segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Morreu, coitado

E sem que nada o fizesse adivinhar morreu.
Apanhou toda a gente de surpresa, até a
própria morte, que almoçava descontraidamente
com ele. Apanhou-a de tal forma distraida
que, enquanto o seu corpo lutava inutilmente
contra a morte não anunciada, teve tempo
para pensar em tudo o que não fez. Não fosse
o facto de estar "inconsciente", teria escrito
uma carta a pedir desculpa e a fazer promessas
do que nunca iria ser feito. Mas no fundo, não
era mentira, de facto, não eram mais do que os
seus sonhos, agora inalcançaveis. Morreu, coitado
e mais coitado ainda porque achou que tinha
tempo. Constatou, enquanto a morte o agonizava
e pedia a conta, (sim porque quem morre não deixa
dividas e a morte bem o sabia, até porque nunca
é seu hábito pagar o que quer que seja) que nada
de bom deixara neste mundo, constatou que de
todos os dias em que viveu em nada contribuiu
para que alguma coisa neste mundo e só neste
fosse melhor. Lembrou-se que até o crescimento
dos próprios filhos, com boa reputação lá na
vizinhança, não acompanhou nem com nada contribuiu.
Um pequeno miseravel, que viveu como quem já morreu.
Reparou que todos os dias acordou como quem adormece.

E até à inesperada morte pensava ser feliz.
ah!! Se a morte viesse mais rápido morria feliz.

2 comentários:

  1. Eis o que faz valer a pena andar por aqui...

    Excelente texto...Por pouco e diria que gostava de o ter escrito:)

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  2. Obrigado;) Eu posso por aqui co-autoria e assim digamos que quase o escreveste;)

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Às vezes dá aquela vontade muito miudinha de desaparecer... Desaparecer porque nos resta nada... Não há esperança, não há mais caminhos, não...