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Uma casinha pequena

Era uma casa, não era grande, era pequena... Do tamanho que dá para um se não forem dois... Acabava por não ser muito quente, mas não deixava entrar o frio. Dali não se via muito, dava para ver apenas a vida toda que estava para trás, quando se espreitava à janela e mais não se via que o muro da casa vizinha. A luz não era muita, mas pelo menos dava para descansar do sol. A chuva fazia-se cair no telhado e muitas vezes estava bom tempo. Era uma casa pequenina, mas tinha um pequeno terraço, por perto não havia mar, no entanto cheirava, a areia molhada pela água desse mar inexistente. Não tinha muita gente, pelo menos que tivesse chegado a entrar. No entanto passavam muitas pessoas, acabavam por cordialmente cumprimentar e seguir o seu caminho, para uma outra casa, maior talvez. Na cozinha não havia muito, havia o suficiente para alimentar uma alma "que muitas vezes se julgava perdida" e que só se voltava a encontrar ali. Na sala uma televisão, uma televisão onde passavam sempre os mesmos filmes, mesmo ao lado de um gira discos que tocava sempre as mesmas músicas. Na estante sempre os mesmos livros, gastos pelas mesmas palavras de sempre. No pequeno escritório tinha o trabalho de uma vida, arquivado aleatoriamente em gavetas fechadas que há muito perderam a chave. A simples ideia de que os projectos continuavam ali acabavam por me deixar descansado. Era bem melhor que os ter perdido em alguma mudança. Nas paredes podia ver-se fotografias, nem tantas de família, como é costume nas casas pequenas, eram mais de momentos, momentos guardados para sempre. Podiam encontrar-se pequenas histórias escritas nas paredes, histórias pequenas que se podiam perder. Histórias bonitas, que se não podiam perder. De volta ao terraço, mais pessoas que passavam e tentavam espreitar por cima do muro e perceber o porquê de uma casa tão pequenina ter um muro tão alto. Era uma casinha pequena, na rua da Memória... Veio a perceber-se mais tarde, bem mais tarde, que os muros não tinham o objectivo de impedir a entrada, mas sim de dificultar a saída.

Comentários

  1. Adorei :) Acho que todos temos uma casinha assim... a minha chama-se "casca". É bom (re)conhecê-la para tentarmos saltar o muro.

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  2. com toda a razão ! todos nós temos memórias que tentamos guardar para um dia recordar, seja em diários, seja em caixinhas, seja no que for... apreendemos lá as nossas memórias, para podermos voltar lá um dia e 'reviver' . mas a verdade é que não são elas que se esvaem, somos nós que as esquecemos . as vezes, aprisionadas nos 'muros', outras nem chegamos a guardar .

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  3. Vanessa, já sei é mais fácil ver a tua casa ;) Someone*, há coisas que vão, sim, mas há algumas que hão-de ficar sempre... Ou pelo menos, espero que sim... Obrigado ;)

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Aqui jaz o sorriso de quem ousou querer o mundo dos imortais;
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de todas as maneiras.
Aqui ecoará, para sempre, um querer, infinito, de poeta.
Aqui perdurará o tempo que a vida não me deixou escrever."
Morreste-me ali amor... Sei que ainda respiras... Mal, mas respiras... Sei que ainda aí vives... Mas sei que te perdi ali algures onde a vida vira... Fomos tantas e tantas vezes ao limite do ser que nos perdemos para lá do ir... Fomos longe demais procurar o que tínhamos mesmo à mão de ser... Quisemos ser tudo... Quisemos viver tudo, quisemos ter a certeza... E com a certeza de que o amanhã é incerto, guiamo-nos pela incerteza... Perdidos por ali... Fomos morrendo...
Agora, agora vais-me a enterrar quando não restar nada... Quando formos só uma imagem do ontem, um sonho enterrado vivo e morto à nascença... Morremos ali... Aonde a vida vai e nos ficamos... Vamos a enterrar, sozinhos de nós...

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