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Conheceram-se

Ali estava ele, no funeral dela, da sua mulher... Morrera ao fim de cinquenta e três anos de paixão. Era o dia mais triste da sua vida. O seu pensamento não conseguia fixar em parte alguma, viajava pelas memórias a uma velocidade estonteante. De repente, apesar de não estar perto dela, sentiu-lhe os últimos pensamentos, momentos antes de "partir", ela havia sido atropelada no caminho de sempre, o caminho que a levara todos os dias para casa, menos aquele. Vinha-lhe ao pensamento a última conversa. Falavam acerca do novo namorado da filha mais nova, que afinal, já não era tão nova e isso preocupava-os. De repente estava no casamento do filho, uma cerimónia muito formal e impetuosa, revia os pratos que não paravam de chegar, recorda-se dela a dizer que se "comia tudo naquele dia e mais tarde se passaria fome." Estava agora perante o nascimento do terceiro filho. Um parto com algumas complicações, o filho, o sempre mais sensato, nasceu umas semanas antes do previsto. Correra risco de vida, o que lhe trouxe essa tal sensatez, quase com certeza, pensaram sempre, os dois. Percorria agora os caminhos que levavam à Igreja lá da aldeia, onde a filha faria a 1ª comunhão. Dali deu consigo a desesperar por entre corredores de um hospital. Nascia ali o seu primeiro filho, recorda-se que chegou tarde. Está agora no altar, à espera da mulher, que viria a ser da sua vida, sabia-o só agora. O primeiro beijo, o consumar de uma paixão, o ir de de encontro ao proibido, o perderem-se por entre braços. Ali estava ela, via-a pela primeira vez, parecia um anjo perdido numa multidão de gente igual. Era diferente, brilhava, será o destino a apontar-lhe o amor, "olá" arriscou ele.

Viveu novamente e ela viveu com ele e agora sabe-se que viverá sempre. Enquanto o amor mantiver a chama da primeira vez, ela vive e vive feliz. O que ficou por aqui esquecido é que este pensamento foi bem mais que um momento, foi um resto de uma vida, anos e anos. Enquanto respirar lhe foi possível, voltou a nascer... Várias vezes, neste exercício de andar para trás e para a frente sem haver o risco de se perder no caminho, no caminho que sempre o levou até ela. Acabou por se tornar refém, acabou por ser um preso, um preso à sua memória, estava preso dentro de si, como sempre havia estado, se pensarmos bem. Preso à felicidade, para todo o sempre, até acabar.

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Agora, agora vais-me a enterrar quando não restar nada... Quando formos só uma imagem do ontem, um sonho enterrado vivo e morto à nascença... Morremos ali... Aonde a vida vai e nos ficamos... Vamos a enterrar, sozinhos de nós...

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