terça-feira, 14 de junho de 2016

Morreste-me ali amor... Sei que ainda respiras... Mal, mas respiras... Sei que ainda aí vives... Mas sei que te perdi ali algures onde a vida vira... Fomos tantas e tantas vezes ao limite do ser que nos perdemos para lá do ir... Fomos longe demais procurar o que tínhamos mesmo à mão de ser... Quisemos ser tudo... Quisemos viver tudo, quisemos ter a certeza... E com a certeza de que o amanhã é incerto, guiamo-nos pela incerteza... Perdidos por ali... Fomos morrendo...

Agora, agora vais-me a enterrar quando não restar nada... Quando formos só uma imagem do ontem, um sonho enterrado vivo e morto à nascença... Morremos ali... Aonde a vida vai e nos ficamos... Vamos a enterrar, sozinhos de nós...

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016



Deixei contigo o meu amor,
música de açúcar a meio da tarde,
um botão de vestido por apertar,
e o da vida por desapertar,
a flor que secou nas páginas de um livro,
tantas palavras por dizer
e a pressa de chegar,
com o azul do céu à saída.
por entre cafés fechados e um por abrir.

Mas trouxe comigo o teu amor,
os murmúrios que o dizem quando os lembro,
a surpresa de um brilho no olhar,
brinco perdido em secreto campo,
o remorso de partir ao chegar,
e tudo descobrir de cada vez,
mesmo que seja igual ao que vês
neste caminho por encontrar
em que só tu me consegues guiar.

Por isso tenho tudo o que preciso
mesmo que nada nos seja dado;
e basta-me lembrar o teu sorriso
para te sentir ao meu lado.

Nuno Júdice, in O Estado dos Campos (Dom Quixote, 2003)

