, pensava. Naquela altura não pensou, avançou sem medo, sem pensar, avançou sem calcular. Hoje, da tal janela diferente das outras todas, observa a felicidade do outro lado, com a certeza óbvia de que desta vez nunca a conseguirá alcançar. A felicidade ainda lhe grita, lá, do outro lado "Anda, tu és capaz, já o fizeste antes!! Não penses, não tenhas medo, afinal o que tens a perder? Nunca pagarás mais que um golpe!! E se …

Nada

A vida vem com morte marcada... Às vezes vem mais tarde, às vezes vem mais cedo... Há a sorte de não termos de esperar no mesmo sítio e há a sorte de se poder tentar viver enquanto se espera. Uns perdem o tempo com a vida dos outros e assim perdem o tempo da vida delas. E a cada instante que passa é mais um instante que se perde ou se ganha. Não se pode ganhar à morte, pelo que se crê, mas pode-se vencer batalhas de instantes. E a todos os que se perdem na vida dos outros e perdem mais um bocadinho para a morte, enquanto julgam ganhar um bocadinho da vida dos outros costuma dizer-se: nada...

Saudade

Estava por ali perdido em pensamentos. De repente um sentimento invade-o abruptamente. Era um sentimento todo ele novo, cheio de emoção, cheio de vida e no entanto vazio... Era saudade, mas era um novo tipo de saudade que nunca experimentara... No entanto não se assusta, apesar de ser um sentimento que nunca conhecera, não o fez pular do seu confortável sofá. Por ali andava a saudade do seu cão, aquele que sempre desejara ter e nunca acabara por "conquistar" (sim, porque um cão tem de se conquistar, não é só ter lá em casa), tinha saudade daquelas férias com os amigos que nunca chegaram a ser, tinha saudades daquele amor que nunca chegou a viver, saudades daquela viagem para não mais voltar que nunca tivera coragem de concretizar, sentia saudade daquele casaco que viu uma vez numa qualquer rua que acabou por não comprar. Tinha saudade até daquele momento em que não foi, mas acabou por ir e não devia. Tinha saudade daqueles breves momentos em que pediu que não fossem, tinha …

Heróis

Os heróis de antigamente faziam frente aos mais poderosos, os heróis de agora batem nos miúdos pequenos. Os heróis de antigamente construíam tudo com um quase nada que se não sabia de onde vir, os heróis de agora destroem tudo sem se perceber como será possível destruir tanto em tão pouco tempo. Os heróis de antigamente opunham-se, sem medo, às opiniões pequenas... Morriam, mas com eles morria a convicção de que sempre foram o que quiseram. Os heróis de agora adaptam-se às opiniões e morrem invictos, sem verdade, sem razão... Vazios... Os únicos heróis, agora, são os que amam sem querer destruir o que os que amam possam amar mais. Os únicos heróis, os que ainda se podem chamar, são os que constroem à sua passagem, são os que deixam ficar a medo, são os que olham e vêem para lá de si. Os verdadeiros heróis sãos os que abandonam o conforto dos seus lares, para partilharem o lar atormentado de outros "quaisqueres", são aqueles que abraçam um moribundo, são aqueles que respiram…

Amanhã

Sentia-se cansado e mesmo assim, embalado pela chuva lá fora, não conseguia adormecer. Viajara pelo mundo inteiro já... Os dias revelavam-se uma loucura, caminhos cruzados, caminhos perdidos, direcções opostas, caminhos sem saída!! Tantos caminhos percorrera, perdera-se tantas vezes que agora, às voltas com o sono que lhe não dá a volta, não sabe bem onde está. No entanto, mesmo não sabendo onde pertence, sabe de todos os sítios onde já pertenceu... Sabe que um dia talvez possa voltar e se não voltar a encontrar, nunca mais... Talvez tenha nascido para se nunca encontrar, para nunca ser encontrado. Julga nunca ter percorrido o mesmo caminho e no entanto sente que já ali passou várias vezes. Talvez num sentido oposto, talvez perdido do caminho que queria que fosse de sempre... Não se encontra, mas também não se perde. Quem se não encontra nunca correrá o risco de se perder. E a noite, como que a pedir desculpa, deixa-o dormir embalado pelo seu silêncio... O silêncio dela para quem jul…

O tempo dos outros, de todos...

