quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Feliz Natal


Não é que falte tempo, ou falte espaço, ou vontade, diria até mesmo que motivos também não faltam. O que aconteceu foi que não houve empenho, não houve dedicação e este espaço foi sendo filho de pai ausente. Como que numa tentativa desesperada de compensar o tempo perdido vou dar-vos prendas!! (não, não vai acontecer!!!! Sou um pai ausente, mas dedicado quando tem de ser :p ) 

Desejo-vos um fantástico Natal... Cheio de amor e mais dedicação!! 

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Sonho

E depois, como que atropelado por uma vida que queria para si, decide acreditar, acreditar faz sentido, tal como viver ali, naquele espaço pequeno, estrondosamente pequeno, que de repente se tornou maior que tudo, maior que que a existência. Mas, como se nada o fizesse adivinhar, sente-a fugir... A vida que queria.. O futuro que um dia imaginara desvanece-se na realidade que se impôs, que foi sempre mais forte, mais forte que tudo aquilo em que acredita. é como que se o sonho que sempre se imaginara maior fosse, afinal, pequeno, esmagadoramente pequeno, à beira da realidade.. E a vida e o tempo e o tempo de vida e o que lhe resta é menos, é menos do que sonhara, é menos do que imaginara... Mas pior, muito pior, era a realidade, a sua realidade, ser tão mais pequena que o sonho. 

Dizia-se, já há muito, que era sempre assim... Aparentemente tudo parecia ser possível, que a simbiose se julgava perfeita, até que se percebia que a perfeição nem sempre chega, o sentimento de sobra nem sempre é suficiente... Afinal é como todos diziam, os sonhos não cabem na realidade... E não cabem só porque parecem possíveis e parecem fáceis de alcançar e parecem perfeitos e parecem... parecem... Só isso... Parecem... Na realidade o sonho não pode ser possível... Se fosse realidade já não era um sonho e um sonho não pode ser real... E a felicidade não pode ser assim, fácil...

E foi assim que percebeu que não podia, não podia ser real, tinha de ser um sonho... Mas depois, mais uma vez a vida e o tempo... O faziam questionar... Se o sonho pode ser real e a realidade pode ser sonhada.. Porque é que se não vive o sonho? Se na realidade o pior que acontece quando se acorda de um sonho bom é querer ficar a sonhar mais um bocadinho? Então, se agora conseguia sonhar de olhos abertos, porque é que tinha de correr mal? Porque é que não poderia voltar a querer ficar acordado e sonhar? Só mais um bocadinho?

domingo, 12 de julho de 2015

Vejo-vos por aí!!


Foi então que percebeu que o que tinha a fazer, era fazer nada... Abrir mão do que julgara ter, aceitar que era pouco mais ou pouco menos, quase que tanto fazia... Percebeu que a sua chegada não veio mudar grande coisa ao mundo, ao mundo que criara... Percebeu, talvez a tempo que aquele sonho que vivia era só dele e de mais ninguém... Dizem ainda, aqueles que olharam mais de perto, que acreditava genuinamente no que sentia... E que sentia mesmo a dor que parecia... Não sabem, mesmo aqueles que olharam mais de perto, se o sonho morreu com o mundo, ou se o mundo morreu com o sonho, o que sabem é que lá vai, não no caminho que sonhara, mas no caminho que lhe sobrava... às escondidas dele diziam que fora cego a vida inteira ao olhar para o caminho que não existia... Dizem que estivesse cego pela luz do amor, mas nem sabem se amava... O que é certo é que, mais tarde, admitira que vira para lá do que era real... Que se deixou levar pelo que sentia e era o amor que o conduzia... Se o conduziu bem ou mal... Ninguém sabia... Mas sabia ele que só tinha uma alternativa... Soube-se pouco depois que desistira... Não se sabe se vivia, mas sabe-se que ainda caminhava... Sem norte ou razão, deixou de ouvir o coração... Diz-se que se tornou mais frio... E que o olhar perder brilho... Diz-se que ficou mais vazio...
Não é que tivesse deixado de sonhar... Mas aos poucos percebeu que o lugar que julgava ocupar, não ocupava... Aquilo que julgava ser possível era atropelado pela verdade e pelo sentido e pela realidade, não é que não sentisse ser capaz, mas sabia que não era possível... Restava-lhe ir... Não é que o que sentia fosse mais pequeno, ou tivesse tendência a diminuir... Só não podia ficar ali, à beira da verdade, da outra verdade, da verdade real... Não havia já lugar para si, nem para o que sentia, nem para nada... Só havia espaço para não ser... E deixar de ser calava-o... Era o que tinha de ser... Deixar de ser... Era deixar de fazer... Era fazer nada... Partir, deixar de existir ali... 
E agora, agora podia partir... Não se sabe se partiu para algum sítio, o que se sabe é que deixou aquele... E se realmente o que sentia, era o que se dizia... Adivinhava-se que não partira, apenas desistira de fazer seu o sítio que sabia ser de outra pessoa para sempre... Era só um sonho absurdo no mundo, era só o seu e o de mais ninguém...

E com ele partiu também este sítio... Foi uma viagem engraçada... Foi um prazer ter-vos sempre comigo... Mas para onde vai este senhor, já não há espaço para este sítio... Tentarei criar outro, onde já não haja este senhor... Obrigado a todos... Até daqui a outro sítio!!!

