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Nunca mais lhe escreveu

Durante muito tempo, talvez tempo a mais. Talvez já não valesse a pena escrever-lhe, talvez ela já o deixasse de ler há muito. Não sabia... Continuava a escrever... Dizia-lhe a palavras meias que sentia a sua falta, tentava explicar-lhe que o pouco sentido que encontrara para a sua miserável existência, muitas vezes mais não era que escrever-lhe. Sussurrar-lhe ao coração o que não conseguia exprimir... As palavras continuavam meias. Talvez porque as palavras não chegassem, talvez o sentimento não chegasse para as palavras, ou então o sentimento não era tão forte como as palavras o faziam parecer. Não sabia. Hoje, ou naquele dia não lhe escreveu. Escreveu para dentro, para si... Segredou ao seu próprio coração o que sentia. E o coração respondeu-lhe a meio batimento, como que se o sentimento não fosse suficiente para o coração bater mais depressa. Foi nesse dia que percebeu que se tivesse escrito para dentro há muito teria percebido que o coração não batia como parecia. E o sentimento há muito se perdera. O que se manteve foi a vontade de escrever, sem sentido, percebia agora. Nunca mais lhe escreveu.

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Agora, agora vais-me a enterrar quando não restar nada... Quando formos só uma imagem do ontem, um sonho enterrado vivo e morto à nascença... Morremos ali... Aonde a vida vai e nos ficamos... Vamos a enterrar, sozinhos de nós...

Shakespeare

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