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A viagem

E duma daquelas viagens grandes, daquelas que nem todos têm a coragem de fazer por causa da enorme probabilidade de se perderem pelo meio, descobri que me enganei num cruzamento. O problema das viagens longas, é que se nos perdemos no início, toda a viagem poderia ter sido em vão. Ora portanto teríamos de voltar atrás, ou poderíamos continuar em frente, só para descobrir se este caminho vai dar ao mesmo sítio. Pois bem, voltando à questão do cruzamento, já íamos longe, o tempo já não era muito, voltar atrás poderia significar o fim, o fim da viagem, o fim da aventura, podia também singificar encontrar o que sempre foi procurado, podia ser o alcançar de um sonho, podia ser "o final feliz", ou pelo menos, o conceito de "final feliz". Mas teria de voltar atrás... Então e se continuasse viagem, se continuasse a arriscar pelo caminho errado, quem sabe se não seria uma viagem ainda mais fantástica? E se no fundo, este fosse o melhor caminho, embora mais longo para a felicidade? E quem teria dito que a felicidade tinha de chegar depressa, quem disse que não poderíamos saborear a infelicidade, abraçá-la, brincar com ela, só para depois termos bem a noção do verdadeiro sabor de felicidade e o podermos saborear com um certo prazer. E pronto, no meio disto tudo, fomos ali a Penafiel, para não nos perdermos!

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Soltamos das paredes da imaginação o quadros com os sonhos... Caminhamos por caminhos que nunca tinham sido nossos... Deixamos quem éramos lá atrás e retocamos os quatros ainda há pouco desprendidos. Entorpecidos pelo amor, caminhamos enquanto pintamos, sonhamos enquanto caminhamos, construímos enquanto destruímos. Depois de soltos os sonhos, acabam por se prender em quem amamos. Ali, em quem amamos, residem agora os quadros dos nossos sonhos, as paredes da nossa imaginação, os limites da nossa existência. Ali, ali fica tudo o que já fomos e tudo o que gostaríamos de ter sido. Ali, como quem troca para uma casa maior e mais bonita, procuramos uma parede mais perfeita onde possamos decorar a vida.

Mas, quando por alguma razão o amor nos falha e a vida nos ludibria, deixamos de ser quem já fomos. Há muito deixamos aquelas paredes velhas. E há muito que os sonhos que um dia soltamos das paredes já não são os mesmos. Quando o amor nos falha por qualquer razão voltamos sem sonhos, pelo men…
Morreste-me ali amor... Sei que ainda respiras... Mal, mas respiras... Sei que ainda aí vives... Mas sei que te perdi ali algures onde a vida vira... Fomos tantas e tantas vezes ao limite do ser que nos perdemos para lá do ir... Fomos longe demais procurar o que tínhamos mesmo à mão de ser... Quisemos ser tudo... Quisemos viver tudo, quisemos ter a certeza... E com a certeza de que o amanhã é incerto, guiamo-nos pela incerteza... Perdidos por ali... Fomos morrendo...
Agora, agora vais-me a enterrar quando não restar nada... Quando formos só uma imagem do ontem, um sonho enterrado vivo e morto à nascença... Morremos ali... Aonde a vida vai e nos ficamos... Vamos a enterrar, sozinhos de nós...

De: Helena Coutinho

"Aqui jaz um corpo que esculpiu palavras.
Aqui jaz o sorriso de quem ousou querer o mundo dos imortais;
os cabelos onde borboletas passeavam liberdade
e as mãos de jardim, onde beija-flores bebiam fantasia…
Aqui jaz a que não temeu sonhar todas as vontades do coração.
Aqui repousa a alma da que jamais descansou de sentir tudo,
de todas as maneiras.
Aqui ecoará, para sempre, um querer, infinito, de poeta.
Aqui perdurará o tempo que a vida não me deixou escrever."