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Nunca serás... Até ao fim

E... À noite, quando a luz se vai e os medos e o escuro e a verdade te surgem e te acordam do dia que sonhavas, Percebes que lutas e lutarás sempre por um nunca será, que chega a ser enquanto não encostas o corpo à cama e à alma à verdade. Quente pelo sonho, deitaste ainda morno, para começar a gelar no calor que só se faz sentir à superfície... O futuro, esse, há-de vir cheio de nada, cheio do que nunca foi... E vais deitar-te assim, até ao fim dos dias, com quem nunca foste... Vais crescer como quem nunca cresceu realmente. Vais viver como quem já viveu mil anos e hás-de morrer como quem ainda não nasceu. Envolto em sonhos serás sempre feliz, à luz da realidade serás vazio. E no fim quando a luz e o escuro se misturarem, serás só mais uma sombra que vagueia sem norte, sem razão, sem rumo, sem um porto seguro... Sem casa, à procura do que nunca seria, mesmo quando encontrado. À procura do que nunca foi, e do que nunca será serás sempre mentira. Serás a farsa que te não viu viver, tão pouco nascer... Serás vazio, serás nada, serás só a sombra de quem nunca foste.

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Soltamos das paredes da imaginação o quadros com os sonhos... Caminhamos por caminhos que nunca tinham sido nossos... Deixamos quem éramos lá atrás e retocamos os quatros ainda há pouco desprendidos. Entorpecidos pelo amor, caminhamos enquanto pintamos, sonhamos enquanto caminhamos, construímos enquanto destruímos. Depois de soltos os sonhos, acabam por se prender em quem amamos. Ali, em quem amamos, residem agora os quadros dos nossos sonhos, as paredes da nossa imaginação, os limites da nossa existência. Ali, ali fica tudo o que já fomos e tudo o que gostaríamos de ter sido. Ali, como quem troca para uma casa maior e mais bonita, procuramos uma parede mais perfeita onde possamos decorar a vida.

Mas, quando por alguma razão o amor nos falha e a vida nos ludibria, deixamos de ser quem já fomos. Há muito deixamos aquelas paredes velhas. E há muito que os sonhos que um dia soltamos das paredes já não são os mesmos. Quando o amor nos falha por qualquer razão voltamos sem sonhos, pelo men…
Morreste-me ali amor... Sei que ainda respiras... Mal, mas respiras... Sei que ainda aí vives... Mas sei que te perdi ali algures onde a vida vira... Fomos tantas e tantas vezes ao limite do ser que nos perdemos para lá do ir... Fomos longe demais procurar o que tínhamos mesmo à mão de ser... Quisemos ser tudo... Quisemos viver tudo, quisemos ter a certeza... E com a certeza de que o amanhã é incerto, guiamo-nos pela incerteza... Perdidos por ali... Fomos morrendo...
Agora, agora vais-me a enterrar quando não restar nada... Quando formos só uma imagem do ontem, um sonho enterrado vivo e morto à nascença... Morremos ali... Aonde a vida vai e nos ficamos... Vamos a enterrar, sozinhos de nós...

De: Helena Coutinho

"Aqui jaz um corpo que esculpiu palavras.
Aqui jaz o sorriso de quem ousou querer o mundo dos imortais;
os cabelos onde borboletas passeavam liberdade
e as mãos de jardim, onde beija-flores bebiam fantasia…
Aqui jaz a que não temeu sonhar todas as vontades do coração.
Aqui repousa a alma da que jamais descansou de sentir tudo,
de todas as maneiras.
Aqui ecoará, para sempre, um querer, infinito, de poeta.
Aqui perdurará o tempo que a vida não me deixou escrever."