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Mensagens

A mostrar mensagens de Novembro, 2013

De madrugada

Era de madrugada. Acordou, como todos os dias, para volta a adormecer e acordar mais tarde. Por alguma razão que se não sabe, não voltou a adormecer... Ao contrário de todos os outros dias tinha tempo para ponderar toda a sua viagem até ali... Por ali pensava em como se esquecia o que ficou para trás, em como se larga o que se queria e se queria outra coisa que ainda se não queria. Percebia também que não percebia ainda o que poderia vir a querer mais do que o que queria. Talvez nem soubesse ser possível deixar de amar o que se ama para amar o que não se conhece ainda. Convencia-se de que, como a morte, também os amores têm de acabar. E tal como morrer na altura certa, não se deve deixar de amar na altura errada. Não conseguia entender como partira quando só queria ter ficado. Era quase como partir e deixar a alma lá atrás, mal arrumada, e chegar sozinho a outro lado qualquer. Talvez tenha mesmo de esquecer, talvez tenha só deixar de se lembrar. Talvez se não voltasse a ficar acordad…

Dos caminhos diz-se pouco

Ali se encontrava novamente aquele senhor sentado. Sentado naquela paragem frente a um muro alto. Todos os dias ali estava, todos os dias todos passavam indiferentes. "Talvez fosse doido" dizia de si para si toda a gente. "podia sentar-se na paragem à frente, é que nem 50 metros são" dizia uma ou outra pessoa que já não o estranhava ali, naquele mesmo sítio. Naquele dia não teve coragem de o interpelar. Continuou a sua viagem de sempre para o trabalho de algum tempo. Num outro qualquer dia, caminhava com mais tempo e menos orientação, a sua mente viajava para lá do seu caminho. Ali o viu novamente, chovia... Foi então que decidiu questioná-lo e confrontá-lo, afinal já chegava de olhar sempre para o mesmo muro!!  - Olhe, tenho passado cá todos os dias e encontro-o sempre aqui, de olhar parado naquele muro, o que faz aqui se não vê nada para lá do muro? - Boa tarde rapaz, também te vejo passar todos os dias. Respondeu o senhor num tom meigo.  - Sim, mas eu passo e c…

Jardim

Era um homem feliz... Acreditava que o amor um dia o levaria a uma casa... À casa que seria sua por direito, por amor... O que nunca havia compreendido é que o amor era apenas o meio para chegar a uma casa, depois de lá chegado, seria com amor e verdadeira dedicação, talvez algum sacrifício que construiria um lar, o que, ao fim de contas, procurava... Foi tarde que descobriu que o amor não chegava para construir um lar, foi tarde que percebeu que a casa nunca passaria disso só, de uma casa... Independentemente do seu tamanho, da sua fachada, da sua imponência, seria sempre uma casa, sem o amor que esperava como seu, como de direito... E assim foi até ao fim, uma fachada que escondia um amor que nunca seria. um lar que nunca existiria, nunca se percebeu se feliz se triste... Sabe-se apenas que foi sempre construindo mais uma coisa aqui, outra ali. No fim, a casa era um palácio... Tenho para mim que a grandeza exterior servia só para esconder o vazio de dentro. Mas esta é só a minha op…

"Será chuva, será gente??" A felicidade não será certamente!!

À noite custava-lhe adormecer... Parecia ouvir passos na casa vazia, casa essa que já foi cheia, até o tempo lhe ter levado a alegria. Todas as noites ouvia os passos, era como que se alguém andasse por ali, perdido, desorientado. Os passos eram incertos, umas vezes mais seguros, outras vezes "assustados", como que se quem caminhava não tivesse a certeza de onde ia colocar o pé. Às vezes, durante o dia, tinha a mesma sensação. Por entre o silêncio daquela casa vazia estranhos barulhos faziam-se ouvir. Chegou, algumas vezes, a chamar os vizinhos que ficavam ali algumas horas, em silêncio, a tentar ouvir os barulhos. Nada ouviam. Nem os vizinhos nem ele. Era quase como que se quem por ali andava tivesse vergonha, ou só se sentisse à vontade com ele. Ou então, quem sabe, só queriam que o julgassem doido. Fantasmas... Talvez. Peritos foram chamados, nada encontraram. Mudou de casa. Os mesmos barulhos na outra casa. Aos poucos foi percebendo que era o passado que o atormentava e…

Era um político

Ele só poderia ser boa pessoa. Não o conheciam bem, mas não havia por onde questionar a sua bondade!! Todos sabiam que já havia comprado um daqueles presentes da missão sorriso, isto porque se fazia passear com ele na parte de cima da mala do carro. Volta e meia aparecia lá na Igreja e rezava junto com os outros, com a concentração de quem absorve cada palavra. Era visto constantemente no banco alimentar. Era visto muitas vezes a carregar o saco da D. Carlota quando voltava das compras. Não se sabia bem o que fazia, mas seria, com toda a certeza, um trabalho muito honesto e bem remunerado, a sua aparência não deixava margem de dúvida, era de certeza alguém socialmente importante e no entanto carregado de bondade. A forma como tentava ajudar todos os outros voltava a evidenciar esse aspecto... E ao fim de tantos e tantos anos as pessoas voltavam a enganar-se, voltavam a acreditar na aparência deste senhor que poderia perfeitamente ser o pior de todos os homens. Dele sabiam que dava se…

