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Dos caminhos diz-se pouco

Ali se encontrava novamente aquele senhor sentado. Sentado naquela paragem frente a um muro alto. Todos os dias ali estava, todos os dias todos passavam indiferentes. "Talvez fosse doido" dizia de si para si toda a gente. "podia sentar-se na paragem à frente, é que nem 50 metros são" dizia uma ou outra pessoa que já não o estranhava ali, naquele mesmo sítio. Naquele dia não teve coragem de o interpelar. Continuou a sua viagem de sempre para o trabalho de algum tempo. Num outro qualquer dia, caminhava com mais tempo e menos orientação, a sua mente viajava para lá do seu caminho. Ali o viu novamente, chovia... Foi então que decidiu questioná-lo e confrontá-lo, afinal já chegava de olhar sempre para o mesmo muro!! 
- Olhe, tenho passado cá todos os dias e encontro-o sempre aqui, de olhar parado naquele muro, o que faz aqui se não vê nada para lá do muro?
- Boa tarde rapaz, também te vejo passar todos os dias. Respondeu o senhor num tom meigo. 
- Sim, mas eu passo e continuo o meu caminho, não fico a admirar uma parede branca, suja pela chuva e pelo pó. 
- Continuas o teu caminho e o que vês para além do mesmo caminho de sempre? Lembras-te da última vez que aconteceu alguma coisa de diferente nessa tua viagem de todos os dias? 
- O caminho é sempre diferente, nunca encontro as mesmas pessoas, nunca encontro as coisas no mesmo sítio, há sempre alguma coisa diferente.

- E alguma dessas coisas te prende a atenção, além do tempo que demoras a atravessá-la? Espera, não respondas, não há nada, bem o sei, já fui como tu, mais um "a caminho". Este caminho não mais é que o teu sítio, é como estar aqui, mas a andar. Também não vejo sempre a mesma parede, todos os dias há uma sombra diferente, todos os dias passa um carro que não é o mesmo, todos os dias esta parede é diferente, alguma coisa se atravessa de novo entre mim e ela. Podemos dizer que são formas diferentes de ver coisas diferentes todos os dias. Mas, À primeira vista, esta parede branca suja prende-me tanto a atenção como o caminho aberto que fazes todos os dias meu jovem.
- Sim, consigo perceber o que quer dizer... Mas podia, por exemplo espera na paragem da frente, é pertinho.

- Podia, podia ver a praia, o mar não era? Podia ver as pessoas a passearem à beira mar, podia ver tanta coisa. No entanto o que quero é ficar só aqui, longe dos olhos dos que poderia ver. 

- Então está a esconder-se do mundo? Tem medo que o critiquem por o observar??
- Que me critiquem? Meu jovem, posso estar velho, mas não estou parvo, esteja onde estiver serei sempre criticado, não é isso que me inquieta. Estou bem aqui. Sabes? Vou contar-te algo que poucos sabem e outros tantos nem querem saber. Há muito tempo, há uns 30 anos, talvez... Costumava vir aqui, não havia ainda muro. A mulher com quem partilhei a minha vida murava aqui em frente. Ficava horas a percorrer esta rua até perceber que ela saía ou chegava. Continuava a caminhar, só para que ela não percebesse que a esperava. 

- Entendo... Então a senhora de que fala já faleceu, era a sua esposa...
- Não meu jovem, essa senhora é a dona daquele café ali atrás.
- Mas... Essa senhora sempre foi casada com o dono do café, o senhor Joaquim!!

- Eu não disse que não fora, só disse que vinha para aqui para a observar. Acho que perdi tempo demais a escolher a melhor forma de lhe dizer bom dia, quando percebi já ela me tinha dito Adeus! Portanto, estar aqui, ou estar ali é a mesma coisa. A única coisa que devia mudar era a atitude. E como vês aqui estou, continuo sem falar com ninguém. E o resultado é o mesmo. O tempo é um caminho nesse caminho vamos encontrando uma ou outra paragem, ou podemos encontrar a casa. E para percorrer o tempo não precisámos de andar, precisámos de agir. E eu... Sou velho demais para agir e fui inocente durante tempo a mais enquanto jovem. Portanto meu jovem, não caminhes, age!!


"Afinal é mesmo doido o homem" pensou baixinho e lá continuou o seu caminho para o trabalho. Não percebeu a lição ou o aviso e lá foi continuando até ser velho demais para perceber.

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