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Se o tempo fizesse todo o sentido

Num sereno fim de tarde ali se encontrava à porta de casa. Era estranho, sentia que não morava ali, não conseguia perceber porquê mas parecia-lhe fazer sentido morar na casa ao lado. Naquele preciso momento sentiu-se envolvido por uma estranha sensação de que todos os lugares que um dia foram seus, eram agora de outra pessoa qualquer, sentia-se ao lado, ao lado de casa, talvez ao lado de si. No entanto sentia-se perto de todos os sítios, sentia-se até perto de si, até perto de casa. A noite foi-lhe inundando o dia e o dia que antes fora seu desapareceu e passou para um dia de tanta gente. Olhava para si e não parecia ele. Era uma estranha sensação que não o deixava mover, por ali ficou... petrificado, assustado? Não conseguia entender, a única coisa que percebia é que não conseguia sair dali, de frente daquela casa que já não lhe parecia sua. Aos poucos e à medida que conseguia abrir espaço na mente, foi abraçando a noite. Talvez a noite lhe trouxesse respostas que o dia acabou por levar consigo. E por ali ficou até ser dia e a noite lhe fugir por entre os braços. Perdeu a noite... Em vão? Não... Durante a noite percebeu que aquele dia que foi e que lhe deixou a sensação de que ele não era ele, de que a casa dele não era sua, de que as suas memórias lhe não pertenciam. Esse tal dia que o deixou ali, à frente da porta da casa que fora dele, mostrou-lhe que estava à frente da sua casa, da que fora sempre sua. O que simplesmente desapareceu e lhe dava a sensação que nada era seu como já fora foi o passado. Entrou com coragem e encontrou o passado em gavetas pequenas, aconchegadas para serem esquecidas. Foi ali, naquele momento que se tornou imortal, foi ali que percebeu que as suas memórias eram passado, foi ali que percebeu que aquela era a sua casa de hoje e de amanhã. E de repente abriram-se todas as gavetas e perdeu-se na confusão. Confundiu o ontem com o hoje e amanhã já era tarde para ir dormir. Adormeceu. Ontem vai acordar e perceber que tudo não mais é que um sonho ou então vai perceber hoje que o sonho sempre foi real amanhã. Não se sabe, talvez ontem tudo faça sentido. Por agora deixa-mo-lo descansar até ontem e perguntamos-lhe o que aconteceu aos sapatos. Por amanhã fica assim descalço de memórias, ontem é um novo dia!!

Comentários

  1. São tempos muito confusos, em que se misturam pedaços diferentes de tempo.

    Beijinho com tempo.:)

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  2. O tempo é uma coisa fantástica, tal como as memórias ;) As duas coisas bem usadas há-de dar boas histórias ;)

    Beijinho *

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  3. Tem dias que não nos sentimos em nós, estamos um nadinha ao lado daquilo que somos, como que a ver o que nos acontece um bocadinho de fora ;)

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Aqui jaz o sorriso de quem ousou querer o mundo dos imortais;
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Aqui repousa a alma da que jamais descansou de sentir tudo,
de todas as maneiras.
Aqui ecoará, para sempre, um querer, infinito, de poeta.
Aqui perdurará o tempo que a vida não me deixou escrever."
Morreste-me ali amor... Sei que ainda respiras... Mal, mas respiras... Sei que ainda aí vives... Mas sei que te perdi ali algures onde a vida vira... Fomos tantas e tantas vezes ao limite do ser que nos perdemos para lá do ir... Fomos longe demais procurar o que tínhamos mesmo à mão de ser... Quisemos ser tudo... Quisemos viver tudo, quisemos ter a certeza... E com a certeza de que o amanhã é incerto, guiamo-nos pela incerteza... Perdidos por ali... Fomos morrendo...
Agora, agora vais-me a enterrar quando não restar nada... Quando formos só uma imagem do ontem, um sonho enterrado vivo e morto à nascença... Morremos ali... Aonde a vida vai e nos ficamos... Vamos a enterrar, sozinhos de nós...

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