Avançar para o conteúdo principal

Verdes, as cortinas

Encontraram-se pela primeira vez, pelo que se lembra o tempo, num quiosque de uma estação de autocarros. Ambos à procura de alguma coisa que lhes ocupasse as mãos e o pensamento durante a viagem, como que se conhecessem a viagem tão bem que a paisagem já lhes não trouxesse nada de novo, se calhar fizeram muitas vezes a mesmo viagem, mas sozinhos. Eram dois, cada um a seu canto, e talvez um dia fossem eles um só no mesmo canto (há coisas que se sentem e não se sabe). A medo aproximou-se dela. Falaram durante algum tempo. E agora? O que vem agora? O que acontece depois do inicio, onde será suposto chegarem? Ainda eram apenas dois desconhecidos e já teriam mil cenários possíveis. Pediram um café. No espaço entre o café e o virar de duas folhas de jornal poderiam ter sido tudo, poderiam nunca ser nada. Foram, durante este bocadinho, alguma coisa, dois desconhecidos que se cruzaram por acaso. Enquanto mexia o café perguntou-se como seria o próximo encontro, como seria a próxima viagem, como seria a primeira casa, como seriam todos os dias, como seria uma vida inteira.. Viram-se os dois, viram o que seriam, viram o que não seriam, viram tudo o que poderia haver um no outro. Ficaram, os dois, com a nítida sensação de que a vida é uma festa e que nunca se sabe quando acaba. Restava-lhes viver aquele bocadinho como se fossem um só que nunca seriam. Viveram um Domingo à tarde, daqueles que demoram a passar, daqueles em que um cobertor envolve dois corpos e os leva a passear até ao passado, bem agarrados para se não perderem, abriram uma garrafa de vinho enquanto a lareira lhes aquecia os pés, que a alma já estava quente. Ainda era Domingo, por ali se deixaram ficar, chovia lá fora. Quando o início chegou ao fim e o autocarro se aproximou para os arrastar por mais uma viagem, foram cada um para o seu canto. Viveram ali, naquele bocadinho, tudo o que tinham a viver, não havia mais possibilidades, não havia nada que os pudesse surpreender. Teriam assim uma vida... perfeita... Acabou tudo ali, naquele início, perceberam os dois... Entraram para o autocarro e sentaram-se um ao lado do outro. Tudo aquilo que imaginaram podia não fazer qualquer sentido, poderiam ser qualquer coisa, poderiam não ser coisa nenhuma, mas ainda não se conheciam, e nunca se sabe o que esperar de alguém que faz da realidade um misto de sonho e magia. Deixaram-se ir juntos, diz o tempo, que se deixaram ir assim para sempre e nunca souberam para onde iam. Nem se sabe se têm cobertor para os embalar pela vida! Mas agora viajavam juntos e e sabiam que o mundo era infinito!! Será que as janelas têm cortinas verdes?

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Soltamos das paredes da imaginação o quadros com os sonhos... Caminhamos por caminhos que nunca tinham sido nossos... Deixamos quem éramos lá atrás e retocamos os quatros ainda há pouco desprendidos. Entorpecidos pelo amor, caminhamos enquanto pintamos, sonhamos enquanto caminhamos, construímos enquanto destruímos. Depois de soltos os sonhos, acabam por se prender em quem amamos. Ali, em quem amamos, residem agora os quadros dos nossos sonhos, as paredes da nossa imaginação, os limites da nossa existência. Ali, ali fica tudo o que já fomos e tudo o que gostaríamos de ter sido. Ali, como quem troca para uma casa maior e mais bonita, procuramos uma parede mais perfeita onde possamos decorar a vida.

Mas, quando por alguma razão o amor nos falha e a vida nos ludibria, deixamos de ser quem já fomos. Há muito deixamos aquelas paredes velhas. E há muito que os sonhos que um dia soltamos das paredes já não são os mesmos. Quando o amor nos falha por qualquer razão voltamos sem sonhos, pelo men…

Shakespeare

"Depois de algum tempo aprendes a diferença, a subtil diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma. E aprendesque amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança. E começas a aprender que beijos não são contratos e presentes não são promessas. Acabas por aceitar as derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança. E aprendes a construir todas as tuas estradas de hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em vão. Depois de algum tempo aprendes que o sol queima se te expuseres a ele por muito tempo. Aprendes que não importa o quanto tu te importas, simplesmente porque algumas pessoas não se importam... E aceitas que apesar da bondade que reside numa pessoa, ela poderá ferir-te de vez em quando e precisas perdoá-la por isso.Aprendes que falar pode aliviar dores emocionais. Descobres que se leva anos para se construir a confiança e apenas …
Morreste-me ali amor... Sei que ainda respiras... Mal, mas respiras... Sei que ainda aí vives... Mas sei que te perdi ali algures onde a vida vira... Fomos tantas e tantas vezes ao limite do ser que nos perdemos para lá do ir... Fomos longe demais procurar o que tínhamos mesmo à mão de ser... Quisemos ser tudo... Quisemos viver tudo, quisemos ter a certeza... E com a certeza de que o amanhã é incerto, guiamo-nos pela incerteza... Perdidos por ali... Fomos morrendo...
Agora, agora vais-me a enterrar quando não restar nada... Quando formos só uma imagem do ontem, um sonho enterrado vivo e morto à nascença... Morremos ali... Aonde a vida vai e nos ficamos... Vamos a enterrar, sozinhos de nós...