segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Adeus

Despediram-se muitas vezes... Como que a treinar para um adeus que já há muito havia sido imaginado e que dificilmente seria outra coisa além disso... Sabiam que num qualquer dia a vida os levaria para longe um do outro... Cruzarem-se foi um feliz acaso e talvez tivesse sido sempre se ficassem... Mas, no fim de contas, quis o destino que se aproximassem já com a certeza de que não ficariam tanto tempo como talvez quisessem. De todas as vezes que se despediram com o leve tom de saberem que não iam doeu... Pensar destruía-os lentamente... Quando chegasse esse tal último adeus, aquele em que iam perceber que se voltariam eventualmente a cruzar, como quem volta a passar por aquele sítio que se transformou noutro, onde se passaram horas a rir de nada, onde se inventaram histórias encantadas para sempre, e que não iria nada ser igual, talvez tivessem vontade de ficar e voltar a ser o que já foram, mas sabiam que iriam seguir "viagem", porque já ali não pertenciam, ou julgavam não pertencer... Sempre que se deixavam invadir por esse pensamento os seus mundos tremiam... Afinal, ao fim de algum tempo, acabaram por suportarem o mundo um do outro... Às vezes ela não percebia que lhe segurava o mundo com um sorriso, um sorriso muito dela, um sorriso que tornava mundos frágeis em mundos intocáveis...

domingo, 23 de fevereiro de 2014

No fim foi igual aos outros todos

Perdido num mundo que não conhecia, tentava incessantemente encontrar alguma coisa... Sentia sempre que estava incompleto, sentia a cada passo que lhe faltava outro... Era uma busca constante de uma coisa que nem sabia o que era... Os dias iam passando e ele caminhando pelo tempo, como que se, a cada passo, vislumbrasse outro caminho, um caminho melhor, talvez. E enquanto caminhava de olhos postos no desconhecido, caminhava sem medo, com vontade, com convicção... Embora perdido, sabia que se iria encontrar em algum lado, que a qualquer momento daria o passo certo, o passo decisivo, o passo esperado. No fundo não procurava nada, procurava só o motivo pelo qual não queria parar de caminhar... Sentia-se perdido na multidão que já julgava ter encontrado tudo, ouvia as suas histórias, as suas conquistas, as suas vitórias e todas lhe pareciam iguais, vulgares contos... Muitas vezes pensou que, no fim de contas, a maioria das pessoas que ouvia é que estavam perdidas, perdidas nas suas vulgares conquistas, nas suas banais histórias... Enfim, todos tinham alcançado o mesmo sítio, de uma ou outra forma, uns mais depressa, outros nem tanto, outros parados... Era como que se só ele fizesse sentido num parado "mundo" preso às vitórias que nunca teriam sido, se o mundo de todos fosse o seu... Às vezes invejava-os, outras vezes lamentava que não ousassem caminhar mais... O tempo foi passando e a sua vontade de caminhar, inicialmente julgada inesgotável, foi-se perdendo... Sabia que se não tinha encontrado ainda, sabia que talvez nunca se conseguisse encontrar... Dele não se sabe mais nada... Sabe-se que no fim foi feliz, como outros tantos foram, no mundo deles... Neste mundo, no dele, a maioria teria ficado eternamente cega por uma venda que nunca arriscaram tirar, teriam sido eternamente tristes pelo medo de serem felizes... E no fim, bem no fim... Mais não foi que mais uma história, mais uma a acrescentar a tantas outras... Quem dele falava dizia que naquele vulgar mundo, onde ele próprio se julgou perdido, acabou por nunca ter sido encontrado... E agora ali jaz um homem sem identidade que se escondeu para nunca mais ser encontrado... Dele não se sabe mais que quase nada, sabe-se que se calhar foi diferente... E foi... Foi único no meio de tantos iguais a ele!

"No one can tell what goes on in between the person you were and the person you become (...) there are no maps of the change. You just come out the other side... Or you don't." 

