quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Corridas

Noites de uma corrida, onde nem sempre coerência sai a ganhar, onde o coração se despista em linha recta, onde os sentimentos perdem o sentido de orientação e onde a única solução pareces ser tu, como noutras situações, a saída parece sempre ser "a outra" e vamo-nos esquecendo que a saída depende de nós e da nossa vontade lá chegar!

domingo, 21 de outubro de 2012

Sonho..

E depois chega aquele dia em que os teus sonhos se tornam realidade, ou então transformam-se apenas num pesadelo...

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Eternidade

A explicação de eternidade,

devagar, o tempo transforma tudo em tempo.
o ódio transforma-se em tempo, o amor
transforma-se em tempo, a dor transforma-se
em tempo.

Os assuntos que julgámos mais profundos,
mais impossiveis, mais permanentes e imutáveis,
transformam-se devagar em tempo.

por si só, o tempo não é nada.
a idade de nada é nada.
a eternidade não existe.
no entanto a eternidade existe.

os instantes dos teus olhos sobre mim são eternos.
os instantes do teu sorriso são eternos.
os instantes do teu silêncio são eternos.
os momentos da tua ausência são eternos.

És eterna até ao fim.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

São novos, não tem cabeça e nunca saíram da capoeira. Apesar de Deus lhes ter dado asas, a verdade é que nunca conseguiram voar muito alto. Sentem-se fortes quando na companhia de outros da mesma espécie mas é uma ilusão. Não valem nada mas é o que há. Serão facilmente capturados. Se não o forem pela policia, se-lo-ão pela própria vida.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Um músico, mais um

"“Mais um…” pensou o músico enquanto se sentava no seu camarim à espera que os roadies acabassem de montar o material. A cadeira de mogno preto, com almofada forrada a cetim vermelho, já o acompanhava há anos. Quantos? Já nem conseguia recordar-se…


“Em que cidade é hoje o concerto, mesmo?” Há tantos meses que andava na estrada que tudo lhe parecia igual. Estava com saudades de casa, saudades de passar o dia no sofá, a preguiçar. Saudades de um dia banal, aborrecido, sem que nada acontecesse.

Abriu uma garrafa de Jack Daniel’s e encheu o pequeno copo de shot. Bebeu-o de um trago. Voltou a repetir o acto três vezes. O álcool acompanhava-o há mais tempo que a cadeira de mogno preto. “Sempre ajuda a aguentar”, pensou. Lá em cima, o público impaciente fazia-se ouvir. Gritavam por ele, chamavam-no, queriam-no… No princípio, isso era o que o fazia vibrar. A comunhão com aquela multidão de almas fazia-o sentir-se um deus, imortal e invencível! Ah, como era boa essa sensação! Hoje, tudo lhe parecia vazio, oco, sem sentido. Quando subia ao palco já não sentia nada. Os seus fãs pareciam-lhe manequins sem rosto, com alma de microchip.

Acendeu um cigarro. Três baforadas e apagou-o. Olhou para o cinzeiro e nele viu a mais perfeita metáfora para a sua vida. Estava cansado, farto de existir.. Ninguém conseguia perceber o que lhe ia no interior. Ninguém percebia o quanto dava dele em cada actuação, o quanto sofria pela sua arte. Ninguém conseguia ver as cicatrizes do seu espírito tatuadas em cada acorde, em cada verso, em cada palco. Voltou a encher o copo e bebeu.

Levantou-se. Olhou em volta e viu uma liga no chão. Uma das goupies devia ter-se esquecido. Já nem as orgias, as drogas e as noitadas lhe davam alento. Recordou os tempos em que tudo isso lhe parecia o paraíso do rock&roll e chorou. “Pelo menos ainda consigo sentir alguma coisa”, pensou enquanto limpava as lágrimas. Onde estaria a sua caixa? Encontrou-a ao fundo, encostada à sua viola. Pegou nela e de dentro retirou um saquinho de cocaína. Fez quatro riscos na mesa. Parou. O vício tinha-lhe destruído o casamento. O vício e os constantes meses na estrada, com todas as traições que isso traz. “Tudo pela música”, dizia ele à esposa, mas no fundo sabia que era mentira. Fazia-o porque precisava de algo que lhe trouxesse de novo a adrenalina que sentia quando começou a tocar e que perdeu já nem sabia quando. Deu os quatro riscos e voltou a sentar-se.

Estava quase na hora. Pensou em desistir. Porque é que ainda o fazia? Não era por dinheiro, pois fama e fortuna já tinha desde há dez álbuns atrás. Fazia-o porque, apesar de tudo, precisava de o fazer. A alma estava morta, o sofrimento era constante, mas um músico é sempre um músico, assim como um poeta é sempre um poeta. Ela era os dois.

Bateram à porta. “Está na hora”, ouviu. “Ok.”, respondeu com apatia. Pegou na viola, olhou em volta e exclamou “mais um!”. Saiu. Percorreu o corredor que dava para o palco em passo lento. Ouvia a multidão a chamar por ele. “Mais um… Amanhã outro, depois outro e depois outro… Preso para sempre neste círculo mortal. Cada dia, um pouco mais de mim se vai sem que ninguém o perceba. Cada música um requiem à minha sanidade.” Subiu ao palco. A multidão grita em êxtase. O músico olha em volta, respira fundo e começa o concerto:

Doidas, doidas, andam as galinhas
Para pôr o ovo lá no buraquinho
Raspam, raspam, raspam
P’ra alisar a terra
Picam, picam, picam Para fazer o ninho…”

Aristocratas

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Sinto o mundo a desmoronar, sinto-me ir com ele, não vislumbro ninguém a querer deitar-me a mão, nem que seja ao menos para me empurrar... Tudo à minha volta se pinta em tons de cinza, em tons de negro, nada parece resistir a este fim... As pessoas, coitadas, inocentes, continuam a lutar sem se darem conta que a única coisa que vão acabando por salvar é mais um dia cheia de nada... Porque depois há o fim, o fim de tudo... Há fins a entrarem logo nos inícios, há fins que se prolongam até fins muito longínquos, mas por muito que demorem a chegar, a sua eminência paira em cima de todos aqueles que caminham assustados, não deixa sossegar aqueles que se questionam e apanha desprevenidos aqueles que caminham "perdidos e sem sentido" sem se preocuparem com o que significa o não... E algo me diz que são estes últimos que realmente vivem...

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Nós estamos num estado comparável, correlativo à Grécia

Nós estamos num estado comparável, correlativo à Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade política, mesmo abaixamento dos caracteres, mesma ladroagem pública, mesma agiotagem, mesma decadência de espírito, mesma administração grotesca de desleixo e de confusão. Nos livros estrangeiros, nas revistas, quando se quer falar de um país católico e que pela sua decadência progressiva poderá vir a ser riscado do mapa – citam-se ao par a Grécia e Portugal. Somente nós não temos como a Grécia uma história gloriosa, a honra de ter criado uma religião, uma literatura de modelo universal e o museu humano da beleza da arte.

Eça de Queirós, in 'Farpas (1872)