Avançar para o conteúdo principal

E é ao ir que se não fica

E foi assim que partiu de si, deles, do sítio que julgara para sempre ser o mundo deles. Enganados por uma felicidade que não era, talvez, mas com a certeza de que durante um breve momento, muito breve, nada mais houve que felicidade absoluta, que alegria verdadeira, que vontade de nunca mais ir. Ao partir tentava lembrar-se de por que é que não podia ficar e ainda meio zonzo com o ir, lembrava-se que aquele foi o único sítio que teve como perfeito, o único que teve como completamente verdadeiro. O coração chorava, chorava tudo o que se não podia ver, a alma gritava-lhe que só mais um abraço calaria aquele coração, agora sem abrigo, não ligou. Partiu como partem os que perdem, mas sabem que nunca poderiam ganhar. Embalou momentos, embrulhou sorrisos, guardou os sonhos em caixas coloridas, escondeu as histórias do mundo e guardou-as só para si... Tentara ficar, tentara aguentar um mundo que tantas vezes tremia e que nunca deixava de ser o mais seguro, sentia que seria alia a sua casa para sempre... Desistiu, por fim, não por vontade de não continuar a lutar, mas por saber que o lutar só ia destruir o mundo que será para sempre perfeito. A vida seguiria sem si e ele continuaria a vida, num outro qualquer caminho que não atrapalhasse aquele mundo que julgara ser seu. Sabia que ao menos iria desembrulhar sorrisos e desembalar momentos e os sonhos, esses, teriam cor para sempre, independentemente da falta de cor que viesse, ali, no sonho, seria feliz para sempre porque o mundo... O mundo seria para sempre perfeito e intoável... E num abraço eterno ficaria para sempre ali, no mundo que quis, na vida que quis que fosse sempre sua... E sabe que assim será, para sempre... Um querer ter ficado... E se por acaso um dia se esquecesse, a alma gritaria-lhe de todas as vezes que o coração chorasse que a vida era ali, ali aonde não conseguiu ficar e foi feliz. E da mesma forma que abraçou aquele mundo como seu, como único, como indestrutível, baixa agora os braços à frente do fim e sente-se abraçado pela tempestade do ir e vai..

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Shakespeare

"Depois de algum tempo aprendes a diferença, a subtil diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma. E aprendesque amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança. E começas a aprender que beijos não são contratos e presentes não são promessas. Acabas por aceitar as derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança. E aprendes a construir todas as tuas estradas de hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em vão. Depois de algum tempo aprendes que o sol queima se te expuseres a ele por muito tempo. Aprendes que não importa o quanto tu te importas, simplesmente porque algumas pessoas não se importam... E aceitas que apesar da bondade que reside numa pessoa, ela poderá ferir-te de vez em quando e precisas perdoá-la por isso.Aprendes que falar pode aliviar dores emocionais. Descobres que se leva anos para se construir a confiança e apenas …
Soltamos das paredes da imaginação o quadros com os sonhos... Caminhamos por caminhos que nunca tinham sido nossos... Deixamos quem éramos lá atrás e retocamos os quatros ainda há pouco desprendidos. Entorpecidos pelo amor, caminhamos enquanto pintamos, sonhamos enquanto caminhamos, construímos enquanto destruímos. Depois de soltos os sonhos, acabam por se prender em quem amamos. Ali, em quem amamos, residem agora os quadros dos nossos sonhos, as paredes da nossa imaginação, os limites da nossa existência. Ali, ali fica tudo o que já fomos e tudo o que gostaríamos de ter sido. Ali, como quem troca para uma casa maior e mais bonita, procuramos uma parede mais perfeita onde possamos decorar a vida.

Mas, quando por alguma razão o amor nos falha e a vida nos ludibria, deixamos de ser quem já fomos. Há muito deixamos aquelas paredes velhas. E há muito que os sonhos que um dia soltamos das paredes já não são os mesmos. Quando o amor nos falha por qualquer razão voltamos sem sonhos, pelo men…
Morreste-me ali amor... Sei que ainda respiras... Mal, mas respiras... Sei que ainda aí vives... Mas sei que te perdi ali algures onde a vida vira... Fomos tantas e tantas vezes ao limite do ser que nos perdemos para lá do ir... Fomos longe demais procurar o que tínhamos mesmo à mão de ser... Quisemos ser tudo... Quisemos viver tudo, quisemos ter a certeza... E com a certeza de que o amanhã é incerto, guiamo-nos pela incerteza... Perdidos por ali... Fomos morrendo...
Agora, agora vais-me a enterrar quando não restar nada... Quando formos só uma imagem do ontem, um sonho enterrado vivo e morto à nascença... Morremos ali... Aonde a vida vai e nos ficamos... Vamos a enterrar, sozinhos de nós...