Avançar para o conteúdo principal

O frio... Cá dentro

O frio faz-se sentir lá fora, onde tantas e tantas vezes nos sentámos juntos a
contemplar o nada, que ainda mal adivinhávamos ser nosso um dia, nessas
noites, mal sabíamos ainda que um dia nos pareceriam perdidas, desperdiçadas,
e é nesse frio que te sinto, o vazio por ti deixado faz com que este espaço
pequeno se torne cheio de frio, cheio de nada, as tuas gargalhadas espontâneas
já se não fazem ecoar pelo prédio, o barulho do mar, que um dia nos parecera
harmonioso, não passa disso mesmo hoje, de barulho, um barulho que por
muito que não queira vai acabando por se tornar irritante. O frio, esse entra-me
na alma a cada travo de um cigarro fumado na esperança de te ouvir apenas a
praguejar este maldito vício que no fim, acaba por ser o pouco presente de ti
aqui, nesta noite fria. Ao longe os mesmos barcos que rumam sem destino, com
a esperança de que a manhã os traga ao mesmo sítio, os mesmos barcos que
observámos, perdidos num horizonte que julgávamos ser nosso, num destino
sem rumo, que, esperávamos nós trazer-nos sempre até nós, tal como os
barcos que se afastam, sem medo, sem destino e que como tantas e tantas
vezes confirmamos, acabam por voltar. Parece que o destino dos barcos que
se perdem ao longe é mais certo, não é assim tão imprevisível como julgávamos
quando eram abanados por uma onda maior... Esses, esses resistem a tempestades,
a infortúnios, a uma noite de pesca infrutífera. Esses, ao contrário de nós, voltam
ao porto seguro, de onde nunca queriam sair, sentiam-se seguros, tal como
nós nos sentíamos aqui sentados. Eles voltam, encontram o caminho de regresso,
nós, nós descobrimos todos os caminhos para longe de nós. Sempre seguros.
Os miudos continuam lá em baixo, a fazer o mesmo barulho de sempre, mas
hoje ate não incomodam tanto, afinal não silenciam a tua vós doce, serena,
que lá me ia embalando entre um ou outro trago de uma garrafa perdida num
frigorífico ainda mais frio que o vazio que me fazes sentir, nesta varanda
virada para o horizonte, para o futuro incerto, com a certeza de que nada
voltará a ser o que foi, com a certeza de que um dia não vão haver mais
garrafas perdidas, com a certeza de que os miudos um dia crescem e não
vão fazer barulho lá em baixo, com a certeza de que um dia um barco não
volta ao seu porto seguro, com a certeza de que um dia a varanda voltará
a ser quente, mas sem ti, será um calor que pouco mais será que o frio de hoje.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Morreste-me ali amor... Sei que ainda respiras... Mal, mas respiras... Sei que ainda aí vives... Mas sei que te perdi ali algures onde a vida vira... Fomos tantas e tantas vezes ao limite do ser que nos perdemos para lá do ir... Fomos longe demais procurar o que tínhamos mesmo à mão de ser... Quisemos ser tudo... Quisemos viver tudo, quisemos ter a certeza... E com a certeza de que o amanhã é incerto, guiamo-nos pela incerteza... Perdidos por ali... Fomos morrendo...
Agora, agora vais-me a enterrar quando não restar nada... Quando formos só uma imagem do ontem, um sonho enterrado vivo e morto à nascença... Morremos ali... Aonde a vida vai e nos ficamos... Vamos a enterrar, sozinhos de nós...

De: Helena Coutinho

"Aqui jaz um corpo que esculpiu palavras.
Aqui jaz o sorriso de quem ousou querer o mundo dos imortais;
os cabelos onde borboletas passeavam liberdade
e as mãos de jardim, onde beija-flores bebiam fantasia…
Aqui jaz a que não temeu sonhar todas as vontades do coração.
Aqui repousa a alma da que jamais descansou de sentir tudo,
de todas as maneiras.
Aqui ecoará, para sempre, um querer, infinito, de poeta.
Aqui perdurará o tempo que a vida não me deixou escrever."

Shakespeare

"Depois de algum tempo aprendes a diferença, a subtil diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma. E aprendesque amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança. E começas a aprender que beijos não são contratos e presentes não são promessas. Acabas por aceitar as derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança. E aprendes a construir todas as tuas estradas de hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em vão. Depois de algum tempo aprendes que o sol queima se te expuseres a ele por muito tempo. Aprendes que não importa o quanto tu te importas, simplesmente porque algumas pessoas não se importam... E aceitas que apesar da bondade que reside numa pessoa, ela poderá ferir-te de vez em quando e precisas perdoá-la por isso.Aprendes que falar pode aliviar dores emocionais. Descobres que se leva anos para se construir a confiança e apenas …