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Saudade

Dos que diziam ter saudade, ele seria dos poucos que dizia que não. A saudade nunca lhe pesara. Dera conta, talvez tarde, que deixara que a saudade repousasse em si. Nunca temera que ela acordasse e pensou que dormiria para sempre, acabando por acreditar que "para sempre" seria tempo suficiente. De repente, antes dela acordar, olhar para dentro de si e percebeu que não lhe via o fundo, embora lhe parecesse que a saudade nem fosse assim tão densa, parecia-lhe quase como água límpida a perder de vista. E à medida que a juventude se afastava dele a saudade ia acordando aos poucos. Sentando ao lume brando da paz de antigamente ainda era suportável, até que esse lume brando se foi apagando. A juventude fugia, o lume extinguia-se e a saudade emergia. Não se sabe se aguentou, ou se acabou por se entregar ao fim provocado pela saudade. O que se sabe é que à medida que a juventude lhe fugiu, ele correu atrás dela, não se sabe se ao fugir não acabou por enfrentar o que atrás não enfrentara. Enfim, não se sabe.

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Soltamos das paredes da imaginação o quadros com os sonhos... Caminhamos por caminhos que nunca tinham sido nossos... Deixamos quem éramos lá atrás e retocamos os quatros ainda há pouco desprendidos. Entorpecidos pelo amor, caminhamos enquanto pintamos, sonhamos enquanto caminhamos, construímos enquanto destruímos. Depois de soltos os sonhos, acabam por se prender em quem amamos. Ali, em quem amamos, residem agora os quadros dos nossos sonhos, as paredes da nossa imaginação, os limites da nossa existência. Ali, ali fica tudo o que já fomos e tudo o que gostaríamos de ter sido. Ali, como quem troca para uma casa maior e mais bonita, procuramos uma parede mais perfeita onde possamos decorar a vida.

Mas, quando por alguma razão o amor nos falha e a vida nos ludibria, deixamos de ser quem já fomos. Há muito deixamos aquelas paredes velhas. E há muito que os sonhos que um dia soltamos das paredes já não são os mesmos. Quando o amor nos falha por qualquer razão voltamos sem sonhos, pelo men…
Morreste-me ali amor... Sei que ainda respiras... Mal, mas respiras... Sei que ainda aí vives... Mas sei que te perdi ali algures onde a vida vira... Fomos tantas e tantas vezes ao limite do ser que nos perdemos para lá do ir... Fomos longe demais procurar o que tínhamos mesmo à mão de ser... Quisemos ser tudo... Quisemos viver tudo, quisemos ter a certeza... E com a certeza de que o amanhã é incerto, guiamo-nos pela incerteza... Perdidos por ali... Fomos morrendo...
Agora, agora vais-me a enterrar quando não restar nada... Quando formos só uma imagem do ontem, um sonho enterrado vivo e morto à nascença... Morremos ali... Aonde a vida vai e nos ficamos... Vamos a enterrar, sozinhos de nós...

De: Helena Coutinho

"Aqui jaz um corpo que esculpiu palavras.
Aqui jaz o sorriso de quem ousou querer o mundo dos imortais;
os cabelos onde borboletas passeavam liberdade
e as mãos de jardim, onde beija-flores bebiam fantasia…
Aqui jaz a que não temeu sonhar todas as vontades do coração.
Aqui repousa a alma da que jamais descansou de sentir tudo,
de todas as maneiras.
Aqui ecoará, para sempre, um querer, infinito, de poeta.
Aqui perdurará o tempo que a vida não me deixou escrever."