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O chão que te foge

O tempo, aquele que se tenta agarrar e sempre nos foge mesmo de mão fechada e coração aberto, esse diz-nos que a felicidade tem duração limitada. Teve muitas vez a vontade de parar a vida num momento, ou em dois. Teve muitas vezes vontade de transformar um momento numa vida inteira, um mundo numa eternidade. Mas o tempo, esse, ensinou-lhe também que nem sempre se chega a tempo, nem o tempo é o mesmo para todos. Pergunta-se muitas vezes se tivesse chegado teria apanhado o mesmo futuro, pergunta-se se teria mudado o mundo inteiro, o seu, o dos outros que o rodeiam. Agora, agora é tarde e o ir torna-se cada vez mais iminente, mesmo quando dá conta de que pode ficar, percebe que mesmo ficando o mundo que imaginara seu dali em frente há-de ir junto com o tempo. Muitas vezes se queixa que o tempo lhe foge, mas outras tantas vezes barafusta porque o tempo corre depressa demais. A vida, essa, seria perfeita, tivessem os tempos sido outros. Não foram, nunca serão, talvez nunca pudessem ser. Tem vontade de agarrar todos os momentos e guardá-los junto ao coração para que nunca mais se esqueça de como é ver o mundo de cima, de um sítio só alcançável durante aquele tempo. Agora, que é altura de aceitar ir e construir a plataforma de partida, só quer ficar ali, quieto, a ver o tempo passar. E o sono, aquele que tantas vezes o arranca do mundo e o deixa descansar da vida que o destrói aos poucos tarda a chegar. Deixa-se ficar acordado, perdido em sonhos e em realidades que nunca serão. Já tem os nomes para as coisas e o sítios para o que nunca será, como se tivesse a certeza que sempre seria. Assim se deixa ficar até o sono o levar e o sonho o arrastar para o mundo que imaginara. Ao acordar percebe que o chão lhe foge mais um bocadinho, sempre mais um bocadinho, até o chão ser abismo, até a vida ser um arrasto, Em sonhos voa, quando acorda cai. Pudesse a vida ser um sono eterno e diz-se que nunca mais queria acordar. E quando tantos gostam de ir ele gosta de pensar que consegue ficar e aos poucos percebe que os que vão, sabem que não podem ficar. Esses aceitam o não poder ficar como ele aceita o sono. Tem vontade de lutar, mas a vontade passa-lhe de cada vez que se lembra de que quem vai, vai sempre para um sítio melhor e deixa-se ficar, quieto... O deixar ir e o aceitar não ser bate de frente com a vontade de lutar, perdido em dilema, percebe que tudo se vai perdendo à medida que tenta perceber se desistir é o mesmo que perder, ou se deixar ir é deixar que alguém ganhe. Adormece, por fim... Talvez nunca acorde e sonhe para sempre. Talvez...

E diz que a vida é feita de abrir mão de quem somos e de quem faz de nós inteiros, diz que é soltar quem nos segura o mundo e esperar que o mundo se volte a segurar sozinho. Diz que é guardar os momentos todos e pensar que o que nunca foi nunca poderia ter sido e aceitar que o que em nós não é senão a verdade não passa da maior mentira que alguma vez inventámos. A vida é um deixar passar, é um baixar os braços e abraçar o vazio, é um cair em pé no fundo e olhar para cima, é um morder os fantasmas e brincar às escuras, é um deixar doer de coração aberto, para sempre.

Comentários

  1. Gostei de passar por aqui....parei o tempo, e entreguei-me à leitura de um magnífico texto.
    Vou juntar-me aos seguidores....

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  2. Obrigado Cristina... Pode parar o tempo sempre que quiser por cá... :)
    E seja muito bem vinda!!

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  3. Sempre as voltas com o mestre tempo, que se encarrega de nos dar as grandes lições na escola da vida!
    Não me alongo mais no comentário, já que fica o convite para leres o meu post
    AOS PÉS DO TEMPO
    No meu blog
    PALAVRAS DO MAR

    Abraçaço

    http://diogo-mar.blogspot.com/

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  4. Aplaudo de pé! estes textos em prosa poética foram sempre os que mais me deliciaram; e está muito bom...

    :)

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  5. Obrigado Diogo, vou lá passar... Abraço

    Daniel C.da Silva, é sempre um prazer tê-lo por cá... Obrigado...

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