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Uma onda qualquer que não é igual a mais nenhuma

Ele tinha sonhos que não podia contar a ninguém... Todos o iriam julgar um doido, teria de encontrar alguém como ele, alguém que entendesse que barulho era mais que ruído de tudo o que nos envolvia, precisava de encontrar alguém, que como ele, quisesse entender o barulho. Precisava encontrar alguém a quem pudesse contar que ficava sentado à varanda a ouvir o bater das ondas nas pedras, não pelo facto simples de acalmar toda a gente, mas a distinguir a forma como se desfaziam, a imaginar todas as histórias que onda que acabava de se desfazer poderia contar. Teria de encontrar a pessoa a quem poderia contar que muitas vezes ficava acordado a noite inteira a contar estrelas só até cinco e depois se perdia em pensamentos vagos. Tinha de descobrir alguém que compreendesse que a magia existia se acreditássemos nela, se não a tentássemos destruir, queria acreditar com alguém em histórias de fantasmas e ter medo e demorar a adormecer. Mas não, não poderia mostrar isso ao mundo, esse seu lado seria a autoestrada da sua destruição. Não. Vivia atrás de uma máscara, uma máscara de pessoa racional, que não acredita no poder da imaginação, que não se atreve a pensar mais que o vizinho do 3ºESQ. Cumpria tudo o que a sociedade há muito o havia tentado convencer a cumprir sem o atrevimento de questionar. Esquecido já da sua verdadeira essência, enganado pela máscara que criou para os outros, acreditou que era o homem da máscara e casou, diz-se que com uma mulher fantástica, daquelas que têm uma carreira fantástica e cozinham e arrumam a casa e só resmungam ao Domingo porque a novela dá muito tarde. Ele, o homem mascarado que se tornou na máscara um dia descobriu que ainda conseguia sonhar. Mas agora, agora já era tarde para sonhar, o tempo havia passado e sonhar já não fazia sentido. Tirava a máscara de quando em vez na varanda a ouvir as ondas baterem desesperadas contra as rochas, como as suas ideias batiam desorientadas contra a muralha que criou para o seu mundo. Agora, agora é tarde pensava a vizinha do 3ºESQ que também havia descoberto há alguns dias que ainda conseguia sonhar. Diz quem os conhece que nunca chegaram a falar sequer, não deviam gostar da máscara um do outro. Porque sem as máscaras teriam vivido as mais loucas aventuras que já se haviam contado. Juntos teriam voado, teriam acreditado, teriam uma vida mágica. Assim, assim mais não foram que dois desconhecidos, mascarados, longe da essência, longe deles próprios. Ah se eles soubessem que eram iguais e que podiam tirar a máscara um para o outro talvez ainda descobrissem o que aquela última onda teria para contar. É tarde, tão tarde. Mais uma onda, mais uma história, menos tempo, sempre menos tempo a cada onda. 

Comentários

  1. um texto desassossegado, mas que gostei muito.
    se calhar o medo tomou conta deles e de nós.
    beijo

    :)

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  2. Ao que parece teremos de ser sempre maiores que o medo ;)

    Beijinho Piedade

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  3. A vida é capaz de nos surpreender sempre... quem sabe não será o caso dos mascarados, por enquanto, desencontrados? ;)
    Beijinhos

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  4. Temos de esperar algum tempo a ver o que acontece;) a ver vamos se terão tempo que chegue;) beijinho Benedita *

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