O sítio passa a ser este:
http://outrasdiambulices.blogspot.pt/

quinta-feira, 2 de julho de 2015

O que é que se espera de onde já nada espera?

Depois, com o passar do tempo, vão-te matando os sonhos, vai morrendo o futuro, vão-se suicidando as expectativas... Vai morrendo a vida, aquela vida... E a cada dia, morre-se mais um bocadinho ali... Claro que, como se diz, morre-se aqui para se nascer noutro lado qualquer. Mas... E quando se não quer morrer ali, quando se quer continuar a sonhar, quando queremos que aquele futuro não morra e que as expectativas aguentem!? Tentamos segurar o tapete, tentamos agarrar as expectativas que estão ali mesmo, penduradas em cordas de pés sem chão já... Mais um movimento e morrem umas outras tantas... É como que se a morte fosse iminente e a única coisa que segura a vida são já as cordas de expectativas que não vivem, expectativas sem sonhos para respirar... Surge então a questão... O que é que se faz sem sonhos? Com o que é que se sonha sem expectativas, como é que se vive sem vida? Como é que se segura um futuro que já morreu? Será que nos prendemos a um futuro morto? Mas... Se é um futuro morto, como é que o presente tem ainda tanta vida? Se as expectativas já morreram todas porque é que continuamos à espera que o que nunca acontecerá, aconteça? 

terça-feira, 30 de junho de 2015

Foi ali, naquele momento, que lhe não disse que a amava, que lhe não disse que não via outra mulher no lugar da mãe dos seus filhos, ali, naquele momento em que lhe não pediu para que ficasse, ou que se fosse, o levasse com ele... Foi ali, naquele momento em que não a beijou e não deixou que aquilo que não conseguia dizer chegasse até ela... Foi ali, naquele momento em que não teve a coragem de a ver sofrer, mais uma vez, com histórias do que seria, naquele momento em que nem ele próprio teve coragem para lhe dizer que tinha a certeza de que o mundo deles seria para sempre perfeito, foi ali, naquele momento em que nem ele sabia se seria melhor para ela partir ou ficar... Foi naquele momento em que não lhe consegiu dizer que sem ela o mundo já não fazia sentido... Foi ali, naquele momento do que não foi... Que foi o momento em que a perdeu... E vai te-lá em si para sempre... E nunca a terá... Perdeu-a ali, num momento que não foi

segunda-feira, 22 de junho de 2015

É sempre a adiar... Até ao fim...

Conhecemos as pessoas durante anos, até mesmo dezenas de anos, habituamo-nos a evitar os problemas pessoais e os assuntos verdadeiramente importantes, mas guardamos a esperança de que, mais tarde, em circunstâncias mais favoráveis, se possam justamente abordar esses assuntos e esses problemas. A esperança, sempre adiada, de um relacionamento mais humano e mais completo nunca desaparece completamente, porque nenhuma relação humana se contenta com limites definitivos, restritos e rígidos. Permanece, portanto, a esperança, de que haja um dia uma relação «autêntica e profunda». E permanece durante anos, até mesmo décadas, até que um acontecimento definitivo e brutal (em geral, uma coisa como a morte) vem dizer-nos que é demasiado tarde, que essa «relação autêntica e profunda», cuja imagem tínhamos amado, também não existirá; não existirá, tal como as outras. 

Michel Houellebecq, in 'As Partículas Elementares'

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Sentia-se assim... Uma casa de férias... O sítio onde as pessoas vinham passar uns dias, onde fugiam ao mundo delas... Era assim que se sentia, o sítio que nunca será o sitio, o sítio que nunca mais será que um ponto de passagem, é um sitio bonito... Mas não é um sitio onde seja possível ficar, ali não é possível viver, é longe da vida, é longe da felicidade, fica longe do trabalho e da vida de todos os dias... É bonito, o sítio, mas é impensável ficar mais que 2 semanas... Ali até correm bem as coisas, mas não correriam sempre, é só aquele bocadinho... É uma casa, só uma casa noutro sitio, longe do lar, longe da vida, longe de tudo... Não é nada, é só um espaço desprovido de sentido, é um sítio... Só uma casa levantada do chão, com o único objectivo de ser por uns dias o que não pode ser para sempre... E o coraçao dele é assim, como essa casa... Cheio quando ela volta, vazio quando ela vai para a casa aonde pertence... Um coração que não é nada, uma casa vazia... Um mundo sem sentido...

.P.Q.P.

