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Arte é isto

"A crença de que em Arte a Forma é tudo, enquanto que a
Emoção reduzida ao seu esqueleto psíquico é uma simples
relação abstracta, que ocupa um lugar secundário na obra de
arte - tem predominado desde sempre na Crítica com raras
excepçôes.
O que distingue a Arte das outras manifestações da vida
mental é muito essencialmente a Forma - diz-se.
O Ritmo é tudo. Acessível unicamente a algumas cria-
turas de eleição, o Ritmo será inevitavelmente profanado
pela grosseria da trivialidade bárbara: é a teoria da Arte pela
Arte, impelida às suas últimas consequências pelos flauber-
tianos. E assim era que o autor de Madame Bovary procla-
mava que escrevia tão-somente para doze criaturas.
E assim era que do mesmo modo Renan defendia que só
alguns espíritos de élite tinham o direito de negar Deus, que
devia ser imposto às multidões ignaras. Sempre e funda-
mentalmente um católico, este livre-pensador!
Felizmente os aristocratas intelectuais sumiram-se na grande
convulsão de Justiça que sacode as sociedades de hoje.
A teoria da Arte pela Arte só a defendem hoje uns pobres
impotentes que esfregam a sua incapacidade pelas esquinas
dos botequins.
Mas a crença de que a Forma em Arte é essencial ainda
surge de onde a onde, como uma superstição mal apagada.
E assim era que Ruskin, ao reclamar arte simples, ingénua na
forma, para ser apercebida da mentalidade popular, impli-
citamente confessava que a Arte, tal como até então ela era
expressa, escapava à afectividade de quase todos.
Na realidade o que escapava ao senso estético das mul-
tidões não era precisamente a Forma, mas sim a essência da
obra de arte, o esqueleto da Emoção enfim.
E tanto assim era que a teoria de Ruskin foi realizada, sem
frutificar: fez-se uma reversão à estilização primitiva: o pré-
-rafaelismo desfraldou as suas bandeiras; mas as massas con-
tinuaram na indiferença de até ali, inertes, inestésicas.
É que, se os sentimentos estilizados numa obra de arte
estão fora da esfera afectiva do público, este, claramente, não
percebe, não sente, não vibra em harmonia com o artista, e a
obra de arte é-lhe indiferente em absoluto.
Já em alguma parte tive ocasião de afirmar que, a meu
ver, o grande problema da educação estética, moral, social,
científica, consistia em fazer ascender as multidões às culmi-
nâncias da vida psíquica e não em apear a Arte do altissimo
plinto onde o homem a entronou.
Isso sim, que é evolucionar; o contrário seria regressar,
Não há uma Ciência popular, nem uma Arte popular por
assim dizer; melhor: a capacidade científica e estética do povo
é reduzida, embrionária, amorfa ainda; o cérebro do povo só
armazena ideias rudimentares, a sua alma só sente as emoções
mais elementares. Exponham a um cavador o melhor da
filosofia spenceriana, tentem fazer-lhe compreender uma lei
de Newton ou Berthelot, declamem-lhe Shakespeare, Goethe,
Ibsen, ou qualquer dos poemas de Antero - e verão o homem
bocejar de desprezo. É ver o ar de desdém com que os natu-
ralistas são apodados de doidos nas suas excursões cientí-
ficas pelas aldeias.
Poderíamos inferir de aqui que, visto a Arte não ter uma
imediata utilidade para as maiorias, está por esse facto conde-
nada? Não; de modo nenhum.
Isso seria condenar a Ciência também, pelo menos a ciên-
cia pura. E o que é preciso condenar é o maquinismo social,
que engendra e perpetua um tal desequilíbrio, uma desar-
monia que está gritando contra todas as leis da Natureza.
É por isso que John Ruskin, esse sonhador que será eter-
namente amado, se enganava quando, numa febre de justiça,
num ímpeto de revolta contra a pirâmide esmagadora,
sofrendo do sofrimento dos desgraçados, pedia uma Arte
para o Povo; o que ele devia reclamar, o grande idealista, era
um Povo para a Arte.
A própria história da Arte vem pugnar por este princí-
pio: o teatro grego, a escultura grega, a Arte helénica em
suma, que hoje apenas é compreendida por uma minoria
desesperadora - foi uma Arte nacional, uma Arte que os
Helenos, desde o mais humilde camponês ao mais requintado
dos estetas, compreendiam, sentiam e amavam.
Parafraseando a expressão de M. Duval, a Arte era uma
língua materna, era como o ar puro do céu da pátria, ar que
todos, mesmamente sôfregos, respiravam, na mesma avidez
de luz, na mesma ânsia de vida."

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