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E o tempo do tempo

Com o passar do tempo, vem o tempo certo, o tempo de perceber se fomos, se vamos ser, se devíamos ter sido ou ido... Chega o tempo certo de perceber se o caminho foi o certo ou o errado. Com o passar do tempo percebemos se vale a pena, se valeu a pena, se teria valido a pena.

Com o passar do tempo percebemos que aquele "Adeus" que nos demorou mais a sair era como que uma forma de percebemos que queríamos ter ficado Ou então percebemos que o "Adeus" se tornou mais prolongado porque se não sabia para onde ir. Ficamos apenas o tempo suficiente para deixar de ter medo de não haver outro sítio.

Com o passar do tempo vamos sentido o poder do querer, do sentir, o poder da vontade. vamos sentindo o poder da vontade de querer ter ficado ou ter ido, poder de não querer ter ficado ou o poder de não querer ter ido Com o tempo ganhamos o poder de decidir se foi bem ou mal escolhido e com este poder surge o peso da derrota do saber, do saber que deveria ter sido diferente.

Com o passar do tempo começamos a ganhar o poder de ser livres, presos ao que queremos, a quem gostamos e ao que gostamos e ao "onde" queremos estar. Com o passar do tempo percebemos que liberdade é poder ficar preso ao que é "nosso", ao que nos hão-de tirar sem querermos. Liberdade é aceitar que queremos e aceitar que nos pode ser tirado. Com o passar do tempo, liberdade é deixar ser até quando for. 

Com o passar do tempo ganhamos o direito à loucura, o direito a sermos quem não somos, o direito a sermos para quem nos conhece, completamente desconhecidos. Podemos, porque já sabemos quem somos e já sabem quem somos, podemos ir e depois voltar a quem somos, como se nunca tivéssemos sido "outro". E percebemos, com o passar do tempo, que a única forma de não enlouquecer é ser louco de quando em volta.

Com o passar do tempo percebemos que saudade é não fazer ideia do que se sente falta, é um perceber que com o tempo os dias se tornam maiores e o tempo deles não chega para nós e os dias vão muito depressa. Com o passar do tempo deixamos de querer saber, de querer entender. Com o passar do tempo deixa-se de querer saber onde se falhou, se falhamos realmente. Com o tempo começamos a ter saudades e não sabemos bem de quê e de quem, talvez os dias se tenham apenas tornado demasiado grandes e a vida pouco preenchida e pensar demais levou-nos a demasiadas recordações, do que foi, do que poderia ter sido, do que não foi e no meio de tanta recordação perde-se a noção do que foi real e do que queríamos que tivesse sido. Acabamos só por ter saudades de quem fomos e do que fomos noutra altura.

Com o passar do tempo começamos a aceitar o que não queremos, como que, se do preço a pagar pelo que queríamos ter e não conseguimos, se tratasse. Com o passar do tempo aceitamos que a felicidade foi desde sempre uma utopia, um sonho que se não concretizaria nunca. Com o passar do tempo olhamos em vota, para tudo o que queríamos ser, para quem queríamos ter e percebemos que não seremos nada, nunca... Que independentemente de tudo nunca seremos inteiros, que nunca nada nos completará. E, convencidos de que não podemos ser completos, tentamos encher-nos de nada e vamos tentando agarrar tudo e aceitamos não ser infelizes e viver, viver até ao fim. E com o passar do tempo, abrimos mão da felicidade e tentamos agarrar tudo o que de nós não faça miseráveis.

Com o passar do tempo deixamos que percebam que sentimos. que sentimos com profundidade, que gostamos intensamente, que nos arrancam pedaços quando nos magoam, que pedaços de nós ficam onde os outros nos deixam e aos poucos vamos ficando pequenos, muito pequenos, porque aos poucos todos nos vão deixando... Com o passar do tempo tudo parece demais e nada parece chegar.


Com o passar do tempo...

Comentários

  1. Será, até, talvez, assim, mas não necessariamente em tudo... Ou seja, sim, os sonhos esboroam-se, sim, aquilo que era deixa de ser, etc etc... e sim, é uma verdade que nunca nada nem ninguém será tudo para nós, mas talvez que o segredo esse, sermos metades para o tudo e não um tudo para nós, e nesse meio campo e meio termos nos realizarmos em plenitude...

    Belo blog que aqui tens, amigo :)

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  2. Sim Daniel, é um óptimo ponto de vista... Obrigado pela visita, um grande abraço ;)

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