quinta-feira, 20 de agosto de 2009

O principio do fim

"A idade vai comendo a vida.Vai ratando o futuro, e nós (eles) a verem.Acorda-se com um dia a menos, e adormece-se com um dia a mais.O calendário vai-nos mudando o corpo.Vai-nos empurrando as costas, para a queda ser pequena.Os velhos sabem de cor o chão.Como quem sabe que está quase a chegar lá.Desde que perdi a minha avó, que ganhei o respeito por quem mora no terceiro andar da idade.Perde-se para ganhar.E assim foi. Emociona-me.Que vida inteira pode ser sentada sozinha, num banco de jardim?Com a idade, nunca escolhem o meio, sempre o fim do banco.Em crianças, ter-se-iam sentado na outra ponta?E deixam-se estar.Respiram como podem. Os olhos já não procuram nada. Já viram tudo.Vão guardando o passado em rugas, para libertar a cabeça.Em que pensam?Na morte? Os velhos não vivem. Deixam-se viver.Os filhos já tem a vida deles, não os querem.Tem de ir viajar e fazer compras para o jantar."O pai tem estado bem? Então vá, um beijinho."Picaram o ponto, e para eles está feito.Os novos choram com o corpo todo, gritam e fazem caras de quem sofre.Os velhos choram só com os olhos, que o resto não se vê.E assim o fazem, no fim do telefonema.Ninguém os quer com as doenças cheias de idade.As mãos da idade cheiram a tudo, com as veias cansadas de mostrar o sangue a toda a gente.As pernas vão perdendo caminho.Os braços deixam de abraçar.O coração começa a falhar, já bateu demais mesmo para quem amou pouco.Vai-se esquecendo de bater.E uma noite, sem avisar, desaprende.Desliga os olhos e atira o corpo para o fim.Ocupam agora o banco todo.Do principio ao fim, todo ele é corpo.E os filhos, cansados de telefonar, resmungam.Morreram oitenta e dois anos, e nem mais um dia.A cidade não pára, o mundo não interrompe, nada.Os filhos enterram vinte anos, e guardam os outros sessenta e dois.Os últimos vinte davam trabalho e de pouco valiam.Não tem vagar para os guardar.Mas de hoje em diante, esses vinte vão acordá-los todos os dias.Até se deitarem sozinhos no banco que os vai deitar."

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Às vezes dá aquela vontade muito miudinha de desaparecer... Desaparecer porque nos resta nada... Não há esperança, não há mais caminhos, não...