Às vezes o simples entender do andar do tempo e do desenrolar do seu processo fazia-lhe impressão ao olhar para os que lhe eram de perto... Era como que se a cada momento que passava perdesse mais um bocadinho deles, para outros. Era perder bocadinhos seus a cada instante para quem se não sabe... Era um ser destruído constantemente sem perceber. E depois, quando se percebe para onde se caminha, para onde os outros caminham, quando se percebe que todos acabamos por caminhar para longe de nós, ou pelo menos quase todos, percebemos que somos pouco e mais tarde ou mais cedo seremos nada. E os outros serão tudo um dia. E nós teremos de ser tudo noutro sítio. E temos a certeza que nunca seremos. E acabamos por duvidar de que todos os outros sejam tudo, pelo menos durante muito tempo. Acabamos por acreditar que somos nada. E nada faz sentido em tudo! E no fim, quando tudo se acaba, levamos tudo... Tudo o que teria sido e o nada em que se tornou. E vamos cheios de tudo o que não foi e foi no…

Foram

Fez do seu mundo deles... Fez do seu sonho, um sonho deles e para os dois... Fez do seu futuro o futuro deles!! Fez de si eles, perdeu-se dos seus defeitos mais evidentes e afastou os dela como que numa troca onde ficaram os dois sem nada do que não importava... Viu-a no seu futuro, já era o futuro deles... Tinha conseguido criar todo um novo mundo... Um mundo que seria deles e para eles e nunca seria só seu!! Depois acordou e nada fazia sentido, esse futuro nunca existiria!! Voltou a adormecer para poder continuar a acreditar. Às vezes acreditar no que nunca será é melhor que não acreditar em nada... Não viveu... Sonhou... E dizem os poucos que sabem que foi feliz com o que nunca foi e triste com o que era... Nunca foi cheio, nunca foi vazio... Foi sempre assim assim... Mas pelo menos nunca foi o que não quis... Também nunca foi o que sonhou perguntavam-se todos muitas vezes... Eles nunca lhes respondeu, sorriu sempre apenas, com a resposta presa ao coração... "O sonho nunca po…

Saudade

Sentado à lareira de sempre sentia-se invadido por uma nova saudade... Desorientado no desconhecido de uma saudade que nunca fora tão sua por ali ficou a pensar no que poderia fazer... Não poderia fazer nada... Ali se deixou continuar até sentir a saudade tão sua... Abraçou-a e deixou-se embalar por um sono deles... Fez o melhor partilhou com ela os seus sonhos e pelo menos enquanto dormia sabe-se ter sido feliz!!

O vento há-de ajudar

A vida dava-lhe tantas voltas que a dada altura deixou de perceber como poderia dar a volta à vida. E todas as noites encontrava uma solução e ao acordar a solução perdia-se, talvez no sono e consequente sonho absurdo tantas vezes, que parecia fazer ainda mais sentido que uma solução que nunca o seria. Perdido no caminho de sempre tentava dar a volta. Uma volta que nunca conseguiria dar depois de tantas voltas dadas. Queria voltar ao princípio e de repente percebia que depois de crescer se não pode voltar à caixinha pequena de sempre. Depois de crescer a vida ganhou um tamanho que temia não suportar sozino. Dali nem conseguia ver quem fora. Parece que foi sempre assim, não se apercebeu que a vida o mudara e o moldara ao que é hoje. Entre um e outro traço de sempre nao conseguia encontrar-se. Mais que perdido, não tinha para onde ir. Caminhava sem sentido e sem retorno. Só podia ir para a frente e para a frente assusta. Sentia-se como uma daquelas folha que cai, seca de uma qualquer á…

chuva

Mais uma manhã de chuva, daquelas manhãs que dá vontade de não deixar ir embora porque nos embala num sono em que se fica acordado e se parece sonhar, quando, no fundo, o que acontece é pensar com o coração... Por ali se deixou ficar, a imaginar, a deixar-se levar pelo que o faria feliz, por entre a chuva que se atirava à janela com vontade de lhe calar a vontade... Durante esta tempestade pequena pensava como seria se simplesmente não pensasse do outro lado, se por momentos pensasse em si, se por um instante conseguisse dizer o que sentia sem pensar nas repercussões do que seria dito... Seria feliz com toda a certeza, mesmo que o que dissesse não surtisse qualquer efeito!! Poderia dizer para não ir, podia dizer o que ir significaria para ele, poderia explicar como seria o mundo se... Poderia tentar pelo menos... Por entre a chuva caiu um trovão, todos estes pensamentos idiotas de quem gosta e não pensa se foram embora e saiu daquele transe!! Continuou a gostar calado pela tempestade…

Bom Ano

"Recomeça…Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
E vendo
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças."

Miguel Torga, Diário XIII