Tantas vezes ouvira dizer que tinha de sonhar, que tinha de acreditar, que tinha de ser feliz... E que a única forma de ser feliz era acreditar sempre, para sempre, que alcançaria os seus sonhos... Ensinaram-no também a não sonhar alto demais, a sonhar com o que era possível... A sonhar com base no futuro, a sonhar apenas com aquilo em que acreditava ser possível... Sonhou... Sonhou sempre e nunca deixou de acreditar... Até que um dia se cruzou com a realidade... E a realidade ultrapassou de longe o sonho... E foi mais feliz ainda... Foi feliz como nunca imaginara ser possível, foi feliz para lá do sonho e para cá da realidade... Fez deles o mundo dele e dele o mundo deles... Mas como em alguns sonhos, a realidade dele não fazia sentido no mundo dela... E agora?! Perguntava-se... Nunca lhe haviam falado de que a realidade poderia ser maior que qualquer sonho, nunca lhe disseram o que se fazia a partir dali... Não sabia, não sabia nada... Era tudo novo... E a realidade, tal como um sonho, tornou-se maior que ele... Como os sonhos, ele construiu a sua vida à altura de uma realidade que nunca conseguiria alcançar... Foi algures por ali que percebeu que se consegue desistir de um sonho, mas nunca se consegue desistir da realidade... Porque a realidade é a verdade... E perante a verdade não há por onde fugir... Agora... Agora restava-lhe desistir do que era real, desistir de para onde a realidade o levava, de para onde o sonho o trazia... Agora restava-lhe aceitar que a realidade ultrapassou de longe o que seria o mais lindo sonho... Restava-lhe desistir e aceitar que só podia voltar a sonhar... Desistir... Desistir de ser feliz ali, "naquele lugar" que o fazia acreditar que a vida era mais que um sonho, dali, de onde percebia que a vida era o concretizar os sonhos todos ao lado dela... Restava-lhe, por fim e como que numa última tentativa de não morrer ainda, aceitar que não esteve à altura da realidade, só esteve à altura de sonhar... Pode ser que um dia consiga voltar a sonhar... Agora, agora os sonhos já não fazem sentido... A única forma de voltar a si... É abrir mão de ser feliz... É desistir da realidade que o leva a sonhar todos os dias... É aceitar que o sorriso que o faz sentir o mundo na palma da mão não será nunca dele, é aceitar... Aceitar que a realidade se tornou muito grande para ser suportada por si... É aceitar que até agora, crente no que era real, construiu um mundo que não será nunca o seu, nunca o deles... É aceitar que a verdade dele é só dele... E desistir da realidade para voltar a sonhar... Desta vez... Um sonho mais pequeno... Um sonho ao alcance dele... Desistiu, por fim...

domingo, 14 de junho de 2015

Caminhava, como caminham todos os loucos, sem direcção. Desesperadamente à procura de um futuro que nunca seria, de uma vida que nunca teria, de uma felicidade que nunca alcançaria. Louco, caminhava. Caminhava em círculos, sonhava. Sonhava até onde a imaginação o levava. Julgava ele, o louco, que o mais feliz que conseguiria ser, seria até onde a imaginação fosse capaz de chegar. Caminhava... Sonhava... Não vivia... Perdia... Os dias, os meses, os anos, a vida, a felicidade... Perdia-a todos os dias.... Sabia-o agora, que a encontrara, que a imaginação não pode ir tão longe, que um sonho nunca poderá ser tão brilhante, que uma vida nunca poderia ser tão preenchida como fora até então... Julgara ter sido feliz até ali, àquele momento. No momento em que a realidade ultrapassa o sonho, e o que existe ultrapassa o onírico... Agora, agora percebe finalmente que nunca foi inteiro e que quem não é inteiro não é feliz. Agora, agora que a encontrou, sabe que foi sempre parte de um mundo que ele próprio construiu. Agora ela aparece-lhe e dá forma ao que nunca foi. Agora, agora que sabe o que é realmente viver num mundo de entrega e confiança e sentimento e felicidade e de vitórias e de derrotas e de tudo, agora não pode voltar a sonhar com o que sonhou um dia, agora tem de sonhar com um mundo todo ele novo, todo ele inteiro, todo ele perfeito. Agora, agora que sabe que o que sente é mais do que qualquer sonho, agora que sabe que é possível, agora que ama... Agora não sabe nada, agora não sabe sonhar, agora que não sabe outra coisa senão ser feliz à beira dela, não lhe sabe dizer que o que sempre sonhara nunca passou, na realidade, de um esboço, de um pequeno esboço dela. Agora, agora não lhe consegue explicar que o que sente por ela é tão grande que seria capaz de engolir o universo inteiro e transformá-lo num magnífico, quase mágico, jogo de luzes... Agora, agora não sabe nada... Só sabe que tudo o que antes foi, com a chegada dela desmoronou-se num magnífico palácio de ruinosos lindos sentimentos. Agora, agora sabe que só há um caminho para a felicidade, agora sabe que qualquer outro caminho não o fará feliz. Agora sabe que tem de ir por outro lado, mas agora não pode sonhar, porque o sonho fica preso ali, à beira dela. Para sempre... Sempre... E o seu sonho será sempre, para sempre, aquele sorriso que lhe aquece os dias e lhe incendeia a alma... E a sua luta, o seu sonho... será para sempre aquele sorriso, será sempre lutar por aquele brilho, por aquela magia, por aquele olhar, por aquele toque, por aquele abraço, por aquela partilha... Fica para sempre entregue a ela e ela ficará para sempre como a razão do seu sorriso... E aquele que sempre fora um louco, agora sabe aonde pertence... E pertence-lhe sempre a ela, para sempre... E nunca haverá lado algum que o faça voltar a sonhar depois de ter embarrado na perfeição... E diz-se agora, no fim dos dias... Que sorriu sempre, mesmo sem caminho ou direcção, só sentado na recordação.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

"Posso vir a ter outros amores

na hora do tédio

recusado.

Posso vir a ter outro passado

e inventar-me
em formas de viver.

E posso transgredir-me de emoção


renavegar na margem

de outros corpos.
E transmitir de mim
para outras mãos
a chama do sagrado.

