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Talvez

Antes sonhara toda a vida. Imaginara como seria o amanhã e o depois e o entretanto... Imaginara todas as conquistas que alcançaria um dia. Imaginava uma vida perfeita, uma vida única, julgava ter a capacidade de ser diferente de todos e adorado por outros tantos... À medida que os dias que um dia imaginara se lhe esbarravam com a vida começou a perceber que talvez tudo o que imaginou mais não era que o que toda a gente imaginara também... Lá atrás, onde sonhava de olhos abertos, julgava-se diferente e no fundo nunca foi diferente... A diferença talvez fosse que nunca partilhara o seu mundo com ninguém, os seus sonhos, os seus objectivos e como se dizia já há muito, um sonho que não é partilhado mais não é que isso mesmo, um sonho... Os dias iam passando e ia coleccionando derrotas, leves, pesadas... Das vitórias todas que tinha imaginado juntou derrotas e à medida que o tempo ia passando as derrotas pequenas quase eram como vitórias... Agora, de cada vez que viajava para o futuro mais não via que derrotas, cada vez mais derrotas, cada vez mais igual a todos, cada vez mais incapaz de ser diferente... Talvez um dia, mais lá para a frente o futuro o voltasse a surpreender e em vez das derrotas já imaginadas e quase vividas chegassem inesperadas vitórias. Talvez... O tempo, esse que se diz tudo ensinar a quem lhe conseguir resistir, ensinou-lhe que não se pode viver para a frente nem para trás e que o "dia mais importante da história de cada pessoa é hoje", talvez um dia aprenda a não viajar para onde não se sabe... Talvez não venha a ser feliz.. Talvez... Mas por enquanto, por enquanto mais vale não ser já infeliz... Talvez...

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Soltamos das paredes da imaginação o quadros com os sonhos... Caminhamos por caminhos que nunca tinham sido nossos... Deixamos quem éramos lá atrás e retocamos os quatros ainda há pouco desprendidos. Entorpecidos pelo amor, caminhamos enquanto pintamos, sonhamos enquanto caminhamos, construímos enquanto destruímos. Depois de soltos os sonhos, acabam por se prender em quem amamos. Ali, em quem amamos, residem agora os quadros dos nossos sonhos, as paredes da nossa imaginação, os limites da nossa existência. Ali, ali fica tudo o que já fomos e tudo o que gostaríamos de ter sido. Ali, como quem troca para uma casa maior e mais bonita, procuramos uma parede mais perfeita onde possamos decorar a vida.

Mas, quando por alguma razão o amor nos falha e a vida nos ludibria, deixamos de ser quem já fomos. Há muito deixamos aquelas paredes velhas. E há muito que os sonhos que um dia soltamos das paredes já não são os mesmos. Quando o amor nos falha por qualquer razão voltamos sem sonhos, pelo men…
Morreste-me ali amor... Sei que ainda respiras... Mal, mas respiras... Sei que ainda aí vives... Mas sei que te perdi ali algures onde a vida vira... Fomos tantas e tantas vezes ao limite do ser que nos perdemos para lá do ir... Fomos longe demais procurar o que tínhamos mesmo à mão de ser... Quisemos ser tudo... Quisemos viver tudo, quisemos ter a certeza... E com a certeza de que o amanhã é incerto, guiamo-nos pela incerteza... Perdidos por ali... Fomos morrendo...
Agora, agora vais-me a enterrar quando não restar nada... Quando formos só uma imagem do ontem, um sonho enterrado vivo e morto à nascença... Morremos ali... Aonde a vida vai e nos ficamos... Vamos a enterrar, sozinhos de nós...

De: Helena Coutinho

"Aqui jaz um corpo que esculpiu palavras.
Aqui jaz o sorriso de quem ousou querer o mundo dos imortais;
os cabelos onde borboletas passeavam liberdade
e as mãos de jardim, onde beija-flores bebiam fantasia…
Aqui jaz a que não temeu sonhar todas as vontades do coração.
Aqui repousa a alma da que jamais descansou de sentir tudo,
de todas as maneiras.
Aqui ecoará, para sempre, um querer, infinito, de poeta.
Aqui perdurará o tempo que a vida não me deixou escrever."