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Do medo sabe-se muito depois de se perder

Era qualquer coisa maior que ele, tinha a certeza. Pelo menos mais pesada que a sua existência. Sentia o peso a empurrá-lo para trás, como que se aquilo, o que era maior que ele, não quisesse que fosse tão para a frente. De todas as vezes que tentava atirar-se para um lugar desconhecido aquela coisa impedia-o, puxava-o para cima e deixava-o cair antes num chão pouco longe do que conhecia. Aos poucos foi aceitando aquele peso, aquela coisa que não conhecia. Mesmo ao deitar-se para descansar as pernas já adormecidas de tanto peso dava conta de que aquilo ia com ele para a cama e se fazia pesar agora no seu peito. Mal conseguia respirar. Aquela coisa começava a afirmar-se em todos os sítios que outrora foram leves. Antigamente só o impedia de ir mais longe, agora não o deixava sequer estar perto de si. Os momentos bons começaram a assumir a figura do peso que carregava. Os amigos começavam a ficar para trás, ou escondidos atrás daquela coisa enorme que se não via mas não deixava ver. O trabalho, esse ficou cada vez mais automático até o perder. A rotina foi trocada por outra, uma mais pequena, afinal agora não podia fazer tanto, carregava aquilo consigo e não podia ir tão longe. Com o passar do tempo a coisa maior que Ele tornou-se gigante. Não sabia o que era. Talvez aquela coisa tivesse sido sempre assim pesada. Se calhar já fora mais forte... Não conseguia entender. Ficou muitas vezes acordado a tentar ver o que nunca conseguira. Como seria possível ser tão maior que ele e ser invisível? Há muito deixara de acreditar na invisibilidade. Aos poucos foi-se questionando, começou a aceitar que poderia haver fantasmas, vidas mortas que vagueiam pelo seu caminho perdidas. Seria o cansaço do que carregava que já o obrigava a ponderar todas as possibilidades, mesmo as que nunca as seriam. Aos poucos a sua vida limitou-se a um ir assustado ao supermercado e a um tímido bom dia à vizinha da frente. Perdera tudo menos aquele peso que a cada dia se mostrava maior e mais insustentável. Um dia qualquer, já sem forças nem opções conseguiu ver o que o esmagara contra a realidade, conseguiu perceber o que o prendeu ao chão com correntes de ar. Correntes de ar daquelas que se ouvem quando se deixa a janela aberta e se não fecha a porta. Percebeu que aquela coisa maior que ele, maior que o mundo, maior que tudo era só o seu medo, a sua culpa. Não sabia por onde começar, mas sabia que havia uma saída. Aos poucos ensinou o caminho aos fantasmas que encontrou perdidos, aos outros disse para desistirem e aceitarem que não havia caminho com saída para eles. Aos poucos ficou leve, aos poucos voltou a aprender a viver. Aos poucos voltou a criar fantasmas que lhe alimentavam o medo. Mas agora já percebera que a vida é uma estada de um sentido só e deixava que os fantasmas o seguissem até se perderem. Sabia que o único peso que carregava era o seu. O medo e as decisões já não lhe pesavam nada. Os fantasmas não tinham peso, eram só isso, fantasmas pesados, perdidos, mortos. 

Comentários

  1. "o único peso que carregava era o seu". gosto!!!! :)

    (duas coisas completamente opostas as que gostei (principalmente) e comentei hoje? ou não?)

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  2. Comentaste sim ;) Pelo menos eu recebi 2 comentários ;) Muito obrigado pela visita ;)

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  3. não é isso!:P (eu comento e visito pq gosto:))

    eu queria saber se as duas coisas que gostei são opostas ou não no teu entender...
    (pq é estranho eu ter gostado de duas coisas tão opostas)

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  4. Ahhh!! Sim, são duas coisas completamente diferentes... Mas não são assim tão apostas, são parecidas até certo ponto, apenas tomam caminhos diferentes a dada altura... não será mais por aí? ;)

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