E posso várias vezes repetida

condescender-me em gesto

dizer coisas que sei

e que não quero.
E ser imensa
até ao desespero.
Absoluta.
Enorme.

E encher de palavras outros nomes.


Mas é a ti que pertenço."

quinta-feira, 28 de maio de 2015

E vem por ali fora, desgovernado pela própria vontade, desorientado pela própria loucura!! Louco de querer demais, vem por ali. Quer-me parecer ser um avião? Não... Afinal é só o amor. E por muito que se não veja é capaz de ser tão espalhafatoso como um alegre avião em direcção ao chão. Dizem, a quem o amor corre muito bem, tão bem que nem chega a ser amor, que é muito lindo, que é um viver a dois como se fossem só um, mesmo que esse só um resmungo um dia inteiro para voltarem a ser dois. Outros, a quem corre menos bem, dizem que é uma coisa que corrompe por dentro, até por fora parecer que se foi atingido pelo avião que alegremente se apressava para o chão. Outros, pais sozinhos do sentimento, pais solteiros de um amor fantástico que perdeu fatalmente a mãe num acidente de cruzamento de sentimentos, percebem que não há outro sentimento igual. Tornam-se pais orgulhosos de alimentarem um sentimento, sozinhos, de o criarem, de o educarem. De o tornarem num filho do coração que não mal trata a mãe só porque não está sempre presente. Um filho que cresceu sempre acompanhado por uma mãe, que apesar do acidente que lhe cortou as pernas no cruzamento, correu sempre para o pai, como quem nunca tinha cruzado o cruzamento do sentimento. E ser pai solteiro de um sentimento é muito alimentar um filho sentido, amado. É muito criar sozinho um filho que nunca vingará, mas gostar tanto tanto de ser pai de um filho tão maior, que se quer ser sozinho uma vida inteira. Ser pai solteiro de um sentimento é ter o coração muito chegado ao peito e perceber que em muitos peitos há coragem de matar o próprio filho e aceitar que criar sozinho um filho é um tipo de coragem mais cobarde. Só um bocadinho mais cobarde. É um não querer ir em frente porque se quer desesperadamente ficar, é um não querer deixar ir porque se quer que seja para sempre. Enfim, é ser pai a tempo inteiro de uma criança que quer fugir a cada instante. 
É ser pai de uma criança que enche o coração de tal forma que se sorri sozinho no funeral do vizinho do 3º esquerdo de uma casa rés do chão. É olhar em todos os sentidos e não ver outro sentido que não aquele sentimento. É um olhar a perder de vista, a perder de tempo. É um querer ser para sempre e nunca ser. É um querer ser pai e mãe e não ser nada. É um querer ser a família inteira do amor e deixá-lo órfão, entregue a outro pai e outra mãe que serão, com toda a certeza, melhores. Os melhores pais dessa criança.

terça-feira, 19 de maio de 2015

"Ter-te longe
e desejar-te aqui,
onde o frémito do corpo acontece.
Aqui, lugar onde
o vício dos olhos e das mãos me inquieta.

Ah, ter-te perto
suster a respiração,
cerrar os olhos
e deixar que tudo comece
e acabe em ti.

Ensaiar o voo da águia
e suavemente planar sobre a superfície
sinuosa do teu corpo perfeito
no asa-delta da paixão.

Ter-te perto,
sentir o perfume da tua presença
pelo calor do corpo,
pela claridade dos olhos
e pensar
que o sol e a alegria
de cada manhã,
nascem exactamente em ti."

terça-feira, 12 de maio de 2015

A felicidade... Sussurrada ao ouvido numa palavra... "adoro-te". Simples, sincera, arrepiante, quente, completa. "Essa palavra repetida ao expoente da loucura", esse sentimento de entrega espalhado por todos os cantos da imaginação. A vida, toda ela construída ali, entre um e outro sussurro. O amor, todo ele coberto de nós, da nossa felicidade, do nosso sossego. E sem darmos conta passamos uma vida, duas... Uma eternidade. A vida inteira que conseguimos imaginar passou-nos aqui, entre um sussurro, dois sorriso, uma troca de olhares e um leve tocar na mão um leve na barriga e um abraço. Eternamente felizes fomos, eternamente felizes seremos. Fomos felizes até ao fim da vida, até ao fim dos tempos, até ao fim da loucura. Fomos o que quisemos ser, quando quisemos ser. Elevamos momentos a vidas. Vidas a mitos. Fomos deuses, fomos humanos, fomos fracos, fomos fortes, fomos tudo, somos nada. Somos loucos, somos felizes. Somos. Fomos tudo, fomos nada e nem uma hora passou.  

