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Uma cerca, uma pequena cerca

Era feliz, até ali, até onde conhecia. No fundo nunca pensara muito no que teria feito para ser feliz. A vida corria-lhe como o sangue, que sabia correr-lhe nas veias desde aquela vez que se cortara a avançar aquela cerca. Não ligou muito, a felicidade estava do outro lado, o golpe, esse, mal o sentiu. Atingido o outro lado, a felicidade corria-lhe mais depressa que a dor lhe percorria o corpo. Muitos anos lhe haviam atravessado desde esse pequeno golpe de felicidade. Agora, da janela, olhava para a cerca e perguntava-se como a teria algum dia avançado, era alta, pensava. Naquela altura não pensou, avançou sem medo, sem pensar, avançou sem calcular. Hoje, da tal janela diferente das outras todas, observa a felicidade do outro lado, com a certeza óbvia de que desta vez nunca a conseguirá alcançar. A felicidade ainda lhe grita, lá, do outro lado "Anda, tu és capaz, já o fizeste antes!! Não penses, não tenhas medo, afinal o que tens a perder? Nunca pagarás mais que um golpe!! E se não valer a pena será só um golpe, um golpe que te fará lembrar que pelo menos tentaste". Do lado de cá respondia-lhe envergonhado que tinha medo, agora tinha a capacidade de calcular os riscos e era demasiado arriscado tentar um salto que sabia impossível para as suas pernas, tivesse, ao menos, uma escada para lhe facilitar a subida e um colchão para lhe amparar a queda do outro lado. Não tinha nada além de um colchão do lado de cá e uma escada do lado de lá. Vistas assim as coisas, fazia mais sentido a felicidade vir até ele. Só não viria se não quisesse, tinha tudo a seu favor. Todos os dias espreitava à janela , sempre a mesma escada, sempre a mesma felicidade, sempre tudo ao contrário. Longos anos se devem ter passado, agora imaginava que nem conseguiria subir a escada se o mundo se virasse e ao cair ao outro lado pouco mais lhe restava que uma perna partida. A felicidade, essa, já lhe havia deixado de acenar há muito. Pelo que parece não espera pela coragem, já há muito deveria ter tentado a medo. Agora, agora até teria coragem, mas seria um salto em vão, talvez caísse, talvez já tivesse caído há muito no esquecimento. Talvez fosse apenas uma breve memória do que nunca foi para a felicidade. É tarde, é sempre tarde. Talvez o colchão fosse um trampolim, quem sabe. Um dia foi até perto da grade... Já tarde, já sem nada do outro lado. Era uma grade caída, quem diria. Lá, de longe, da janela, pareceu-lhe sempre intransponível e afinal, dali, era só serpentear por entre os ferros e estaria do outro lado. Não se atreveu a ir ao outro lado e descobrir que não havia nada... Preferiu voltar para a janela e continuar a imaginar que a grade foi sempre assim, intransponível, porque no fundo foi... Foi uma barreira, talvez psicológica, para aquilo que nunca chegaria a ser. E sabe-se que nunca foi, porque já não havia nada para ser. Não se sabe bem quanto tempo passou, o que realmente aconteceu não se sabe, só se sabe que não foi tempo. sabe-se que o tempo passou, não se sabe para onde. Mas agora, que também há-de ser tempo, não há nada a não ser mais tempo para mais nada. E diz-se que a sua vida foi cheia de nada. Diz-se que poderia ter sido tudo. É tarde para ele, para a felicidade e para a grade que se diz ir ser removida para construir um muro. Dali, da janela, lamenta apenas que o muro o impeça de ver a felicidade. E acaba por se nem lembrar que poderia correr para o outro lado antes que levantem o muro. Afinal, ali poderá ser sempre feliz com o que não há do outro lado. Porque enquanto estiver do lado de cá, haverá sempre felicidade do lado de lá. E há-de ser esta esperança que o faz acordar todos os dias e percorrer o mesmo caminho de sempre para lado nenhum.

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