Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

A mostrar mensagens de Fevereiro, 2014

Adeus

Despediram-se muitas vezes... Como que a treinar para um adeus que já há muito havia sido imaginado e que dificilmente seria outra coisa além disso... Sabiam que num qualquer dia a vida os levaria para longe um do outro... Cruzarem-se foi um feliz acaso e talvez tivesse sido sempre se ficassem... Mas, no fim de contas, quis o destino que se aproximassem já com a certeza de que não ficariam tanto tempo como talvez quisessem. De todas as vezes que se despediram com o leve tom de saberem que não iam doeu... Pensar destruía-os lentamente... Quando chegasse esse tal último adeus, aquele em que iam perceber que se voltariam eventualmente a cruzar, como quem volta a passar por aquele sítio que se transformou noutro, onde se passaram horas a rir de nada, onde se inventaram histórias encantadas para sempre, e que não iria nada ser igual, talvez tivessem vontade de ficar e voltar a ser o que já foram, mas sabiam que iriam seguir "viagem", porque já ali não pertenciam, ou julgavam não…

No fim foi igual aos outros todos

Perdido num mundo que não conhecia, tentava incessantemente encontrar alguma coisa... Sentia sempre que estava incompleto, sentia a cada passo que lhe faltava outro... Era uma busca constante de uma coisa que nem sabia o que era... Os dias iam passando e ele caminhando pelo tempo, como que se, a cada passo, vislumbrasse outro caminho, um caminho melhor, talvez. E enquanto caminhava de olhos postos no desconhecido, caminhava sem medo, com vontade, com convicção... Embora perdido, sabia que se iria encontrar em algum lado, que a qualquer momento daria o passo certo, o passo decisivo, o passo esperado. No fundo não procurava nada, procurava só o motivo pelo qual não queria parar de caminhar... Sentia-se perdido na multidão que já julgava ter encontrado tudo, ouvia as suas histórias, as suas conquistas, as suas vitórias e todas lhe pareciam iguais, vulgares contos... Muitas vezes pensou que, no fim de contas, a maioria das pessoas que ouvia é que estavam perdidas, perdidas nas suas vulga…

Cada um

Não foram poucas as vezes que fora atropelado!! Atropelado pelos outros, pelas ideias dos outros, pelas tendências dos outros, pela opinião dos outros, pela lógica dos outros, pela (in)capacidade dos outros, pela vontade dos outros... Calou e calou-se muitas vezes por causa dos outros... Calou-se com a dor dos outros, calou-se pela tragédia dos outros, calou-se pela (im)possibilidade dos outros, calou-se pela falta dos outros, na falta dos outros, calou-se sempre... Calou-se, foi atropelado, deixou-se sempre ficar para trás... Os outros, esses não se calavam, eles julgavam o mundo deles maior que o dos outros, julgavam os problemas deles maiores que os dos outros, cultivavam em si, esses outros, o espírito de de mártires, de infortunados... Nunca imaginou, porém, que calar-se tantas vezes o levasse um dia a ser atropelado por si próprio, pelas coisas que calou, pelas opiniões que calou, pelas vontades que atropelou, pelos medos que enfrentou (ou não), nunca pensou que os medos que es…

Num sítio encantado

Já tinha sido há muitos anos... Num sítio encantado que ninguém conhecia, nem eles sabiam que existia, nem depois de o construírem. Viviam sem pensar e teriam sido felizes se se não tivessem lembrado de pensar. Nunca ninguém lhes havia dito que se não podia pensar em sítios encantados, ninguém lhes disse que o pensamento é que destruía sítios perfeitos. Perdidos uma vez em pensamentos, correram o risco de destruir o tal sítio, o sítio encantado deles. Tempestades surgiam a cada pensamento, o sol desaparecia a cada conclusão do que tudo significaria, a lua não surgia enquanto ponderavam o depois. Ninguém lhes tinha dito. Entre promessas perdidas numa vida que nunca chegou a ser dos dóis deixaram fugir aquele sítio construído à beira mar, exposto às ondas maiores, aos ventos mais fortes, exposto a tudo o que o podia destruir... Mas, enquanto não tinham pensado, eram intocáveis, nem a maior tempestade os conseguiria destruir, diziam os que de longe os conseguiam ver de quando em volta!!…

De: Helena Coutinho

"Aqui jaz um corpo que esculpiu palavras.
Aqui jaz o sorriso de quem ousou querer o mundo dos imortais;
os cabelos onde borboletas passeavam liberdade
e as mãos de jardim, onde beija-flores bebiam fantasia…
Aqui jaz a que não temeu sonhar todas as vontades do coração.
Aqui repousa a alma da que jamais descansou de sentir tudo,
de todas as maneiras.
Aqui ecoará, para sempre, um querer, infinito, de poeta.
Aqui perdurará o tempo que a vida não me deixou escrever."