segunda-feira, 20 de abril de 2015

E a seguir a ti não vai haver mais ninguém... Não haverá mais abraços perfeitos, mais noites encantadas... Contigo levarás toda a magia que um dia foi nossa... Contigo levas a vida perfeita da qual nunca abdiquei... Contigo levas o meu mundo, o que restar dele, se testar. Levas contigo os dias mais brilhantes, a vida mais perfeita, contigo vou eu, inteiro... E todo o meu amor, o amor que tive sempre, fica contigo para sempre. Não nos vamos despedir, porque nunca se tem tempo de dizer adeus a quem nos leva tudo, todo, para sempre. 
Não quero abraços misericordiosos, abraços sem o nosso sentido... Quero ficar para sempre em ti e viver pela metade a vida toda. Não haverá nunca ninguém que te ocupe o lugar, não haverá quem se atreva, não haverá ninguém que me volte a fazer inteiro como serei para sempre contigo...
Contigo levas o que de melhor tive para dar e o que de pior tive para magoar. Sei que vai comigo a dor do nunca te ter dito adeus, mas sei que comigo vai a felicidade de me teres dito olá a primeira vez. Para mim serás sempre sol, sempre primavera, para mim serás sempre a vida, para mim serás sempre tu... Simples, num emaranhado de mundos e realidades e coisas que nunca poderiam ser, ou nunca serão. Levas contigo a simplicidade da felicidade... Da minha felicidade... E vou guardar para sempre o teu mais sincero sorriso, o teu mais profundo olhar. Levarás contigo o sorriso que me fará sorrir sempre, serás para sempre casa. Serás sempre a nossa rua inteira... E sempre que a lua lá alto brilha,  sei que brilhariamos os dois se a vida não nos atropelasse... "fossem estes outros tempos" e seríamos felizes para sempre. Assim o tempo não quer, assim a vida não nos deixe... E foi sempre até que o fim nos separasse, sempre com medo, mas sempre com a vontade de quem gosta e a certeza de que sempre gostará. Serás para sempre a luz que me faz brilhar, serás para sempre. Sunshininho.  

segunda-feira, 13 de abril de 2015

É a tua verdade.

"Schh... sossega".

A verdade, nem mesmo a verdade, não a digas.
Não digas nada, não vamos entender, mesmo que
a verdade acabes por dizer, vamos ficar sem 
perceber o que é de verdade a realidade.
Vamos viver, só, como se a verdade valesse
tão pouco como a mentira. Só viver, sem dizer.
Com o tempo vamos-nos lembrar do que foi
de verdade real, do que não foi mentira, mas
acabou por não ser verdade. a verdade, o tempo.
Talvez outro dia, noutro sítio, pareça que não 
foi de verdade todo este caminho que nos 
trouxe até onde quis. Na verdade, foi o caminho
que nos escolheu, não fomos nós que escolhemos
o caminho. Hoje, sem dizer, sou feliz contigo,
de verdade. Sou feliz até onde me deixares.
Não digas nada, a verdade, essa é só tua e 
de mais ninguém, a verdade. E a verdade é
só tua e não é só minha. A realidade, só essa
pode ser nossa, como a rua que nos acolheu,
de verdade. Não sei se foi ela que nos escolheu,
se fomos nós que nos escolhemos, mas não
digas já a verdade. Talvez para sempre parece
uma coisa vã, mas não digas a verdade.
Vamos ser felizes, só felizes sem verdade e 
sem mentira, vamos só ser. Nem que seja
vão o nosso existir, agora sou feliz,
Vamos viver metade de verdade, metade a 
mentir. E a mentira será sempre o qeu não 
conseguimos ser e a verdade o que não 
podemos viver. Será sempre pela metade 
a verdade ou a mentira. Vivemos sem saber
aonde irá parar esta viagem, não digas nada.
Talvez amanhã não sejamos nada, talvez 
já sejamos tudo, mas não digas a verdade.
"Não digas nada." 

sábado, 11 de abril de 2015

Chegamos ao fim, aqui onde nada existe e tudo já foi,
Ao tempo incerto de uma vida, ou duas ou três,
Segredos já não há, as grandes charadas da vida já foram desvendadas,
ou criamos em nós a ideia de que já as desmistificamos,
As noites, essas, caem sempre a seguir aos dias e o sítio,
onde nos deitamos é o sítio onde ficamos acordados durante a noite.
A vida corre lá fora, como um dia já nos correu no corpo,
Não aguentamos mais, compreendemos a vida como eles ainda
não compreendem e eles compreendem a morte como nós já
não queremos compreender e com o resto das forças que não
temos, de mãos dadas, procuramos o fim, o nosso fim, como
quem encontrou o início sem procurar. Desta vez sem esperança.
A música que sempre suportamos já não aguenta o nosso corpo
imóvel, despido de vida com uma manta de rugas fundas, rugas
que contaram os anos, todos os anos sem avançar nenhum.
Estes olhos que um dia correram o mundo, correm agora uma
parede decorada com uma televisão que passa imagens imperceptíveis
e um relógio que conta horas, nós já não contamos horas meu amor,
contamos uma vida inteira. Objectos imóveis numa vida movida
a amor e água. O coração bate agora pausadamente, como fumávamos
aqueles cigarros naquela rua que juramos ser para sempre nossa
e de mais ninguém. E o tempo passa como passava, depressa.
Na parede o relógio continua a contar a horas (absurdo).
Já não somos vida, somos memória, os olhos já mal conseguimos
abrir, o olhar, esse nunca deixamos de trocar. Os segredos, são só nossos.
Tentamos contá-los, mas parecem palavras tontas a quem ouve. Como
poderia alguém ter sido tão feliz, perguntam-se, estão doidos é o que é.
Tiram-nos fotografias, dizem que são as últimas, como nós dissemos
tantas vezes que eram as primeiras de uma vida inteira. Coitados, ainda
não viveram tempo que chegue e nós já o gastámos todo. O relógio
continua a contar-nos os anos em horas e os dias em segundos.
Agora é absurda a relevância que demos ao tempo que se conta.
E o tempo não nos perdoou a falha e caímos onde todos os outros
corpos sem vida caem. Aos olhos de todos caímos inanimados, mas
como de todas as outras vezes, foi só aos olhos deles.
Continuámos de pé aqui deitados, nesta cama que nos há-de levar ao fim.
Juntos.

