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A minha rua

Eu sabia que eras tu, não podia haver mais uma mulher
com as tuas características na "rua" que foi sempre tua.
E se não eras tu na tua rua, não podia ser eu que te via.
E eu, eu tinha a certeza que era eu que estava a ver a
outra mulher... Volto a olhar e revivo o que de nós foi,
o que de nós morreu e concluo que afinal és tu na tua
rua. E também sou eu a olhar para ti, não sou outro.
Sou o mesmo que viu os dias nascer contigo, sou o mesmo
que te viu matar todos esses dias, quando na tua plácida
face entendi que tinhas de partir, enquanto me dizias
que ias ficar, enquanto eu sorria e te dizia que sim, e
pensava que, afinal, tudo não passava do nosso eterno
retorno ao que nunca fomos. Nesse dia que olhava essa
mulher na tua rua, entendi que afinal eras tu, o que
afinal mudara fora a maneira como o meu coração te
conhecia e não reconhecia já. Já não eras a mulher
daquela rua, eras só mais uma, uma mulher qualquer
que um dia fora dona dessa rua... Mas afinal, essa rua
é minha, tu só lhe deste o teu nome durante algum tempo.

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De: Helena Coutinho

"Aqui jaz um corpo que esculpiu palavras.
Aqui jaz o sorriso de quem ousou querer o mundo dos imortais;
os cabelos onde borboletas passeavam liberdade
e as mãos de jardim, onde beija-flores bebiam fantasia…
Aqui jaz a que não temeu sonhar todas as vontades do coração.
Aqui repousa a alma da que jamais descansou de sentir tudo,
de todas as maneiras.
Aqui ecoará, para sempre, um querer, infinito, de poeta.
Aqui perdurará o tempo que a vida não me deixou escrever."
Morreste-me ali amor... Sei que ainda respiras... Mal, mas respiras... Sei que ainda aí vives... Mas sei que te perdi ali algures onde a vida vira... Fomos tantas e tantas vezes ao limite do ser que nos perdemos para lá do ir... Fomos longe demais procurar o que tínhamos mesmo à mão de ser... Quisemos ser tudo... Quisemos viver tudo, quisemos ter a certeza... E com a certeza de que o amanhã é incerto, guiamo-nos pela incerteza... Perdidos por ali... Fomos morrendo...
Agora, agora vais-me a enterrar quando não restar nada... Quando formos só uma imagem do ontem, um sonho enterrado vivo e morto à nascença... Morremos ali... Aonde a vida vai e nos ficamos... Vamos a enterrar, sozinhos de nós...

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