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Cada um

Não foram poucas as vezes que fora atropelado!! Atropelado pelos outros, pelas ideias dos outros, pelas tendências dos outros, pela opinião dos outros, pela lógica dos outros, pela (in)capacidade dos outros, pela vontade dos outros... Calou e calou-se muitas vezes por causa dos outros... Calou-se com a dor dos outros, calou-se pela tragédia dos outros, calou-se pela (im)possibilidade dos outros, calou-se pela falta dos outros, na falta dos outros, calou-se sempre... Calou-se, foi atropelado, deixou-se sempre ficar para trás... Os outros, esses não se calavam, eles julgavam o mundo deles maior que o dos outros, julgavam os problemas deles maiores que os dos outros, cultivavam em si, esses outros, o espírito de de mártires, de infortunados... Nunca imaginou, porém, que calar-se tantas vezes o levasse um dia a ser atropelado por si próprio, pelas coisas que calou, pelas opiniões que calou, pelas vontades que atropelou, pelos medos que enfrentou (ou não), nunca pensou que os medos que escondeu para acolher o medo dos outros um dia o atropelassem com a vontade de quem vai conquistar o mundo com 1 folha de papel em branco. Sentia-se perdido num mundo que sempre fora seu e para o qual nunca olhara! Em vez de olhar para esse mundo que era o seu, ouvia a tempestade do mundo dos outros e enquanto não havia tempestades no mundo dele deixou-se ficar... Calado... Agora, agora trovejava no seu mundo, a chuva fazia-se sentir mesmo debaixo dos cobertos construídos com a certeza de nunca virem a ser precisos. Os mares varriam o seu mundo como ondas varrem areia das margens. Nunca tinha parado para construir barreiras às suas tempestades, preferiu aguentar sempre as tempestades dos outros, no fim de contas as tempestades parecem sempre magníficas quando vistas a uma distância segura. Agora, que as tempestades atingiram o seu mundo, sentia-se destruído... Dizem que aguentou porque encontrou alguém capaz de calar o vento e a tormenta do seu mundo, como quem embala uma criança ensonada. Se é verdade não se sabe, apenas se sabe que no mundo dele também chovia e não era tudo sol e finos em esplanada... Uns ficaram felizes, outros ficaram indiferentes, poucos entraram no mundo dele com vontade de o reconstruir, mas diz-se que os que entraram tinham a força de mil "homens"... Cada um!!

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Num sítio encantado

Já tinha sido há muitos anos... Num sítio encantado que ninguém conhecia, nem eles sabiam que existia, nem depois de o construírem. Viviam sem pensar e teriam sido felizes se se não tivessem lembrado de pensar. Nunca ninguém lhes havia dito que se não podia pensar em sítios encantados, ninguém lhes disse que o pensamento é que destruía sítios perfeitos. Perdidos uma vez em pensamentos, correram o risco de destruir o tal sítio, o sítio encantado deles. Tempestades surgiam a cada pensamento, o sol desaparecia a cada conclusão do que tudo significaria, a lua não surgia enquanto ponderavam o depois. Ninguém lhes tinha dito. Entre promessas perdidas numa vida que nunca chegou a ser dos dóis deixaram fugir aquele sítio construído à beira mar, exposto às ondas maiores, aos ventos mais fortes, exposto a tudo o que o podia destruir... Mas, enquanto não tinham pensado, eram intocáveis, nem a maior tempestade os conseguiria destruir, diziam os que de longe os conseguiam ver de quando em volta!! Um dia, um dia qualquer, de uma onda maior que o mar surgiu uma parede que os derrubou e os tentou fazer perder de vista. Julgados separados até ao fim dos dias lutaram contra todas as tempestades, contra todos os monstros que haviam criado, contra todas os muros que se lhes impuseram, ultrapassaram todas as  histórias que se haviam inventado que nunca mais se encontrariam... Lutaram, como quem luta com o anjo do destino e acredita que o consegue vencer, lutaram até não lhes restar mais nada, nem sítio, nem tempo, talvez restasse um sopro de vida, de vida dos dois que se perderam! E, depois de nunca desistirem, lá se encontraram noutro sítio qualquer, longe daquele encantado que criaram. E de lá construíram outro, porque as ondas até podem destruir um sítio encantado, mas nunca os destruiria, no fim todos perceberam que encantados já eles eram e onde quer que estivessem seria um sítio encantado, porque o anjo do destino já há muito percebera que lhes não podia impor outro fado que não aquele que eles quisessem... Eram livres porque sonhavam e porque acreditavam, não se deixaram perder nas tempestades inventadas pelos que os queriam destruir, não se deixaram levar pelos pensamentos tempestuosos que de quando em volta os caracterizavam! Eram livres e encantados por uma estranha capacidade de resistir a tudo, resistiram ao destino, resistiram à morte enquanto viveram. Não se sabe se foram sempre assim, se ficaram juntos, o que se sabe era que o sentimento que os unia nunca os deixaria ficar muito longe, puxavam-se um para o outro mesmo que não quisessem... Dizem os que acreditam, que mesmo que não tivessem lutado, todas as tempestades os voltariam a juntar, como que de um feliz acaso se tratasse!! Podem não ter ficado juntos, mas estiveram sempre lado a lado, apoiaram-se incondicionalmente, até onde se ainda não julgava possível!! Não se sabe se foram felizes, o que se sabe é que o que quer que tenham sido, foram juntos!! Não se sabe se o sítio que voltaram a construir era encantado, não se sabe se mais tempestades viriam, ou vieram... O que se sabe é que mais que sítios, mais que tempestades, mais que ventos e tormentas e monstros... Foram sempre os dois... Numa dança infinita até acabar... Ao fim de muitos anos sabe-se que foram esquecidos, mas nunca se esqueceram!!

