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Monstros

Corria depressa... Sabia que fugia, só não conseguia entender do quê. Horas passaram e ele nunca parou, não parou para olhar para trás sequer. O medo invadiu-o de tal forma que olhar para trás seria entregar-se de mãos atadas a esse medo inconsciente. À medida que ia correndo ia vendo pessoas que olhavam para ele assustadas e pensava que afinal fugia de nada e que a única coisa que as pessoas não compreendiam era porque corria. E aquela cara, aquela cara de pânico silencioso. Aquele não pedir ajuda. Aquele evitar olhar para qualquer objecto que reflectisse uma pequena imagem que fosse. Era o fugir dos olhos mais directos, com mais medo, medo de que os olhos trocassem a informação suficiente para ele perceber que fugia de nada, ou que fugia de tudo. Diz-se que os olhos comunicam, talvez ele temesse essa comunicação. Encontrava-se no limite das suas forças, fugira tanto e tão depressa que não conseguia dar mais um passo rápido. Seria então a altura de enfrentar o monstro que o perseguia, chegara a altura de desistir. Olhou para trás, nada o perseguia... Será que fugira durante tanto tempo de nada? Era hora de perceber onde se encontrava. Encontrava-se precisamente no sítio de onde sempre quisera fugir. E agora não conseguia sair dali. Porque acabara de esgotar todas as suas forças a fugir de nada. Só esperemos que isto não lhe volte a acontecer. Porque fugir de nada e sem noção da direcção há-de ser sempre pior que não enfrentar o monstro que afinal não nos persegue, fica só ali, sentado a ver a corrida sem sentido. A rir-se, talvez. (Não sei se os monstros que se riem são maus)

Comentários

  1. Depende do tipo de riso... tens de prestar atenção à sonoridade do monstro.

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