sábado, 11 de abril de 2015

Chegamos ao fim, aqui onde nada existe e tudo já foi,
Ao tempo incerto de uma vida, ou duas ou três,
Segredos já não há, as grandes charadas da vida já foram desvendadas,
ou criamos em nós a ideia de que já as desmistificamos,
As noites, essas, caem sempre a seguir aos dias e o sítio,
onde nos deitamos é o sítio onde ficamos acordados durante a noite.
A vida corre lá fora, como um dia já nos correu no corpo,
Não aguentamos mais, compreendemos a vida como eles ainda
não compreendem e eles compreendem a morte como nós já
não queremos compreender e com o resto das forças que não
temos, de mãos dadas, procuramos o fim, o nosso fim, como
quem encontrou o início sem procurar. Desta vez sem esperança.
A música que sempre suportamos já não aguenta o nosso corpo
imóvel, despido de vida com uma manta de rugas fundas, rugas
que contaram os anos, todos os anos sem avançar nenhum.
Estes olhos que um dia correram o mundo, correm agora uma
parede decorada com uma televisão que passa imagens imperceptíveis
e um relógio que conta horas, nós já não contamos horas meu amor,
contamos uma vida inteira. Objectos imóveis numa vida movida
a amor e água. O coração bate agora pausadamente, como fumávamos
aqueles cigarros naquela rua que juramos ser para sempre nossa
e de mais ninguém. E o tempo passa como passava, depressa.
Na parede o relógio continua a contar a horas (absurdo).
Já não somos vida, somos memória, os olhos já mal conseguimos
abrir, o olhar, esse nunca deixamos de trocar. Os segredos, são só nossos.
Tentamos contá-los, mas parecem palavras tontas a quem ouve. Como
poderia alguém ter sido tão feliz, perguntam-se, estão doidos é o que é.
Tiram-nos fotografias, dizem que são as últimas, como nós dissemos
tantas vezes que eram as primeiras de uma vida inteira. Coitados, ainda
não viveram tempo que chegue e nós já o gastámos todo. O relógio
continua a contar-nos os anos em horas e os dias em segundos.
Agora é absurda a relevância que demos ao tempo que se conta.
E o tempo não nos perdoou a falha e caímos onde todos os outros
corpos sem vida caem. Aos olhos de todos caímos inanimados, mas
como de todas as outras vezes, foi só aos olhos deles.
Continuámos de pé aqui deitados, nesta cama que nos há-de levar ao fim.
Juntos.

Acordou, como todos os outros dias, tudo mais não fora que um sonho
e ainda não fora feliz. A parede enfeita o relógio que enfeita o tempo.
Nunca seriam felizes para sempre, talvez nunca chegassem a ser, mas
o tempo, o tempo já não lhe significava nada. E estava deitado.
Sozinho.

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