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Tristeza nos olhos mais alegres


E depois, ao fim de muito tempo, deu consigo a ter saudade do seu país... É muito mais difícil construir uma vida num país que não é o nosso, descobriu agora, com um certo assombro. À medida que se ia afastando nem deu conta de para onde caminhava, pensava que tudo seria igual. Talvez não fosse preciso mudar os costumes, talvez os amigos se fossem continuando a encontrar como sempre, talvez conseguisse manter os hábitos que tão familiares lhe eram. Talvez... Foi com esta mentalidade que foi abandonando o seu país. Não sabia que ao mudar de país, por muito gradual e subtil que a mudança fosse, tudo o que tinha como real, mais não seria que uma longínqua recordação de como bom era viver naquele país que sempre fora o seu. A realidade caiu-lhe aos pés como uma pedra grande atirada de um arranha-céus. As pessoas lá, no outro país, eram mais tristes, a sua aura era mais cinzenta, as gargalhadas do seu país foram, aos poucos, transformando-se em lamurias, os grandes projectos tornaram-se em pequenas conquistas perdidas pouco depois. Lá, nesse país para onde viajara, não imperava a alegria e o espírito do seu país natal. Lá, nesse país tudo era desgraça e nada parecia ter tendência a melhorar. 
Quando deu conta deparou com uma triste e estridente realidade... Não foi ele que mudou de país, foi o país que mudou dele. Perguntava-se agora como é que chegou ali, àquele país que não era dele, sem nunca ter saído do mesmo sítio. Tentava culpar um ou outro mas ninguém o ouvia, no fundo já ninguém ouvia ninguém. O país que sempre fora acolhedor parecia querer mandá-lo embora... E como se só isso não fosse suficiente, aqueles que tomaram conta daquele país que fora seu, ainda o incentivavam a sair, como se alguma vez fosse possível, naquele país de outros tempos, uns quantos senhores bem vestidos e bem remunerados, expulsar todo um povo lutador e sonhador. Pegou no carro, com vontade de espalhar por todos os cantos do país que um dia também fora dele, mas ao fim de uns quantos metros desistiu porque sozinho não faria a diferença num país agora cinzento, cansado e com medo de sonhar. Talvez um dia, aquele povo que um dia habitou o seu país, acorde do pesado pesadelo e consiga voltar o país que no fundo sempre foi dele. Até lá... Tristeza nos olhos mais alegres.

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