De: Helena Coutinho

"Aqui jaz um corpo que esculpiu palavras.
Aqui jaz o sorriso de quem ousou querer o mundo dos imortais;
os cabelos onde borboletas passeavam liberdade
e as mãos de jardim, onde beija-flores bebiam fantasia…
Aqui jaz a que não temeu sonhar todas as vontades do coração.
Aqui repousa a alma da que jamais descansou de sentir tudo,
de todas as maneiras.
Aqui ecoará, para sempre, um querer, infinito, de poeta.
Aqui perdurará o tempo que a vida não me deixou escrever."

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Boa noite

Mais uma noite havia passado... Mais uma noite perdida... Talvez... Afinal, quantas noites já perdera ao longo destes anos... Já há muito havia percebido que a maioria das noites não dormidas pouco mais eram que nada. Pouco mais que uma dor de cabeça no dia seguinte... Deitou-se embriagado pelas conversas da treta, drogado pelos cenários de embriaguez que perseguiu a noite inteira. Antes tomou um café, como que para despertar para dormir. Ou para se envolver com as pessoas que perderam a noite a dormir e acabavam de acordar para mais um dia, enquanto ele se preparava para dormir. Chegado a casa caiu redondo, como que se o café o tivesse deixado cheio de energia para dormir. Quando acordou tinha a ideia de que a noite não fora nada, foi uma noite igual às outras todas. O tempo passou e outra noite se aproximou. Aos poucos foi percebendo que não foi só mais uma noite, foi uma noite diferente das outras todas, voltou a ver o sol nascer. Voltou a perceber que nem tudo se perde na tempestade, percebeu que nem tudo o que é dado como perdido é encontrado. Percebeu que muitas vezes o que está perdido não deveria ser mesmo encontrado. Aos poucos foi percebendo que se tem de aceitar o que fica para trás para conseguir compreender o que vem pela frente. "Foi uma boa noite", pensou!! E por aí vem outra, outra nova noite. Será sempre só mais uma, enquanto houver outra a seguir. E é assim que tem de ser, foi assim que percebeu que o passado nunca terá o peso do futuro e a leveza do presente. "Sim, foi mesmo uma boa  noite"!!

Boa noite...

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

No meio do caminho tinha um poeta

"No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra."