Boa noite

Mais uma noite havia passado... Mais uma noite perdida... Talvez... Afinal, quantas noites já perdera ao longo destes anos... Já há muito havia percebido que a maioria das noites não dormidas pouco mais eram que nada. Pouco mais que uma dor de cabeça no dia seguinte... Deitou-se embriagado pelas conversas da treta, drogado pelos cenários de embriaguez que perseguiu a noite inteira. Antes tomou um café, como que para despertar para dormir. Ou para se envolver com as pessoas que perderam a noite a dormir e acabavam de acordar para mais um dia, enquanto ele se preparava para dormir. Chegado a casa caiu redondo, como que se o café o tivesse deixado cheio de energia para dormir. Quando acordou tinha a ideia de que a noite não fora nada, foi uma noite igual às outras todas. O tempo passou e outra noite se aproximou. Aos poucos foi percebendo que não foi só mais uma noite, foi uma noite diferente das outras todas, voltou a ver o sol nascer. Voltou a perceber que nem tudo se perde na tempest…

No meio do caminho tinha um poeta

"No meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra."
Carlos Drummond de Andrade

Uma cerca, uma pequena cerca

Era feliz, até ali, até onde conhecia. No fundo nunca pensara muito no que teria feito para ser feliz. A vida corria-lhe como o sangue, que sabia correr-lhe nas veias desde aquela vez que se cortara a avançar aquela cerca. Não ligou muito, a felicidade estava do outro lado, o golpe, esse, mal o sentiu. Atingido o outro lado, a felicidade corria-lhe mais depressa que a dor lhe percorria o corpo. Muitos anos lhe haviam atravessado desde esse pequeno golpe de felicidade. Agora, da janela, olhava para a cerca e perguntava-se como a teria algum dia avançado, era alta, pensava. Naquela altura não pensou, avançou sem medo, sem pensar, avançou sem calcular. Hoje, da tal janela diferente das outras todas, observa a felicidade do outro lado, com a certeza óbvia de que desta vez nunca a conseguirá alcançar. A felicidade ainda lhe grita, lá, do outro lado "Anda, tu és capaz, já o fizeste antes!! Não penses, não tenhas medo, afinal o que tens a perder? Nunca pagarás mais que um golpe!! E se …

Nada

A vida vem com morte marcada... Às vezes vem mais tarde, às vezes vem mais cedo... Há a sorte de não termos de esperar no mesmo sítio e há a sorte de se poder tentar viver enquanto se espera. Uns perdem o tempo com a vida dos outros e assim perdem o tempo da vida delas. E a cada instante que passa é mais um instante que se perde ou se ganha. Não se pode ganhar à morte, pelo que se crê, mas pode-se vencer batalhas de instantes. E a todos os que se perdem na vida dos outros e perdem mais um bocadinho para a morte, enquanto julgam ganhar um bocadinho da vida dos outros costuma dizer-se: nada...

Saudade

Estava por ali perdido em pensamentos. De repente um sentimento invade-o abruptamente. Era um sentimento todo ele novo, cheio de emoção, cheio de vida e no entanto vazio... Era saudade, mas era um novo tipo de saudade que nunca experimentara... No entanto não se assusta, apesar de ser um sentimento que nunca conhecera, não o fez pular do seu confortável sofá. Por ali andava a saudade do seu cão, aquele que sempre desejara ter e nunca acabara por "conquistar" (sim, porque um cão tem de se conquistar, não é só ter lá em casa), tinha saudade daquelas férias com os amigos que nunca chegaram a ser, tinha saudades daquele amor que nunca chegou a viver, saudades daquela viagem para não mais voltar que nunca tivera coragem de concretizar, sentia saudade daquele casaco que viu uma vez numa qualquer rua que acabou por não comprar. Tinha saudade até daquele momento em que não foi, mas acabou por ir e não devia. Tinha saudade daqueles breves momentos em que pediu que não fossem, tinha …

Heróis

Os heróis de antigamente faziam frente aos mais poderosos, os heróis de agora batem nos miúdos pequenos. Os heróis de antigamente construíam tudo com um quase nada que se não sabia de onde vir, os heróis de agora destroem tudo sem se perceber como será possível destruir tanto em tão pouco tempo. Os heróis de antigamente opunham-se, sem medo, às opiniões pequenas... Morriam, mas com eles morria a convicção de que sempre foram o que quiseram. Os heróis de agora adaptam-se às opiniões e morrem invictos, sem verdade, sem razão... Vazios... Os únicos heróis, agora, são os que amam sem querer destruir o que os que amam possam amar mais. Os únicos heróis, os que ainda se podem chamar, são os que constroem à sua passagem, são os que deixam ficar a medo, são os que olham e vêem para lá de si. Os verdadeiros heróis sãos os que abandonam o conforto dos seus lares, para partilharem o lar atormentado de outros "quaisqueres", são aqueles que abraçam um moribundo, são aqueles que respiram…