Não sabia muito

Era um senhor... Os cabelos grisalhos faziam perceber que já algum tempo havia passado por ele. Carregava consigo toda a felicidade do mundo, sabia-o porque se notava o mais sincero e aberto sorriso que se lembra ter visto e começou aos poucos a perceber que esse sorriso se carregava mais de alegria quando se aproximava a visita de uma menina... Saltitante, estacionava o carro à sua porta e entrava, o senhor lá a esperava, de sorriso rasgado no rosto. Talvez adivinhasse de antemão que seria mais um momento perfeito na presença daquela enigmática menina. De lá, de longe, parecia-lhe uma menina discreta, parecia bonita, parecia querer passar pela vida sem dar nas vistas dos que não interessam, sabia-o pela forma como o senhor ficava antes da sua chegada. Para os outros, os que não a conheciam, nada simbolizava, para ele era como se mais a perfeita e harmoniosa pessoa do mundo entrasse por aquela porta, era como que se a solução de todos os seus problemas entrasse aos pulinhos alegres e…

São os pilares.

E aos poucos foi-se apercebendo de que os pilares que sustentavam o seu mundo eram fortes, muito fortes. Seriam, talvez os únicos pilares capazes de o aguentar. E foi também aos poucos que se apercebeu que, apesar da força dos pilares, o seu mundo ia ruindo, devagarinho, quase como que a escorregar. Não caía, descia levemente, quase como se o mundo nunca tivesse sido pesado. Talvez tenha percebido nessa altura que tentava atirar o seu mundo para cima de pilares que não eram para o seu mundo. Mesmo assim, noutro qualquer mundo, os pilares nunca o deixaram cair desamparado, sustentaram e suportaram a sua queda e lá se mantiveram, fortes, indestrutíveis, inabaláveis. Eram sem dúvida pilares muito fortes, os mais fortes, só não eram seus.

Mais uma tarde no parque

Sentou-se, como há muita fazia, no banco de jardim gasto pelo tempo e pelo tempo que as pessoas ficavam por lá sentadas, a observar o mundo que se lhes atravessava à frente. Era um banco que teria histórias de gente nova, gente mais velha, gente que já não era e daqueles que nunca chegariam a ser gente. E era seu também, pelo menos por enquanto, sabia que não seria para sempre, mas durante aquele momento seria seu e aquele momento poderia prolongar-se por quanto tempo quisesse. Dali via uma criança a brincar com uma senhora, talvez fosse mãe, dali não se percebia. De mais perto também não, não os conhecia. Pareciam felizes mesmo quando a criança caía e chorava até a alma da mãe gritar de pânico mudo. Mais perto de si um senhor, rico imaginava, vestia-se bem e mexia freneticamente no telemóvel, como que se estivesse a fechar mais um grande negócio. Volta e meia ouvia-o gesticular e via-o falar e não, não era ao contrário, o barulho que fazia era gestual, as palavras saiam quase como q…

Somos tudo, somos nada!!

Foram indestrutíveis durante tempo demais. Juntos formavam uma gota do tamanho do oceano. Juntos eram uma estrela do tamanho do universo. Era quase como que se todos lhes pudessem tocar e ninguém os conseguisse alcançar. Era como que olhar de longe e perderem-se na imensidão dos dóis. Assim foram até ser tarde demais. Afastaram-se do mundo, tornaram-se maiores, superiores pensavam, tornaram-se os donos da razão sem querer, enfim, tornaram-se insuportáveis. Diriam os mais distraídos que foram vítimas da sua própria intangibilidade. Cansaram-se um do outro, como o oceano se cansa de cada gota e o universo se perde por cada estrela. Aos poucos foram caindo, sozinhos, longe um do outro. Já não eram um oceano, agora mais não seriam que uma gota pequena, insignificante, perdida. Não seriam mais que uma estrela que ainda parecia brilhar lá ao longe, mas que ali ao perto era um pedaço de pedra em decomposição, uma implosão para fora que ninguém via. E assim... Sozinhos... Perderam-se num uni…

É para ganhar

Fazia de conta que não se importava com o que o rodeava. Era um fazer de conta tão bom que até a si se convencera. Parecia que não queria saber, parecia que não queria lutar, ouvia-se dizer muitas vezes que gostava de dar tempo às coisas e o que fosse seu a si viria. E assim viveu até dar conta de que se não lutasse haveriam coisas das quais nunca conseguiria chegar perto. Sempre fez de conta que não lutaria por amor, até perceber que o amor sente paixão por guerreiros. Sempre quisera esperar, nunca quis provocar. E ao que parece, assim quis continuar a viver. Voltava a ver-se numa situação igual e a fazer o mesmo de sempre, a perder, a deixar ir até perder de vista. Mais uma vez a ficar. Dele diz-se que nunca ganhou, mas também se diz que nunca perdeu. Ninguém consegue entender porquê, mas ele continuava a sorrir como se sempre tivesse ganho, quando todos sabem que sempre perdera. E de cada vez que olham para ele não entendem que sorri porque não tem mais nada a perder.