Avançar para o conteúdo principal

Não sabia muito

Era um senhor... Os cabelos grisalhos faziam perceber que já algum tempo havia passado por ele. Carregava consigo toda a felicidade do mundo, sabia-o porque se notava o mais sincero e aberto sorriso que se lembra ter visto e começou aos poucos a perceber que esse sorriso se carregava mais de alegria quando se aproximava a visita de uma menina... Saltitante, estacionava o carro à sua porta e entrava, o senhor lá a esperava, de sorriso rasgado no rosto. Talvez adivinhasse de antemão que seria mais um momento perfeito na presença daquela enigmática menina. De lá, de longe, parecia-lhe uma menina discreta, parecia bonita, parecia querer passar pela vida sem dar nas vistas dos que não interessam, sabia-o pela forma como o senhor ficava antes da sua chegada. Para os outros, os que não a conheciam, nada simbolizava, para ele era como se mais a perfeita e harmoniosa pessoa do mundo entrasse por aquela porta, era como que se a solução de todos os seus problemas entrasse aos pulinhos alegres e contagiantes. À medida que o tempo foi passando, não se foi aproximando do senhor, afinal nunca o havia visto, só o havia imaginado. Mas foi conhecendo a menina discreta que lhe incendiava a felicidade. Agora percebia a alegria do senhor que nunca vira. Ela era capaz de transformar mais um dia no dia mais incrível de sempre, fazia-o fazendo pouco, sorrindo só, brincando com as palavras, arrancando o sentido bom de tudo o que os rodeava. Esta menina que queria passar ao lado dos olhares que lhe pouco importavam tinha a capacidade de nos fazer querer viver mais, cada vez mais, tinha a capacidade de nos fazer acreditar de que se poderia sonhar como outrora, fazia com que o mundo não parecesse apenas um lugar escuro e sombrio que nos arrastaria sempre para um buraco... Um simples abraço dela conseguia abrandar a velocidade a que a terra girava, um pequeno sorriso tímido fazia com que se fizesse parar o tempo ali, naquele momento, a leveza da sua genialidade fazia-nos andar para trás, até quando se acreditava na inocência. Era para ele evidente, para o senhor de cabelo gasto pelo tempo, que de cada vez que estacionava o carro à sua porta, nem que fosse para lhe dar um beijinho fugaz, todo aquele tempo, que poderia aos outros parecer quase nada, fosse mais um pedaço de felicidade que o alegraria até uma próxima visita. E seria sempre feliz enquanto soubesse que ela voltava... Dele sabia apenas que era mais feliz por ela... E sabe-se agora que continuará a ser feliz enquanto a vida o deixar e ela voltar... E sabe que hoje voltou a ser mais feliz.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Morreste-me ali amor... Sei que ainda respiras... Mal, mas respiras... Sei que ainda aí vives... Mas sei que te perdi ali algures onde a vida vira... Fomos tantas e tantas vezes ao limite do ser que nos perdemos para lá do ir... Fomos longe demais procurar o que tínhamos mesmo à mão de ser... Quisemos ser tudo... Quisemos viver tudo, quisemos ter a certeza... E com a certeza de que o amanhã é incerto, guiamo-nos pela incerteza... Perdidos por ali... Fomos morrendo...
Agora, agora vais-me a enterrar quando não restar nada... Quando formos só uma imagem do ontem, um sonho enterrado vivo e morto à nascença... Morremos ali... Aonde a vida vai e nos ficamos... Vamos a enterrar, sozinhos de nós...

De: Helena Coutinho

"Aqui jaz um corpo que esculpiu palavras.
Aqui jaz o sorriso de quem ousou querer o mundo dos imortais;
os cabelos onde borboletas passeavam liberdade
e as mãos de jardim, onde beija-flores bebiam fantasia…
Aqui jaz a que não temeu sonhar todas as vontades do coração.
Aqui repousa a alma da que jamais descansou de sentir tudo,
de todas as maneiras.
Aqui ecoará, para sempre, um querer, infinito, de poeta.
Aqui perdurará o tempo que a vida não me deixou escrever."

Shakespeare

"Depois de algum tempo aprendes a diferença, a subtil diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma. E aprendesque amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança. E começas a aprender que beijos não são contratos e presentes não são promessas. Acabas por aceitar as derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança. E aprendes a construir todas as tuas estradas de hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em vão. Depois de algum tempo aprendes que o sol queima se te expuseres a ele por muito tempo. Aprendes que não importa o quanto tu te importas, simplesmente porque algumas pessoas não se importam... E aceitas que apesar da bondade que reside numa pessoa, ela poderá ferir-te de vez em quando e precisas perdoá-la por isso.Aprendes que falar pode aliviar dores emocionais. Descobres que se leva anos para se construir a confiança e apenas …