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Uma cerca, uma pequena cerca

Era feliz, até ali, até onde conhecia. No fundo nunca pensara muito no que teria feito para ser feliz. A vida corria-lhe como o sangue, que sabia correr-lhe nas veias desde aquela vez que se cortara a avançar aquela cerca. Não ligou muito, a felicidade estava do outro lado, o golpe, esse, mal o sentiu. Atingido o outro lado, a felicidade corria-lhe mais depressa que a dor lhe percorria o corpo. Muitos anos lhe haviam atravessado desde esse pequeno golpe de felicidade. Agora, da janela, olhava para a cerca e perguntava-se como a teria algum dia avançado, era alta, pensava. Naquela altura não pensou, avançou sem medo, sem pensar, avançou sem calcular. Hoje, da tal janela diferente das outras todas, observa a felicidade do outro lado, com a certeza óbvia de que desta vez nunca a conseguirá alcançar. A felicidade ainda lhe grita, lá, do outro lado "Anda, tu és capaz, já o fizeste antes!! Não penses, não tenhas medo, afinal o que tens a perder? Nunca pagarás mais que um golpe!! E se não valer a pena será só um golpe, um golpe que te fará lembrar que pelo menos tentaste". Do lado de cá respondia-lhe envergonhado que tinha medo, agora tinha a capacidade de calcular os riscos e era demasiado arriscado tentar um salto que sabia impossível para as suas pernas, tivesse, ao menos, uma escada para lhe facilitar a subida e um colchão para lhe amparar a queda do outro lado. Não tinha nada além de um colchão do lado de cá e uma escada do lado de lá. Vistas assim as coisas, fazia mais sentido a felicidade vir até ele. Só não viria se não quisesse, tinha tudo a seu favor. Todos os dias espreitava à janela , sempre a mesma escada, sempre a mesma felicidade, sempre tudo ao contrário. Longos anos se devem ter passado, agora imaginava que nem conseguiria subir a escada se o mundo se virasse e ao cair ao outro lado pouco mais lhe restava que uma perna partida. A felicidade, essa, já lhe havia deixado de acenar há muito. Pelo que parece não espera pela coragem, já há muito deveria ter tentado a medo. Agora, agora até teria coragem, mas seria um salto em vão, talvez caísse, talvez já tivesse caído há muito no esquecimento. Talvez fosse apenas uma breve memória do que nunca foi para a felicidade. É tarde, é sempre tarde. Talvez o colchão fosse um trampolim, quem sabe. Um dia foi até perto da grade... Já tarde, já sem nada do outro lado. Era uma grade caída, quem diria. Lá, de longe, da janela, pareceu-lhe sempre intransponível e afinal, dali, era só serpentear por entre os ferros e estaria do outro lado. Não se atreveu a ir ao outro lado e descobrir que não havia nada... Preferiu voltar para a janela e continuar a imaginar que a grade foi sempre assim, intransponível, porque no fundo foi... Foi uma barreira, talvez psicológica, para aquilo que nunca chegaria a ser. E sabe-se que nunca foi, porque já não havia nada para ser. Não se sabe bem quanto tempo passou, o que realmente aconteceu não se sabe, só se sabe que não foi tempo. sabe-se que o tempo passou, não se sabe para onde. Mas agora, que também há-de ser tempo, não há nada a não ser mais tempo para mais nada. E diz-se que a sua vida foi cheia de nada. Diz-se que poderia ter sido tudo. É tarde para ele, para a felicidade e para a grade que se diz ir ser removida para construir um muro. Dali, da janela, lamenta apenas que o muro o impeça de ver a felicidade. E acaba por se nem lembrar que poderia correr para o outro lado antes que levantem o muro. Afinal, ali poderá ser sempre feliz com o que não há do outro lado. Porque enquanto estiver do lado de cá, haverá sempre felicidade do lado de lá. E há-de ser esta esperança que o faz acordar todos os dias e percorrer o mesmo caminho de sempre para lado nenhum.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Nada

A vida vem com morte marcada... Às vezes vem mais tarde, às vezes vem mais cedo... Há a sorte de não termos de esperar no mesmo sítio e há a sorte de se poder tentar viver enquanto se espera. Uns perdem o tempo com a vida dos outros e assim perdem o tempo da vida delas. E a cada instante que passa é mais um instante que se perde ou se ganha. Não se pode ganhar à morte, pelo que se crê, mas pode-se vencer batalhas de instantes. E a todos os que se perdem na vida dos outros e perdem mais um bocadinho para a morte, enquanto julgam ganhar um bocadinho da vida dos outros costuma dizer-se: nada...

