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Do que éramos para o que não somos

Continuas a ser a pessoa que mesmo chegando antes, demorou demais, porque não é no tempo que te espero, espero por ti antes de nós. Continuas a ser tu a fazer-me perder a noção do tempo que os dias nos arrancam à  alma. Quando finalmente chegas, tudo mais não é que saudade, saudade que alimenta as noites, onde o tempo parece ser o espaço que sempre nos há-de separar. És tu que preenches todos os meus dias, todas as minhas noites, ora com a tua presença, ora com a tua ausência. Sim, és sempre tu que me preenches, mesmo quando dizes que me odeias por te perder quando me encontras. Respiro em ti à procura da saída de nós e sinto-me sufocado ao descobrir que a saída somos só nós. Sinto que ao abraçar-te, abraço o universo inteiro, sinto que todo o universo nos envolve, evitando que soframos. E mal desentrelaçamos os braços, para mais um até já, sofremos como se nunca tivesse havido antes. Sabemos que esse "até já" pode ser um espaço intemporal, que se nos irá voltar a impor. E depois de muitos dias e muitas noites, voltarás a encontrar-me e eu voltarei a perder-te, como sempre, como antes. Descobrimos com assombro que embora juntos, não mais somos que solidão. Caminhamos, acompanhados por uma solidão nossa, pelo mundo para nos voltarmos a encontrar, para nos voltarmos a perder. Somos sempre perda que se encontra e se volta a perder. Somos como que uma causa perdida, vamos morrer ainda cheios de vida, de vida que não chegámos a viver. Mas vamos viver como o nada que no fim foi tudo, porque nunca mais fomos do que vontade. E como não somos deuses para tornar eterno o efémero, não seremos mais que vontade de voltar para nos perdermos. Já fomos isto.


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Soltamos das paredes da imaginação o quadros com os sonhos... Caminhamos por caminhos que nunca tinham sido nossos... Deixamos quem éramos lá atrás e retocamos os quatros ainda há pouco desprendidos. Entorpecidos pelo amor, caminhamos enquanto pintamos, sonhamos enquanto caminhamos, construímos enquanto destruímos. Depois de soltos os sonhos, acabam por se prender em quem amamos. Ali, em quem amamos, residem agora os quadros dos nossos sonhos, as paredes da nossa imaginação, os limites da nossa existência. Ali, ali fica tudo o que já fomos e tudo o que gostaríamos de ter sido. Ali, como quem troca para uma casa maior e mais bonita, procuramos uma parede mais perfeita onde possamos decorar a vida.

Mas, quando por alguma razão o amor nos falha e a vida nos ludibria, deixamos de ser quem já fomos. Há muito deixamos aquelas paredes velhas. E há muito que os sonhos que um dia soltamos das paredes já não são os mesmos. Quando o amor nos falha por qualquer razão voltamos sem sonhos, pelo men…
Morreste-me ali amor... Sei que ainda respiras... Mal, mas respiras... Sei que ainda aí vives... Mas sei que te perdi ali algures onde a vida vira... Fomos tantas e tantas vezes ao limite do ser que nos perdemos para lá do ir... Fomos longe demais procurar o que tínhamos mesmo à mão de ser... Quisemos ser tudo... Quisemos viver tudo, quisemos ter a certeza... E com a certeza de que o amanhã é incerto, guiamo-nos pela incerteza... Perdidos por ali... Fomos morrendo...
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De: Helena Coutinho

"Aqui jaz um corpo que esculpiu palavras.
Aqui jaz o sorriso de quem ousou querer o mundo dos imortais;
os cabelos onde borboletas passeavam liberdade
e as mãos de jardim, onde beija-flores bebiam fantasia…
Aqui jaz a que não temeu sonhar todas as vontades do coração.
Aqui repousa a alma da que jamais descansou de sentir tudo,
de todas as maneiras.
Aqui ecoará, para sempre, um querer, infinito, de poeta.
Aqui perdurará o tempo que a vida não me deixou escrever."