domingo, 18 de janeiro de 2015

O chão que te foge

O tempo, aquele que se tenta agarrar e sempre nos foge mesmo de mão fechada e coração aberto, esse diz-nos que a felicidade tem duração limitada. Teve muitas vez a vontade de parar a vida num momento, ou em dois. Teve muitas vezes vontade de transformar um momento numa vida inteira, um mundo numa eternidade. Mas o tempo, esse, ensinou-lhe também que nem sempre se chega a tempo, nem o tempo é o mesmo para todos. Pergunta-se muitas vezes se tivesse chegado teria apanhado o mesmo futuro, pergunta-se se teria mudado o mundo inteiro, o seu, o dos outros que o rodeiam. Agora, agora é tarde e o ir torna-se cada vez mais iminente, mesmo quando dá conta de que pode ficar, percebe que mesmo ficando o mundo que imaginara seu dali em frente há-de ir junto com o tempo. Muitas vezes se queixa que o tempo lhe foge, mas outras tantas vezes barafusta porque o tempo corre depressa demais. A vida, essa, seria perfeita, tivessem os tempos sido outros. Não foram, nunca serão, talvez nunca pudessem ser. Tem vontade de agarrar todos os momentos e guardá-los junto ao coração para que nunca mais se esqueça de como é ver o mundo de cima, de um sítio só alcançável durante aquele tempo. Agora, que é altura de aceitar ir e construir a plataforma de partida, só quer ficar ali, quieto, a ver o tempo passar. E o sono, aquele que tantas vezes o arranca do mundo e o deixa descansar da vida que o destrói aos poucos tarda a chegar. Deixa-se ficar acordado, perdido em sonhos e em realidades que nunca serão. Já tem os nomes para as coisas e o sítios para o que nunca será, como se tivesse a certeza que sempre seria. Assim se deixa ficar até o sono o levar e o sonho o arrastar para o mundo que imaginara. Ao acordar percebe que o chão lhe foge mais um bocadinho, sempre mais um bocadinho, até o chão ser abismo, até a vida ser um arrasto, Em sonhos voa, quando acorda cai. Pudesse a vida ser um sono eterno e diz-se que nunca mais queria acordar. E quando tantos gostam de ir ele gosta de pensar que consegue ficar e aos poucos percebe que os que vão, sabem que não podem ficar. Esses aceitam o não poder ficar como ele aceita o sono. Tem vontade de lutar, mas a vontade passa-lhe de cada vez que se lembra de que quem vai, vai sempre para um sítio melhor e deixa-se ficar, quieto... O deixar ir e o aceitar não ser bate de frente com a vontade de lutar, perdido em dilema, percebe que tudo se vai perdendo à medida que tenta perceber se desistir é o mesmo que perder, ou se deixar ir é deixar que alguém ganhe. Adormece, por fim... Talvez nunca acorde e sonhe para sempre. Talvez...

E diz que a vida é feita de abrir mão de quem somos e de quem faz de nós inteiros, diz que é soltar quem nos segura o mundo e esperar que o mundo se volte a segurar sozinho. Diz que é guardar os momentos todos e pensar que o que nunca foi nunca poderia ter sido e aceitar que o que em nós não é senão a verdade não passa da maior mentira que alguma vez inventámos. A vida é um deixar passar, é um baixar os braços e abraçar o vazio, é um cair em pé no fundo e olhar para cima, é um morder os fantasmas e brincar às escuras, é um deixar doer de coração aberto, para sempre.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Dizem os loucos

Dizem por aí, os loucos curados que o nunca serão ou os loucos que se dizem ser e nunca o foram, que o amor não dói, que o amor é um ser feliz para sempre, sem princípio nem fim, apenas com altos, dizem que é um viver em plenitude uma vida inteira, ou duas, para quem tem paciência. Nunca esses tais loucos de amor e crentes da sua inquestionável força, esses que se dizem de tal forma consumidos pela sua indestrutibilidade quando na realidade pouco mais sentem que uma leve comichão no coração disseram, que o amor é fodido, difícil, tantas vezes perto da loucura, tantas vezes maravilhoso. Há alturas em que o amor, daqueles que amam sem grandes gritos e sem grandes loucuras, desejam com todas as forças nunca terem amado. Há dias em que amar é viajar até ao mais escuro e húmido e frio e tenebroso e assustador e sombrio mundo alguma vez imaginado, é ficar quieto apenas com as vozes que nos atravessam o pensamento turvo e nos gritam ao coração que o caminho é sempre para baixo, são os dias em que se cai, em que nada vale a pena, em que nada faz sentido. Em que o único sentido que se encontra é amar sem destino e direcção, amar como quem rema num oceano sem margens, acreditando para sempre, que um dia o amor bate em terra firme. É por isso que se não vive só e apenas para o amor, é por isso que se morre de outras coisas, é por isso que se não morre só de amores e também se morre de gripes. Porque para as gripes ao menos há esperança. 
Também, relativamente ao amor, nunca esses tais loucos nos disseram que o bom é o melhor, que os altos, são tão, mas tão altos que nos perdemos de vista, que perdemos de vista a vida e voamos, voamos levemente como quem nunca cairá. Nunca nos disseram que enquanto se ama, se voa sem medo, se viaja sem medo do percurso, sem medo do fim, sem medo de nada. Nunca nos disseram que a viagem seria calma e sossegada, nunca nos disseram que seriam só altos, nem nunca nos disseram que os baixos seriam tão baixos. Nunca ninguém nos disse. Amar é aprender, aprender a ir ou a ficar. E a ficar para sempre quando se aceita, quando se aceita que os altos são mais altos que os baixos, quando se sabe que a vontade de ir embora nunca será maior que a vontade de ficar. Quando se sabe que a vida não será perfeita, mas será sempre uma aventura, quando se sabe que se não vai ter medo de ser ali, quando se sabe que se será inteiro ali, até ao fim... Ali ama-se... Ali sabe-se que se pode cair e que se não pode arrastar o outro, porque será o outro que nos vai voltar a trazer ao cimo da vida, ao cimo da felicidade, ao cimo de tudo. E amar, amar é só isto, um gostar sempre e cada vez mais, um saber que (...) e gostar na mesma...É aceitar o que não é no outro perfeito em nós, é amar assim, sem mais nem porquê. E... Amar não se ensina, aprende-se... 
E se um dia o fim chegar, se um dia não houver mais energia para se ser, não se volta, não se volta com pesares e faltas de vontade, no dia em que o fim chegar, guarda-se o que foi perfeito e vive-se o que falta com o sorriso do que antes sobrou.