segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Num sítio encantado

Já tinha sido há muitos anos... Num sítio encantado que ninguém conhecia, nem eles sabiam que existia, nem depois de o construírem. Viviam sem pensar e teriam sido felizes se se não tivessem lembrado de pensar. Nunca ninguém lhes havia dito que se não podia pensar em sítios encantados, ninguém lhes disse que o pensamento é que destruía sítios perfeitos. Perdidos uma vez em pensamentos, correram o risco de destruir o tal sítio, o sítio encantado deles. Tempestades surgiam a cada pensamento, o sol desaparecia a cada conclusão do que tudo significaria, a lua não surgia enquanto ponderavam o depois. Ninguém lhes tinha dito. Entre promessas perdidas numa vida que nunca chegou a ser dos dóis deixaram fugir aquele sítio construído à beira mar, exposto às ondas maiores, aos ventos mais fortes, exposto a tudo o que o podia destruir... Mas, enquanto não tinham pensado, eram intocáveis, nem a maior tempestade os conseguiria destruir, diziam os que de longe os conseguiam ver de quando em volta!! Um dia, um dia qualquer, de uma onda maior que o mar surgiu uma parede que os derrubou e os tentou fazer perder de vista. Julgados separados até ao fim dos dias lutaram contra todas as tempestades, contra todos os monstros que haviam criado, contra todas os muros que se lhes impuseram, ultrapassaram todas as  histórias que se haviam inventado que nunca mais se encontrariam... Lutaram, como quem luta com o anjo do destino e acredita que o consegue vencer, lutaram até não lhes restar mais nada, nem sítio, nem tempo, talvez restasse um sopro de vida, de vida dos dois que se perderam! E, depois de nunca desistirem, lá se encontraram noutro sítio qualquer, longe daquele encantado que criaram. E de lá construíram outro, porque as ondas até podem destruir um sítio encantado, mas nunca os destruiria, no fim todos perceberam que encantados já eles eram e onde quer que estivessem seria um sítio encantado, porque o anjo do destino já há muito percebera que lhes não podia impor outro fado que não aquele que eles quisessem... Eram livres porque sonhavam e porque acreditavam, não se deixaram perder nas tempestades inventadas pelos que os queriam destruir, não se deixaram levar pelos pensamentos tempestuosos que de quando em volta os caracterizavam! Eram livres e encantados por uma estranha capacidade de resistir a tudo, resistiram ao destino, resistiram à morte enquanto viveram. Não se sabe se foram sempre assim, se ficaram juntos, o que se sabe era que o sentimento que os unia nunca os deixaria ficar muito longe, puxavam-se um para o outro mesmo que não quisessem... Dizem os que acreditam, que mesmo que não tivessem lutado, todas as tempestades os voltariam a juntar, como que de um feliz acaso se tratasse!! Podem não ter ficado juntos, mas estiveram sempre lado a lado, apoiaram-se incondicionalmente, até onde se ainda não julgava possível!! Não se sabe se foram felizes, o que se sabe é que o que quer que tenham sido, foram juntos!! Não se sabe se o sítio que voltaram a construir era encantado, não se sabe se mais tempestades viriam, ou vieram... O que se sabe é que mais que sítios, mais que tempestades, mais que ventos e tormentas e monstros... Foram sempre os dois... Numa dança infinita até acabar... Ao fim de muitos anos sabe-se que foram esquecidos, mas nunca se esqueceram!!

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