Acordou, como todos os outros dias, tudo mais não fora que um sonho
e ainda não fora feliz. A parede enfeita o relógio que enfeita o tempo.
Nunca seriam felizes para sempre, talvez nunca chegassem a ser, mas
o tempo, o tempo já não lhe significava nada. E estava deitado.
Sozinho.

segunda-feira, 30 de março de 2015

Pausa

E este sítio deixou de fazer sentido, por enquanto. Um até já ;)

Someday


Sinto-te ir, aos poucos, de um sítio que julguei que fosses querer para sempre. Quando chegaste, ainda sem ideia de se ficarias ou não, foste-te instalando em mim, como quem vai partir dali a nada. E o tempo, aquele que tanto nos ensinou que nos ensina tudo, foi-te fazendo ficar. Sem querer criaste em mim o teu jardim, criaste em mim o teu mundo. E eu, sem me aperceber, deixei-te ir ficando, até ser tarde demais para te deixar ir. Espalhaste em mim a magia que já há muito havia julgado perdida, mesmo em mim. Sei que há magia lá fora, mas não acreditava que ainda alguem me faria acreditar. E tu, chegaste e abriste janelas do meu coração para o teu, fizeste pontes do meu pensamento para o teu, abriste estradas entre o meu sentir e o teu. Foste espalhando em mim pedaços de ti, pedaços de nós. Em cada canto de mim existe um pouco de ti. Até nos sítios mais inacessíveis em mim há parte de ti já. A sonoridade do teu sorriso espalhou-se em mim e a alegria de te ver sorrir faz parte do meu sorrir, para sempre. Nunca haverei de sorrir sem que parte do meu sorriso tenho uma parte de ti. E agora vais, aos bocadinhos. Deixas tudo de ti para trás, em mim. Ou te esqueceste, ou não queres levar a tua parte de mim. Nem que quisesses, jamais conseguirias levar tudo, ficarias para sempre. Saíste, levaste apenas o sorriso que trazias no corpo, levaste apenas aquele, aquele último sorriso, deixaste ficar todos os momentos, sem lhes tocar sequer, deixaste-os no mesmo sítio. Como que se ao tocar no que já foi perfeito tudo se desmoronasse. Até o virar de costas foi perfeito, soube a "até já" e nunca mais voltaste. Tenho em mim tudo o que é teu e não tenciono arrumar num canto só. Fica bem em mim o mundo que construímos. 
Um dia, se te lembrares de vir buscar o que é teu, leva-me a mim que vou cheio de ti.

sábado, 28 de março de 2015

Knowing nothing is the answer

E os momentos, do tempo que foi, tornam-se nos momentos que queria para sempre. Foram os momentos que ficarão para sempre, que nos fazem perder o norte e a razão, são os momentos que nos querem fazer ficar para sempre presos ao passado e nas noites mais frias e mais escuras e mais tenebrosas e mais angustiadas ou angustiantes que as outras, são essas memórias que nos voltam a fazer sorrir... E a fazer chorar de seguida, pelo que nunca foi, pelo que nunca teria sido, pelo que nunca será. E é o ser-se pequeno à beira da vida que nos faz querer desaparecer, que nos faz querer esquecer que um dia se foi feliz, é quase um querer ter sido miserável uma vida inteira. É quase um desejar que o que foi nunca tivesse sido. Mas... E se nunca tivesse sido? O que seria das noites sem dormir? Noites vazias de sentido, noites perdidas de razão, uma vida perdida de tudo encontrada em nada. Seria um nunca ter ganho. Ficam ao menos as memórias do que foi e a imaginação passeia-nos, como que se o que nunca poderia ter sido tivesse sido para sempre, até ao fim. Dizia ele, o que um dia julgara saber tudo e agora não sabia nada, que se não pode viver para perder. Coitado, ainda mal sabia que a vida nunca era a ganhar, mas sim a aprender a perder. E um dia, talvez um dia, se consiga levantar... E por entre a sombra esboçará um sorriso, talvez perto do fim da vida que, inocente, pensou ser eterna, o sorriso que o levará de volta ao passado que foi perfeito para sempre. 

sexta-feira, 27 de março de 2015

Não é que o falso conceito de liberdade me prenda, mas...



