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Mensagens

A mostrar mensagens de Abril, 2014

Vasco Graça Moura

"quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.

quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não

tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão."
O mundo fica mais pobre...



Talvez

Debruçara-se naquela que não foi a sua varanda de sempre. Descansava o corpo atirado contra o muro, todos os dias o mesmo atirar, todos os dias o mesmo corpo cansado. Longe já iam os dias em que se enconstava pelo prazer de um cigarro à leve brisa que lhe empurrava o sol pela face. Ao fundo todo um mundo, um mundo todo ele novo, que já há muito conhecia mas que todos os dias lhe provava ser sempre diferente, sempre novo. Não se sabe do cansaço, se de ter deixado de prestar atenção a tudo o que era novo no velho mundo de sempre os cigarros eram como que leves passageiros numa pesada brisa que já não conseguia empurrar o sol. Dali, da varanda que não foi sempre a mesma tudo lhe parecia igual. De corpo caído e sem força avistou nada. E como seria bom ser nada, passar de leve pela vida como se a vida fosse pouco. O bom que seria poder acordar todos os dias e esquecer ontem amanhã. Passar pelas pessoas, imune aos seus julgamentos, aos seus pensamentos pequenos, passar como passa tantas ve…

Diz-se que.

Andava perdido, sempre perdido, dele dizia-se nunca se ter encontrado. O tempo não o encontrava, os sítios, pelo menos os que se diziam como os certos perdiam-se dele. Às vezes cruzava-se com o sítio certo, mas o tempo teimava em dizer-lhe que não era. Os sítios a que chamava seus iam-se perdendo no tempo, o tempo, esse por sua vez arrastava-o com ele sempre. Mesmo que não fosse e ficasse o tempo passava e ia sozinho sem ele. Ele ficava quieto naquele que queria que fosse o sítio certo. Outras vezes o tempo levava-o para onde não pertencia, ou levava-lhe o "aonde queria estar" para longe. O tempo, à medida que ia passando por ele, ensinava-o que tinha de ser onde estava, que não valia a pena correr atrás de outro sítio. Ensinou-lhe que nem sempre o cenário é perfeito, às vezes é bom que não seja. o tempo não lhe dava tudo e ameaçava-o constantemente que lhe ia tirar tudo. Na altura certa estava no sítio errado e no sítio certo estava na altura errada. Desencontrado dizia-se…

The time is now

Hoje sentamos aqui, bebemos ali, aproveitamos tudo o que há para aproveitar ali, rimo-nos aqui, em casa, rimo-nos ali, com aqueles que gostamos, que são de casa... Hoje vemos um filme, hoje ouvimos uma música, hoje brincamos, hoje corremos, hoje jogamos, hoje bebemos até ser amanhã, hoje vivemos, hoje aproveitamos, hoje... Agora... Amanhã, amanhã seguimos com a vida para a frente, amanhã traçamos planos, amanhã poupamos, amanhã é outro dia, amanhã recompensamos, amanhã corrigimos, amanhã vamos levar as coisas a sério, amanhã abraçamos o futuro, amanhã lutaremos pelo melhor futuro, amanhã pensamos... Hoje, hoje podemos aproveitar só, hoje podemos viver sem culpa, hoje podemos correr sem objectivos, hoje podemos beijar o nascer do sol, podemos beber da fresca aurora que se avizinha, hoje podemos adormecer com a manhã e a acordar embalados pela doce confusão que se faz lá fora, pelas pessoas que vivem amanhã. Hoje podemos ficar aqui só, quietos, abraçados, hoje podemos ficar aqui a cont…

Verdes, as cortinas

Encontraram-se pela primeira vez, pelo que se lembra o tempo, num quiosque de uma estação de autocarros. Ambos à procura de alguma coisa que lhes ocupasse as mãos e o pensamento durante a viagem, como que se conhecessem a viagem tão bem que a paisagem já lhes não trouxesse nada de novo, se calhar fizeram muitas vezes a mesmo viagem, mas sozinhos. Eram dois, cada um a seu canto, e talvez um dia fossem eles um só no mesmo canto (há coisas que se sentem e não se sabe). A medo aproximou-se dela. Falaram durante algum tempo. E agora? O que vem agora? O que acontece depois do inicio, onde será suposto chegarem? Ainda eram apenas dois desconhecidos e já teriam mil cenários possíveis. Pediram um café. No espaço entre o café e o virar de duas folhas de jornal poderiam ter sido tudo, poderiam nunca ser nada. Foram, durante este bocadinho, alguma coisa, dois desconhecidos que se cruzaram por acaso. Enquanto mexia o café perguntou-se como seria o próximo encontro, como seria a próxima viagem, co…

Da vida para sempre (Gabriel Garcia Marquez)

