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Ficas aí

E depois, num dia qualquer, sentado, agarrado a um comodismo que nem sempre foi o teu,
apercebes-te de que o teu amor se tenta aventurar com quem se levanta energicamente
todos os dias para mais um desafio. Ah, como o teu amor gostava do desconhecido, do risco
calculado da forma mais errada possível (não tivesse sido eu sempre tão mau em matemática).
(E também é estranho, lembrares-te só agora que ela gostava disso e tu deixaste de lho
proporcionar. ) E agora por aqui ficas... Não ficas triste, ficas sentado, à espera que haja um
outro amor tão "capaz e tão maior" que te volte a fazer levantar do sofá... Tu não perdeste,
tu deixaste que o que "tinhas" por garantido te deixasse de ser suficiente, quando no fundo
sabias ser tudo aquilo com que sempre sonhaste e por orgulho, deixaste-a partir, deixaste-a
descobrir todo um novo mundo, sozinha... Deixaste-a perceber que lhe não eras assim tão
importante, deixaste-te trocar por alguém, que até pode não ser melhor (ou talvez seja),
mas pelo menos acompanha-a em todas as suas aventuras, que provavelmente agora terão
contas certas e os riscos podem tê-lo deixado de ser e podem, agora, ser de facto, calculados.
Até porque há uma certa altura em que os riscos devem ser mesmo bem calculados e talvez
também tenha sido isso que a ajudou a optar... E agora, agora partes sozinho para outra
aventura, porque agora o único risco que corres passa por continuares parado, e isso é o
que não queremos.

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Soltamos das paredes da imaginação o quadros com os sonhos... Caminhamos por caminhos que nunca tinham sido nossos... Deixamos quem éramos lá atrás e retocamos os quatros ainda há pouco desprendidos. Entorpecidos pelo amor, caminhamos enquanto pintamos, sonhamos enquanto caminhamos, construímos enquanto destruímos. Depois de soltos os sonhos, acabam por se prender em quem amamos. Ali, em quem amamos, residem agora os quadros dos nossos sonhos, as paredes da nossa imaginação, os limites da nossa existência. Ali, ali fica tudo o que já fomos e tudo o que gostaríamos de ter sido. Ali, como quem troca para uma casa maior e mais bonita, procuramos uma parede mais perfeita onde possamos decorar a vida.

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Morreste-me ali amor... Sei que ainda respiras... Mal, mas respiras... Sei que ainda aí vives... Mas sei que te perdi ali algures onde a vida vira... Fomos tantas e tantas vezes ao limite do ser que nos perdemos para lá do ir... Fomos longe demais procurar o que tínhamos mesmo à mão de ser... Quisemos ser tudo... Quisemos viver tudo, quisemos ter a certeza... E com a certeza de que o amanhã é incerto, guiamo-nos pela incerteza... Perdidos por ali... Fomos morrendo...
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De: Helena Coutinho

"Aqui jaz um corpo que esculpiu palavras.
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Aqui perdurará o tempo que a vida não me deixou escrever."