"Segundo apurou o Instituto de Estatística
Contra ele nunca existiu qualquer queixa oficial,
E todos os relatórios sobre a sua conduta confirmam:
No moderno sentido de uma palavra velha, ele era um santo,
Pois em tudo o que fez serviu a Grande Comunidade.
Com excepção da Guerra e até ao dia da reforma,
Trabalhou numa fábrica e nunca foi despedido;
Sempre satisfez os seus patrões, Máquinas Fraude, Lt.dª.
Mas não era fura-greves nem tinha opiniões estranhas,
Pois o Sindicato informa que sempre pagou as quotas
(E o seu Sindicato tem a nossa confiança),
E o nosso pessoal de Psicologia Social descobriu
Que ele era popular entre os colegas e gostava de um copo.
A Imprensa não duvida de que comprava um jornal por dia
E que as reacções à publicidade eram cem por cento normais.
Apólices tiradas em seu nome provam que tinha todos os seguros,
E o Boletim de Saúde mostra que esteve uma vez no hospital e saiu curado.
Tanto o Gabinete de Estudo dos Produtores como o da Qualidade de Vida declaram
Que estava plenamente sensibilizado para as vantagens da Compra a Prestações
E tinha tudo o que é preciso ao Homem Moderno:
Um gira-discos, um rádio, um carro e um frigorífico.
Os nossos inquiridores da Opinião Pública alegram-se
Por ter as opiniões certas para a época do ano;
Quando havia paz, ele era pela paz, quando havia guerra, ele ia,
Era casado e aumentou com cinco filhos a população,
O que, diz o nosso Eugenista, era o número certo para um pai da sua geração,
E os nossos professores informam que nunca interferiu com a sua educação.
Era livre? Era feliz? A pergunta é absurda:
Se algo estivesse errado, com certeza teríamos sabido."

segunda-feira, 23 de março de 2015


"Deixei contigo o meu amor,
música de açúcar a meio da tarde,
um botão de vestido por apertar,
e o da vida por desapertar,
a flor que secou nas páginas de um livro,
tantas palavras por dizer
e a pressa de chegar,
com o azul do céu à saída.
por entre cafés fechados e um por abrir.

Mas trouxe comigo o teu amor,
os murmúrios que o dizem quando os lembro,
a surpresa de um brilho no olhar,
brinco perdido em secreto campo,
o remorso de partir ao chegar,
e tudo descobrir de cada vez,
mesmo que seja igual ao que vês
neste caminho por encontrar
em que só tu me consegues guiar.

Por isso tenho tudo o que preciso
mesmo que nada nos seja dado;
e basta-me lembrar o teu sorriso
para te sentir ao meu lado."

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

E é ao ir que se não fica

E foi assim que partiu de si, deles, do sítio que julgara para sempre ser o mundo deles. Enganados por uma felicidade que não era, talvez, mas com a certeza de que durante um breve momento, muito breve, nada mais houve que felicidade absoluta, que alegria verdadeira, que vontade de nunca mais ir. Ao partir tentava lembrar-se de por que é que não podia ficar e ainda meio zonzo com o ir, lembrava-se que aquele foi o único sítio que teve como perfeito, o único que teve como completamente verdadeiro. O coração chorava, chorava tudo o que se não podia ver, a alma gritava-lhe que só mais um abraço calaria aquele coração, agora sem abrigo, não ligou. Partiu como partem os que perdem, mas sabem que nunca poderiam ganhar. Embalou momentos, embrulhou sorrisos, guardou os sonhos em caixas coloridas, escondeu as histórias do mundo e guardou-as só para si... Tentara ficar, tentara aguentar um mundo que tantas vezes tremia e que nunca deixava de ser o mais seguro, sentia que seria alia a sua casa para sempre... Desistiu, por fim, não por vontade de não continuar a lutar, mas por saber que o lutar só ia destruir o mundo que será para sempre perfeito. A vida seguiria sem si e ele continuaria a vida, num outro qualquer caminho que não atrapalhasse aquele mundo que julgara ser seu. Sabia que ao menos iria desembrulhar sorrisos e desembalar momentos e os sonhos, esses, teriam cor para sempre, independentemente da falta de cor que viesse, ali, no sonho, seria feliz para sempre porque o mundo... O mundo seria para sempre perfeito e intoável... E num abraço eterno ficaria para sempre ali, no mundo que quis, na vida que quis que fosse sempre sua... E sabe que assim será, para sempre... Um querer ter ficado... E se por acaso um dia se esquecesse, a alma gritaria-lhe de todas as vezes que o coração chorasse que a vida era ali, ali aonde não conseguiu ficar e foi feliz. E da mesma forma que abraçou aquele mundo como seu, como único, como indestrutível, baixa agora os braços à frente do fim e sente-se abraçado pela tempestade do ir e vai..

