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A cumplicidade fugiu

Sentaram-se os dois, a ansiedade que os percorria era evidente a queda gesto,
a cada palavra. A intimidade e cumplicidade que outrora os protegia, transformara-se
aos poucos em distância, uma distância tal que temiam ambos proferir uma 
palavra mais forte, evitavam um gesto mais intenso. Ambos sabiam que a saída
era o fim, o fim contra o qual tanto lutaram, e foi durante toda essa luta que 
perderam tudo, até a invejável capacidade de comunicação e entendimento que
muitos já tinham reparado. Ela já há muito havia percebido que era uma luta
perdida, ele achava que não podia desistir e que nenhuma luta é perdida antes
de lutar com todas as forças. E agora que nada os puxava para eles, agora
que pareciam dois desconhecidos de tanto se conhecerem, estavam ali sentados
sem saber o que fazer ou dizer. É então que ele, o que sempre tivera esperança,
decidiu arriscar uma pergunta, uma simples pergunta, diria que "a pergunta".

-Sabes Rosalin, há muito que as coisas começaram a mudar e eu, com este 
medo que sempre me conheceste, tive medo que ao questionar-te do porquê
as coisas pudessem piorar. Entretanto, ao fim de todo este tempo não aguento
mais. O que mudou afinal entre nós, o que nos afastou do que sempre fomos?
(Contas em feitas, tinham passado 3 anos desde que as coisas começaram a mudar)

-Vladimir como é que só ao fim de tanto tempo é que decides perguntar o
que corre mal, como é que deixaste as coisas chegarem a este ponto? 
Chegamos a um ponto quase de não retorno, não sei se vamos conseguir
alguma vez reconstruir a relação que se foi perdendo pela tua cobardia!

-Pela minha cobardia? Que me lembre também nunca me perguntaste nada.~
Não houve uma única vez que me indicasses uma direcção, uma saída, uma
pequena pista, só para me não afastar tanto de nós, fiquei sem saber o que 
fazer, fiquei dias, dias que pareciam não terminar a tentar encontrar respostas.

-Mas não procuraste respostas, a única coisa que encontraste foram formas
de nos afastarmos cada vez mais. Nestes ultimos anos mudaste completamente.

-Sabes? És capaz de ter uma certa razão e ao que parece o que não vai
surgir desta conversa é soluções. Ora portanto, vou ali beber um bagaçinho 
quentinho, porque não estou para deitar tempo fora, como sempre!
(Eh, ele era ucraniano e ela era mexicana, vai daí não se entendessem)

-Percebes agora qual é o teu problema, nunca ficas o tempo suficiente para 
terminar as conversas que são realmente importantes, foges sempre.

-Eu não sei bem o que te diga, mas já estou atrasado, vai dar o futebol.

-Ai é verdade, tenho de ir ver a novela da SIC, está nos últimos episódios.

E lá foram, seguros de que afinal ainda havia esperança para eles, era 
evidente que a comunicação e a cumplicidade não se havia perdido 
por completo. A esperança invadia agora Vladimir, ou isso ou o 
bagaço, ainda é cedo para perceber. Rosalin, por sua vez, não havia
percebido se a conversa teria corrido bem e Vladimir tinha percebido
que era preciso uma televisão nova para a sala, e um sofá também 
viria mesmo a calhar. Horas mais tarde Vladimir chega a casa, como
de costume a tresandar a álcool e pergunta qualquer coisa imperceptível
a Rosalin, que ainda meia perdida em sonhos lhe pergunta imediatamente:

-Vladimir, quando te decides finalmente a abandonar o álcool?

-Agora que falas nisso, alcool leva acento em que "o"?

-Leva acento no "a".

-Percebes agora porque não vamos longe? Tu corriges até 
aquilo que eu não digo, além disso já devias saber que nunca fui de 
abandonar nada nem ninguém, independentemente dos problemas
que se me atravessem à frente. Percebes agora porque nos vamos
afastando cada e cada vez mais? Tu não me conheces. 

-Está bem, estás bêbado, amanhã passa-te, quanto ficou o Bate Borisov?

-Eu não sou bielorrusso, sou ucraniano carago!! Tu não me conheces!

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