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Rotina

Dia após dia, mês após mês, ano após ano, sempre o mesmo sítio, sempre as mesmas pessoas, aquela rotina que incomoda e aborrece, aquela rotina que sentimos falta, que acabamos por querer e aceitar e até desejar. Aquela rotina. E quando julgamos que nada nos pode surpreender nos mesmos sítios, nas mesmas pessoas, surge algo de completamente diferente, alguém de completamente novo. As noites, aquelas que se tinham tornado numa após outra voltam a ganhar um certo brilho. Começam a valer a pena como antigamente, onde a cada dia, a cada noite, algo de novo poderia acontecer. O mesmo sítio voltou a ganhar a imprevisibilidade de outros dias, outros meses, outros anos. Esta rotina já é nossa, já não temos força nem tempo para construir outra, estávamos assim, parados, até que algo aconteceu de diferente, para nos voltar a dar esperança de que no fim era aqui que devíamos estar. Aconteceu alguma coisa que nos fez agradecer ter ficado.

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Soltamos das paredes da imaginação o quadros com os sonhos... Caminhamos por caminhos que nunca tinham sido nossos... Deixamos quem éramos lá atrás e retocamos os quatros ainda há pouco desprendidos. Entorpecidos pelo amor, caminhamos enquanto pintamos, sonhamos enquanto caminhamos, construímos enquanto destruímos. Depois de soltos os sonhos, acabam por se prender em quem amamos. Ali, em quem amamos, residem agora os quadros dos nossos sonhos, as paredes da nossa imaginação, os limites da nossa existência. Ali, ali fica tudo o que já fomos e tudo o que gostaríamos de ter sido. Ali, como quem troca para uma casa maior e mais bonita, procuramos uma parede mais perfeita onde possamos decorar a vida.

Mas, quando por alguma razão o amor nos falha e a vida nos ludibria, deixamos de ser quem já fomos. Há muito deixamos aquelas paredes velhas. E há muito que os sonhos que um dia soltamos das paredes já não são os mesmos. Quando o amor nos falha por qualquer razão voltamos sem sonhos, pelo men…
Morreste-me ali amor... Sei que ainda respiras... Mal, mas respiras... Sei que ainda aí vives... Mas sei que te perdi ali algures onde a vida vira... Fomos tantas e tantas vezes ao limite do ser que nos perdemos para lá do ir... Fomos longe demais procurar o que tínhamos mesmo à mão de ser... Quisemos ser tudo... Quisemos viver tudo, quisemos ter a certeza... E com a certeza de que o amanhã é incerto, guiamo-nos pela incerteza... Perdidos por ali... Fomos morrendo...
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De: Helena Coutinho

"Aqui jaz um corpo que esculpiu palavras.
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e as mãos de jardim, onde beija-flores bebiam fantasia…
Aqui jaz a que não temeu sonhar todas as vontades do coração.
Aqui repousa a alma da que jamais descansou de sentir tudo,
de todas as maneiras.
Aqui ecoará, para sempre, um querer, infinito, de poeta.
Aqui perdurará o tempo que a vida não me deixou escrever."