"(...) enfrentei pela primeira vez o meu ser natural enquanto decorriam os meus noventa anos. Descobri que a minha obsessão de que cada coisa estivesse no seu lugar, cada assunto no seu tempo, cada palavra no seu estilo, não era o prémio merecido de uma mente ordenada mas, pelo contrário, um sistema completo de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, mas como reacção contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir a minha mesquinhez, que passo por prudente por ser pessimista, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que não se saiba que pouco me importa o tempo alheio. Descobri, por fim, que o amor não é um estado de alma mas um signo do Zodíaco. "

Ficas para Sempre!
Mais uma noite, mais uma aventura talvez!! De início ia a medo a meio ia com muito mais medo ainda!! Não é fácil viver num mundo onde se quer agradar a todos e ele sabia-o, tarde demais talvez... No fundo nunca se respeitara, respeitara sempre os outros acima dele. E com esse respeito a única coisa que ganhava era mais medo ainda... Um dia, numa tarde quente e cinzenta de Verão desnorteado cruzou-se com ela, cheirava a flor de mar, aquela combinação de doce com salgado, sabia-o antes de se aproximar dela. Ao aproximar-se perdeu-se, ela vivia livre, livre dos julgamentos dos outros, vivia para si e depois para os outros, construiu-se para poder construir nos outros! Ele, ainda a medo, deixou-se ir, perdido, sem perceber onde iria este caminho levar. Estava fascinado com a complexidade daquela simplicidade... Foi sempre assim a medo e sabe-se que se foi embora antes de perceber o que era tudo aquilo! O medo mais uma vez havia vencido, restava-lhe agora ser forte para uma outra vida... …
Como que em tom de despedida, como quem percebe que construiu um mundo aonde não pertence fugiu, com o falso pretexto de que ir seria a melhor saída para quem nunca chegou a entrar... Fugiu, como que se ficar fosse condenar a chegada que nunca o chegou a ser... À medida que corria percebia que queria ficar e à medida que se ia afastando percebia que só queria ter ficado... E foi... Foi sempre, porque ir era não ficar, era não ser... Não se sabe se chegou a ser, só se sabe que nunca foi!!
Este blog merece melhores dias, em tom de "até já" e de respeito por quem se habituou, me despeço dos que me seguem!! "até já"!!
Vivia assim... Como quem não vive! Todos duvidavam dele, mesmo quando parecia fazer sentido... Muitos havia que o ouviam, que o viam e que o tentavam viver, muitos se agarravam a ele, como que se fosse a última, a derradeira, esperança, a esperança que fazia com que continuassem a suportar a realidade tantas vezes fria, sem cor, tantas vezes cruel, tantas vezes injusta... Era quase como um acreditar por falta de uma opção melhor. Havia outros que até eram felizes e se prendiam a ele também de quando em volta, fazia-os voar, fazia-os viver o que nunca seria, levava-os onde nunca ninguém poderia ir e trazia-os de volta a casa... Com ele muitos voaram livres como nunca seriam, presos a uma realidade pesada que não permitia sequer pensar em depois de amanhã. Por onde passava deixava um sorriso no rosto, um sorriso calmo, sereno, um sorriso de que nem tudo estava perdido e ainda tudo era possível. Mesmo assim, era visto como uma aberração, como um absurdo... Às vezes passeava os que não a…

Para sempre

Dançava sob o olhar atento da lua, os seus movimentos eram livres e deixavam-se levar pelo sabor do vento, porque o vento soprava de acordo coma sua vontade. Até a lua conseguia ver a alegria que carregava no olhar, aquela alegria de quem sabe que sempre foi ao sabor da vontade e de que nunca nada a prendeu, nem a própria lua, que sempre a vigiou, lhe chegou a prender a imaginação. E quando a sua encantada brisa sopra à alma de um qualquer distraído, por um breve momento que poderá durar para sempre, dança-se ao sabor do luar e à sua vontade. E é neste dançar quase que inocente que se morde a felicidade, é neste breve instante que se promete querer ficar para sempre.

Estar onde não ser

Num qualquer dia diz-se que se apercebeu... Vivera muito tempo iludido pela realidade que se esquecera da razão da imaginação... Ou seria ao contrário!? Às vezes esquecia-se do seu lugar, colocava-se em sítios que não era seus, pelo menos não seriam durante muito tempo e na realidade... Parecia-lhe que seriam eternos. Outras vezes saía de onde pertencia para estar aonde nunca seria... Vivia realmente o que nunca viveria, como que se já tivesse sido o que nunca foi... Por vezes julgavam-no perdido num mundo que não era igual aos outros... Talvez não fosse, o mundo é cheio de coisas que são e de outras que nunca serão... O mundo dele é cheio de coisas que não são e sempre foram e cheio de coisas que são e que nunca seriam... Por vezes chamavam-lhe louco, mas no seu mundo diz-se que ser louco é uma opção, como no mundo dos outros viver também o é. Ser louco seria ser mais ou ser menos, mas seria não ser igual aos seres dos outros... Às vezes fazia sentido e ficava onde não era... Outras…