Avançar para o conteúdo principal

Tempo

Quase não chegavam atrasados, se todos os outros não tivessem chegado a tempo! Porque é assim, o tempo é relativo, é feito de maratonas de distâncias, obstáculos que se nos impõem, que nos atrasam, acabamos por fazer sempre o mesmo caminho e não saber bem a distância que percorremos, porque o tempo, esse que nos faz chegar na altura certa, por vezes faz-nos chegar na altura errada. Quase como o senhor que se esqueceu de calçar os sapatos quando saiu e quando voltou a casa reparou que só tinha chinelos para calçar e que ao sair é abalroado por um caixote do lixo desgovernado, solto pelo outro senhor, o do lixo que enquanto consultava o relógio para contar os minutos que faltavam para o almoço descobriu com assombro que faltavam horas, e que afinal faltavam muitos minutos. Enquanto fazia estas contas de cabeça o caixote do lixo soltou-se e ganhou logo velocidade, porque o senhor que na altura fez a rampa estava com pressa para ir buscar o filho à escola e deixou a rampa muito acentuado para correr pelo tempo. Enfim, o senhor do lixo atirou-se ainda, mas nada pôde fazer, o caixote já havia traçado o seu destino, o seu alvo. Atirara-se a toda a velocidade em direcção ao senhor que só tinha chinelos (destino... Talvez... Se tivesse sapatos não teria voltado para trás). No preciso momento em que o senhor do lixo se atirou em direcção ao coixote do lixo (que não era mais que isso e ninguém correria atrás de lixo só porque sim) bate contra uma senhora que caminhava pelo seu caminho de sempre, o que sempre a levava a casa. Entre desculpas e cortesias de quem se não conhece lá se perderam durante algum tempo, lá prolongaram a distância que separava a senhora de casa. Do senhor que fora abalroado pouco se sabia, sabia-se só que não tinha sapatos. Resta a história dos outros dois que se "esbarraram" no caminho de sempre e se perderam no tempo, no caminho de sempre, na distância. Ficaram horas a falar e o senhor nunca mais contou minutos. E os outros, os primeiros, por não terem chegado a tempo, chegaram apenas atrasados e perderam os rissóis pequeninos.

Comentários

  1. Lá dizia o outro: 'o bater das asas de uma borboleta...'

    ResponderEliminar
  2. Eh, não fui lá muito original, mas a ideia era boa :p

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Morreste-me ali amor... Sei que ainda respiras... Mal, mas respiras... Sei que ainda aí vives... Mas sei que te perdi ali algures onde a vida vira... Fomos tantas e tantas vezes ao limite do ser que nos perdemos para lá do ir... Fomos longe demais procurar o que tínhamos mesmo à mão de ser... Quisemos ser tudo... Quisemos viver tudo, quisemos ter a certeza... E com a certeza de que o amanhã é incerto, guiamo-nos pela incerteza... Perdidos por ali... Fomos morrendo...
Agora, agora vais-me a enterrar quando não restar nada... Quando formos só uma imagem do ontem, um sonho enterrado vivo e morto à nascença... Morremos ali... Aonde a vida vai e nos ficamos... Vamos a enterrar, sozinhos de nós...

Shakespeare

"Depois de algum tempo aprendes a diferença, a subtil diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma. E aprendesque amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança. E começas a aprender que beijos não são contratos e presentes não são promessas. Acabas por aceitar as derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança. E aprendes a construir todas as tuas estradas de hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em vão. Depois de algum tempo aprendes que o sol queima se te expuseres a ele por muito tempo. Aprendes que não importa o quanto tu te importas, simplesmente porque algumas pessoas não se importam... E aceitas que apesar da bondade que reside numa pessoa, ela poderá ferir-te de vez em quando e precisas perdoá-la por isso.Aprendes que falar pode aliviar dores emocionais. Descobres que se leva anos para se construir a confiança e apenas …

De: Helena Coutinho

"Aqui jaz um corpo que esculpiu palavras.
Aqui jaz o sorriso de quem ousou querer o mundo dos imortais;
os cabelos onde borboletas passeavam liberdade
e as mãos de jardim, onde beija-flores bebiam fantasia…
Aqui jaz a que não temeu sonhar todas as vontades do coração.
Aqui repousa a alma da que jamais descansou de sentir tudo,
de todas as maneiras.
Aqui ecoará, para sempre, um querer, infinito, de poeta.
Aqui perdurará o tempo que a vida não me deixou escrever."