domingo, 18 de janeiro de 2015

O chão que te foge

O tempo, aquele que se tenta agarrar e sempre nos foge mesmo de mão fechada e coração aberto, esse diz-nos que a felicidade tem duração limitada. Teve muitas vez a vontade de parar a vida num momento, ou em dois. Teve muitas vezes vontade de transformar um momento numa vida inteira, um mundo numa eternidade. Mas o tempo, esse, ensinou-lhe também que nem sempre se chega a tempo, nem o tempo é o mesmo para todos. Pergunta-se muitas vezes se tivesse chegado teria apanhado o mesmo futuro, pergunta-se se teria mudado o mundo inteiro, o seu, o dos outros que o rodeiam. Agora, agora é tarde e o ir torna-se cada vez mais iminente, mesmo quando dá conta de que pode ficar, percebe que mesmo ficando o mundo que imaginara seu dali em frente há-de ir junto com o tempo. Muitas vezes se queixa que o tempo lhe foge, mas outras tantas vezes barafusta porque o tempo corre depressa demais. A vida, essa, seria perfeita, tivessem os tempos sido outros. Não foram, nunca serão, talvez nunca pudessem ser. Tem vontade de agarrar todos os momentos e guardá-los junto ao coração para que nunca mais se esqueça de como é ver o mundo de cima, de um sítio só alcançável durante aquele tempo. Agora, que é altura de aceitar ir e construir a plataforma de partida, só quer ficar ali, quieto, a ver o tempo passar. E o sono, aquele que tantas vezes o arranca do mundo e o deixa descansar da vida que o destrói aos poucos tarda a chegar. Deixa-se ficar acordado, perdido em sonhos e em realidades que nunca serão. Já tem os nomes para as coisas e o sítios para o que nunca será, como se tivesse a certeza que sempre seria. Assim se deixa ficar até o sono o levar e o sonho o arrastar para o mundo que imaginara. Ao acordar percebe que o chão lhe foge mais um bocadinho, sempre mais um bocadinho, até o chão ser abismo, até a vida ser um arrasto, Em sonhos voa, quando acorda cai. Pudesse a vida ser um sono eterno e diz-se que nunca mais queria acordar. E quando tantos gostam de ir ele gosta de pensar que consegue ficar e aos poucos percebe que os que vão, sabem que não podem ficar. Esses aceitam o não poder ficar como ele aceita o sono. Tem vontade de lutar, mas a vontade passa-lhe de cada vez que se lembra de que quem vai, vai sempre para um sítio melhor e deixa-se ficar, quieto... O deixar ir e o aceitar não ser bate de frente com a vontade de lutar, perdido em dilema, percebe que tudo se vai perdendo à medida que tenta perceber se desistir é o mesmo que perder, ou se deixar ir é deixar que alguém ganhe. Adormece, por fim... Talvez nunca acorde e sonhe para sempre. Talvez...

E diz que a vida é feita de abrir mão de quem somos e de quem faz de nós inteiros, diz que é soltar quem nos segura o mundo e esperar que o mundo se volte a segurar sozinho. Diz que é guardar os momentos todos e pensar que o que nunca foi nunca poderia ter sido e aceitar que o que em nós não é senão a verdade não passa da maior mentira que alguma vez inventámos. A vida é um deixar passar, é um baixar os braços e abraçar o vazio, é um cair em pé no fundo e olhar para cima, é um morder os fantasmas e brincar às escuras, é um deixar doer de coração aberto, para sempre.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Dizem os loucos

Dizem por aí, os loucos curados que o nunca serão ou os loucos que se dizem ser e nunca o foram, que o amor não dói, que o amor é um ser feliz para sempre, sem princípio nem fim, apenas com altos, dizem que é um viver em plenitude uma vida inteira, ou duas, para quem tem paciência. Nunca esses tais loucos de amor e crentes da sua inquestionável força, esses que se dizem de tal forma consumidos pela sua indestrutibilidade quando na realidade pouco mais sentem que uma leve comichão no coração disseram, que o amor é fodido, difícil, tantas vezes perto da loucura, tantas vezes maravilhoso. Há alturas em que o amor, daqueles que amam sem grandes gritos e sem grandes loucuras, desejam com todas as forças nunca terem amado. Há dias em que amar é viajar até ao mais escuro e húmido e frio e tenebroso e assustador e sombrio mundo alguma vez imaginado, é ficar quieto apenas com as vozes que nos atravessam o pensamento turvo e nos gritam ao coração que o caminho é sempre para baixo, são os dias em que se cai, em que nada vale a pena, em que nada faz sentido. Em que o único sentido que se encontra é amar sem destino e direcção, amar como quem rema num oceano sem margens, acreditando para sempre, que um dia o amor bate em terra firme. É por isso que se não vive só e apenas para o amor, é por isso que se morre de outras coisas, é por isso que se não morre só de amores e também se morre de gripes. Porque para as gripes ao menos há esperança. 
Também, relativamente ao amor, nunca esses tais loucos nos disseram que o bom é o melhor, que os altos, são tão, mas tão altos que nos perdemos de vista, que perdemos de vista a vida e voamos, voamos levemente como quem nunca cairá. Nunca nos disseram que enquanto se ama, se voa sem medo, se viaja sem medo do percurso, sem medo do fim, sem medo de nada. Nunca nos disseram que a viagem seria calma e sossegada, nunca nos disseram que seriam só altos, nem nunca nos disseram que os baixos seriam tão baixos. Nunca ninguém nos disse. Amar é aprender, aprender a ir ou a ficar. E a ficar para sempre quando se aceita, quando se aceita que os altos são mais altos que os baixos, quando se sabe que a vontade de ir embora nunca será maior que a vontade de ficar. Quando se sabe que a vida não será perfeita, mas será sempre uma aventura, quando se sabe que se não vai ter medo de ser ali, quando se sabe que se será inteiro ali, até ao fim... Ali ama-se... Ali sabe-se que se pode cair e que se não pode arrastar o outro, porque será o outro que nos vai voltar a trazer ao cimo da vida, ao cimo da felicidade, ao cimo de tudo. E amar, amar é só isto, um gostar sempre e cada vez mais, um saber que (...) e gostar na mesma...É aceitar o que não é no outro perfeito em nós, é amar assim, sem mais nem porquê. E... Amar não se ensina, aprende-se... 
E se um dia o fim chegar, se um dia não houver mais energia para se ser, não se volta, não se volta com pesares e faltas de vontade, no dia em que o fim chegar, guarda-se o que foi perfeito e vive-se o que falta com o sorriso do que antes sobrou.