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Duplo espaço


O Sr. Bentley acredita que cada espaço contém em si outro espaço no qual o seu duplo habita, actua. Crê que os dois espaços se interceptam e contaminam. O Sr. Bentley tem um gato, porém cuida ser possível o duplo ter um cão - com idêntico nome. Se o Sr. Bentley urrasse: "Sam? Sam! Sacana, onde te meteste?!" e lhe aparecesse, cabisbaixo, de rabo entre pernas (jamais o orgulhoso felino se comportaria tão miseravelmente), o cão reconhecendo-o como dono, ele julgaria normal, comum. Estranharia, quiçá, que a tal realidade invisível (alternativa...) não tivesse tocado a sua antes. Para ele a troca é (seria) prova incontestável da ordem do Universo. Só um Universo trocado estaria composto.
O Sr. Bentley põe o totoloto todas as semanas. Tem uma chave que nunca modifica. Ele acredita na natureza sagrada dos números porque, de acordo com o colega de trabalho, há muito deixou de ter fé na natureza sagrada dos homens. Quando matou a mulher por ela se ter esquecido de pôr o totoloto na semana em que o primeiro prémio saiu à chave do Sr. Bentley, a descrença nos homens que o colega adivinhara apenas se confirmou. Melhor: materializou.
E contudo o Sr. Bentley supunha ser o duplo o verdadeiro assassino (não obstante a cristalizada lembrança das suas mãos fixas no pescoço da esposa). Devido à esdrúxula teoria de espaços no interior de espaços, não se surpreende ao ser preso e acusado do crime que, para si, foi de facto cometido pelo duplo invisível.
Só o colega fez a acertada ilação: a Sra. Bentley tinha posto o totoloto atempadamente. E guardara o recibo. A Sra. Bentley planeava safar-se com o dinheiro - e o amante.
- E a massa...?
- Alguém levantou o cheque.
- Mas quem?
O colega ergueu os ombros e fez uma festa a Sam.


Junho'02
(Ágata Ramos)

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