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Saudade

Estava por ali perdido em pensamentos. De repente um sentimento invade-o abruptamente. Era um sentimento todo ele novo, cheio de emoção, cheio de vida e no entanto vazio... Era saudade, mas era um novo tipo de saudade que nunca experimentara... No entanto não se assusta, apesar de ser um sentimento que nunca conhecera, não o fez pular do seu confortável sofá. Por ali andava a saudade do seu cão, aquele que sempre desejara ter e nunca acabara por "conquistar" (sim, porque um cão tem de se conquistar, não é só ter lá em casa), tinha saudade daquelas férias com os amigos que nunca chegaram a ser, tinha saudades daquele amor que nunca chegou a viver, saudades daquela viagem para não mais voltar que nunca tivera coragem de concretizar, sentia saudade daquele casaco que viu uma vez numa qualquer rua que acabou por não comprar. Tinha saudade até daquele momento em que não foi, mas acabou por ir e não devia. Tinha saudade daqueles breves momentos em que pediu que não fossem, tinha saudade da tristeza daquele amor, daquele que também não deve ter sido. Tinha saudade de tudo o que quase foi. Tinha saudade de ter arriscado!! Tinha saudade. Onde outro qualquer teria encontrado arrependimento ele encontrou saudade. Talvez porque tenha sempre compreendido porque ficava, porque não ia, porque seria, porque não poderia ser, porque deveria não comprar um casaco que combinava mal com as meias, porque sabia... E o saber deixava-o ter saudade... Deixava-o sorrir para o passado com orgulho... Deixava-o sonhar com o que não foi! Era um sonhar com o que seria, era no fundo, como alguém lhe havia dito um dia, "ter saudade do futuro"... Porque se nunca chegou a ser ainda não é passado, ainda é uma porta aberta para o futuro. Foi por ali, por aqueles instantes que percebeu que não era, afinal, uma pessoa sem sonhos. Percebeu ali que os seus sonhos são os mesmos de sempre, são já saudade, são já como se tivessem acontecido sem nunca o terem de ser. Percebeu, por fim, que sonhava mais que todos os que lhe apontavam o dedo por sonhar de menos e se diziam sonhar alto. Sonhavam baixo, afinal... Sonhava mais alto ele porque esteve sempre a um pequeno passo do sonho da saudade. Ao contrário dos outros, que sabem onde estão os sonhos, mas não sabem como lá chegar, ele sabe porque não chegou à saudade e agora é só sonhar. Agora é só continuar a sorrir para tudo o que tem e ter saudade de tudo o que poderia ter. É olhar, sorrir e sonhar com a saudade que terá um dia pelo que nunca foi hoje. Ah, saudade!! Saudade do futuro preso por bocadinho de sonho perdido num passado que ainda pode não o ter sido. 

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Heróis

Os heróis de antigamente faziam frente aos mais poderosos, os heróis de agora batem nos miúdos pequenos. Os heróis de antigamente construíam tudo com um quase nada que se não sabia de onde vir, os heróis de agora destroem tudo sem se perceber como será possível destruir tanto em tão pouco tempo. Os heróis de antigamente opunham-se, sem medo, às opiniões pequenas... Morriam, mas com eles morria a convicção de que sempre foram o que quiseram. Os heróis de agora adaptam-se às opiniões e morrem invictos, sem verdade, sem razão... Vazios... Os únicos heróis, agora, são os que amam sem querer destruir o que os que amam possam amar mais. Os únicos heróis, os que ainda se podem chamar, são os que constroem à sua passagem, são os que deixam ficar a medo, são os que olham e vêem para lá de si. Os verdadeiros heróis sãos os que abandonam o conforto dos seus lares, para partilharem o lar atormentado de outros "quaisqueres", são aqueles que abraçam um moribundo, são aqueles que respiram ao lado de alguém que dá, por fim, o seu último suspiro. são aqueles que sofrem com os que se não salvam, são aqueles que que descem ao mundo, sem medo de não voltar e abraçam os que são aceites como ninguém. São os que sabem tanto quem ser que, sem medo algum de se perderem de quem são, se confundem com a multidão de "ninguéns" e com eles caminham para o fim, que esperam não ser também o deles. São esses os heróis, é por esses que o mundo ainda faz sentido... É por eles que ainda existe a palavra "herói", é por eles que esta palavra mais não é que mais uma terra do nunca. Por eles.