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Crime

Assassinou-o, sem qualquer tipo de misericórdia, sem medo de consequências e repercussões, matou-o. Ninguém sabia que tinha sido ele, aliás, pensando bem poucos sabiam da existência dele, do tal, do assassinado. Era difícil adivinhar se em algum dia alguém saberia da sua morte. Mas ele sabia-o, sabia o que havia feito. Poucos sabiam, mas ele tinha a noção de que muitas vezes o sorriso que esboçava, a alegria com que corria pela vida adiante como se tudo fizesse sentido, a força que estranhava ser só sua, ele sabia que o devia a quem tinha acabado de matar. Pode dizer-se que matou a causa da sua felicidade. Agora que o matara, percebera, tarde, que parte dele partira junto com o espírito morto do assassinado. parecia quase que o assassino suicidou uma parte de si. Mas não havia nada a fazer, era ele ou o outro... E diga-se que o outro, o assassinado, era especial, era sincero, emotivo, irracional às vezes, mas queria e adorava viver. Acabou por matar o amor, mas tal como já percebemos, não havia alternativa, era ele ou o sentimento. E o amor às vezes não chega. Anos passaram, pessoas também, o amor ninguém percebeu faltar, afinal foi um crime bem arquitectado, pensa ele, agora que olha para o amor morto com saudade. E sem se aperceber vai ter de cometer outro crime, num outro dia, por um mesmo motivo. Outro sentimento terá de morrer, porque mais uma vez a saudade destrói-o por dentro sem se ver por fora. O que ainda não percebeu é que ao matar a saudade pode dar vida ao amor. E acabará inocente de um crime que nunca o chegou a ser!

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