sábado, 9 de janeiro de 2016

Ele acreditou sempre... O mundo inteiro dizia-lhe que era doido... Mas ele sabia que não... Ele sabia que o mundo inteiro não estava certo... Ele sabia, desde a primeira vez que a viu sorrir, que era ela... Teve a certeza quando ela lhe deu o primeiro abraço e o mundo dele parou... Sonhou... Sonhou muito... Construiu um mundo onde seriam só eles... Tudo fazia sentido e o mundo não fazia ideia do que era certo ou errado... Entregou-se... A ele e ao mundo dele... Mostrou tudo o que era e tudo o que não era... Desprendido de merdas, completamente entregue a ela deixou-se ir... Não tinha muitas dúvidas.. E se dúvidas havia perdeu-as quando pela primeira vez os seus lábios tocaram no dela e pôde ver, por entre a perfeição de cada beijo, aquele sorriso, aquele olhar... E aquela covinha no rosto que se ia desenhando de quando em vez... Sabia que era amor... Teve a certeza naquele momento de que o mundo era doido e só ele é que sabia... Entregou-se, já sem medo, àquele amor que sabia ser perfeito... Deixou-se sonhar... E foi acreditando, mesmo quando parecia já não fazer muito sentido... Mesmo assim o mundo não sabia nada pensava ele... E o mundo deixou-o estar, deixou-o ser assim, sonhador, como sempre fora... Deixou-o acreditar e nunca mais lhe disse que era impossível... O mundo, como que num gesto de pena e compaixão deixou a vida dele entregue ao tempo... E o tempo veio e trouxe a verdade.. E a verdade trouxe a realidade... O mundo inteiro estava certo e ele era só mais um sonhador que acreditava em coisas absurdas... Um menino entregue a um sonho de quem não chegou a crescer... Agora, agora que o tempo lhe mostrou que ele e o seu sentimento não são nada, o mundo troça dele... E mostra-lhe, vez atrás de vez, o que ele nunca quis ver... Mostra-lhe o que esteve sempre ali, mesmo à sua frente... E ri-se... Ri-se baixinho... Com mais pena ainda... O mundo tem pena do menino que não é nada, nem nunca será... Tem pena dele por ter encontrado o amor e o amor lhe ter mostrado que não era suficientemente "bom" para quem amava... E o mundo ria-se baixinho... E ele gritava calado... E chorava de coração... E o mundo ria-se baixinho... 
A vida vem por ali... De mão dada com o tempo.. A sorrir... A realidade vem atrás... E os nossos sonhos andam por ali... E vem a vida e o tempo e a realidade... E nós só temos um sonho... Um sonho e um amor que ainda não conhece limites... Temos a vontade de quem sentiu a perfeição por entre os braços... E temos o calor do sorriso mais lindo do mundo... Os sonhos, apesar de nunca terem sido, são perfeitos e, na nossa inocência, completamente tangíveis... Julgamos-nos felizes... Julgamos ter tudo... 
Mas vem a realidade... Bate de frente com o sonho... O amor abana mas não cai... É o nosso amor... É o nosso sentimento construído calmamente  por entre a confusão, sabemos que é forte, sabemos que é indestrutivel, sabemos que é perfeito... Mas a realidade acaba por nos esfregar na cara que por muito grande que possa ser e que por muito lindos que possam ser os sonhos não são nada à beira dela... Esfrega-nos na cara que demos tudo e não somos nada... Somos amor... Amor perdido, amor sozinho... Somos pais de um sentimento órfão... Ficamos com o amor para nós porque não chega para mais nada... Podemos amar... Amar muito... Podíamos entregar a nossa vida na construção de uma vida perfeita... Mas não chega... A vida mostra-nos, dia atrás de dia que somos pouco... Que somos menos... E ficamos assim... E vamos vivendo assim, a morrer devagarinho.. Até ao fim... 
Lembramo-nos de que mentem todos aqueles que dizem deixar de amar... Ou aqueles que dizem que conseguem, se forem magoados, transformar o amor em ódio... Mentem aqueles que dizem que o amor é sempre maior que tudo... Mentem também os que dizem que se não sente, no toque dos lábios, o amor de uma vida... Que se não sente num abraço o calor de uma vida... E mentem os que dizem que não há apenas uma pessoa capaz de nos fazer tirar os pés do chão e voar... E mentem os que dizem que não há ninguém no mundo capaz de nos fazer rastejar pelos becos do sofrimento...
Há, talvez, amores assim, que possam deixar de ser... Há amores que possam não ser tão grandes... Há-de haver amor que não nos transcenda... Há-de haver menos amor.. Um amor mais pequenino... Daqueles amores a meio, que nem aquecem muito e que acabam por nem ser muito frios... Amores onde há um acomodar, um aceitar não ser mais... Onde se acaba por ser cúmplice de um viver à margem de um amor maior, em troca do conforto e do sossego de não ter de se dar tudo... Onde se pode perder... Onde não temos de ser inteiros... Onde não temos de ir sempre, porque há-de estar sempre ali e se não estiver, há-de estar outro...
Mas quando é amor, sente-se... Sente-se tudo... Sente-se a ausência, sente-se a falta e sente-se necessidade para lá da vontade... Somos dominados por um sentimento que nos faz perder a razão, que nos faz querer ser só ali, naquele sítio...É um querer estar sempre, querer partilhar tudo, querer fazer parte de tudo... 
E quando o amor não chega... E quando esse amor vai sem direcção... Quando o amor perde o sentido e quando já não passa de algo em que já se não pode acreditar, sente-se dor, sente-se raiva, sente-se revolta e sente-se o frio do mundo debaixo dos pés... Quando tudo se perde e a realidade vai contra o sentimento que nos rasga de dentro para fora, quando a impossibilidade nos rasga o peito de fora para dentro... Dói... Morde-nos o corpo e deturpa-nos a vontade... Faz-nos querer desaparecer de um mundo que já só parece meio... E que nunca voltará a ser inteiro...
E a vida, a vida passa a saber a pouco... O que se constrúia para lá do que se via deixa de ser sustentado e cai... Esmaga-nos... Fica só um vazio sem espaço... Não cabe nada para lá de vazio... Somos ocos... Somos menos... Deixamos de ser aos bocadinhos... E depois percebemos que mentem também os que dizem que o tempo leva tudo... Não leva, o tempo não leva este vazio... O que o tempo faz é tornar oco o vazio... O que o tempo faz é ensinar-nos a viver com metade da vida... Como quem vive com meio coração... Aos poucos vamos sendo metade daquilo que seríamos... O tempo faz com que recalquemos um sentimento que foi maior que nós e faz com que queiramos ser só mais um no mundo... A viver pela metade... Ao lado de uma pessoa que até poderia ser tudo, mas nunca vai ser nada... E vamos viver assim... Em lume brando... Com meio brilho... E vazios... Vazios de tudo... Vazios de amor...
E aquele amor que foi... Fica ali... Parado... À espera de outra vida... De outra vida que nunca virá... E no fim, bem lá para o fim... Pode ser que tenhamos a sorte de nos conseguirmos enganar e confundir o vazio com felicidade... E pode ser que com sorte a memória nos falhe e nos apague o vazio que nunca será cheio...