segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Folha que mata

Escrevia... Não havia percebido que à media que as suas frases ganhavam  forma,
inventava uma realidade, Uma realidade que se não conhecia, que se não imaginava.
Acaba de criar mais uns quantos medos que desconhecia. Acabou por perceber
outros tantos amores que temia serem tanto. À medida que o texto ganhava forma
a sua vida perdia sentido. E ele, coitado, continuava a escrever, não se sabe ser
por curiosidade, se por vontade de saber a quem amar. Diz-se que endoideceu,
diz-se também que não morreu de explosão de coração. Não se sabe de nada.

Nunca ninguém o alertara para o poder do olhar, do ver o que se imagina, ali,
escrito em folha de papel para matar. Não percebia que o amor ganhava forma,
porque já há muito o era. E só se perceba a intensidade quando se atira para
um papel e as palavras correm soltas para uma frase com sentido, com sentido
ali, e na outra realidade. Nunca ninguém teve a coragem de lhe dizer que descrever
os medos é dar-lhes vida, uma vida maior, maior que nós. Estar ali, na folha que
mata dá a entender que o medo tem forma e se se consegue descrever é porque
quase que se consegue ver. E apesar de o sentir intensamente, julgava-o sem forma.

Nesta realidade nova, da folha que mata, acabara por perceber que nunca amou
a pessoa certa e aquela que julgava ser só outra, era a pessoa que lhe mordia
o coração, agora moribundo. Esteve ali, sempre ao lado dela a vê-la cair de pé,
sempre. Até ter chegado ali, à folha que mata, e a ter descrito é que percebeu que
a amava. Admirava-a há tanto tempo que estava cego por ela e não a conseguia
ver. E mesmo sem a ver conseguiu descrevê-la. Nesta tal folha, percebeu que a
vida só teria feito sentido se lhe tivesse dado o sentido certo quando deixou de ver.
Agora, que voltou a abrir os olhos e voltou a ver, agora que ela já não o cegava,
apenas brilhava como sempre fora, percebeu que era tarde para eles.

E foi nessa altura que o que seria só uma carta se transformou numa carta que mata.

Foi encontrada ao lado do seu corpo morto, de coração moribundo e alma perdida.

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