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Noite e dia

E como que num estranho momento de nostalgia, vou recordando um certo Verão... Talvez de 2004... Seria... Ambos procurávamos um futuro que não nos cabia, ambos descobríamos com assombro que não havia futuro para nós. Foi como que num momento de traição, o destino nos caçasse numa incógnita que tentamos adivinhar desde muito cedo. A viagem estava marcada, a conversa desenvolvera-se dias antes. Sabíamos que aquela viagem não mais seria, para nós, que o princípio do fim. Já tínhamos avistado o futuro, daquele mundinho pequeno, que ainda nos cabia nos olhos. Eu queria fugir ao conceito adquirido por uma sociedade que me não enquadrava, queria marcar por uma diferença. que desse mesmo mundo pequeno me parecia ter. Julgava ser "mais capaz" que os demais. Eu e todos os que comigo partilhavam aquele mundo utópico, julgávamos que iríamos, sem grande dificuldade, ser diferentes de todas as gerações que nos antecederam. Olhávamos para aqueles que nos ensinavam como pessoas velhas e gastas, não pelo tempo, mas talvez pelo espaço que se lhes havia sido imposto. Eu queria correr o mundo, descobrir tudo o que ainda não havia sido descoberto, ou redescobrir o que já todos conheciam. Enquanto tu, do alto da tua inocente capacidade de racionalidade, querias aprender, querias ouvir todos aqueles que eu considerava "perdidos" no espaço, parados à espera do que poderia nunca chegar. Daqueles que se sentavam a ver os filhos crescer, a ver os "pequenos" projectos ganharem forma. Tu, da tua maturidade prematura, querias aprender com eles, para um dia poderes construir um mundo parecido, querias sugar-lhes tudo o que tivessem a dar, enquanto eu tentava não os ouvir, para não saber como ser "eles" um dia.
A viagem chegou, recordo-me termos voltado a discutir todos os pontos em que os nossos mundos não tocariam. Recordo-me.
Voltámos, o tempo passou e eu dou comigo, parado, como aqueles que tanto havia criticado, dou comigo a ser racional, ponderado. E dou contigo a aproveitar tudo o que te foi ensinado e a correr o mundo à procura de novas experiências, sensações, descobertas.
Tudo para que, há uns tempos atrás, tivéssemos descoberto que nos ensinámos a ser o que naõ queríamos. Deixámos que os nossos mundos se cruzassem, embora invertidos novamente. Acabamos, ao fim de todo este tempo, por nos aceitar como sempre fomos... Diferentes... Com objectivos distintos e com formas muito particulares de interpretar a realidade que se nos rodeia.

Sempre noite e dia... Sempre em mundos opostos, mas com uma enorme capacidade para nos apoiarmos e continuarmos a sentar-nos naquele mundo pequenino que fora tão nosso, para contemplar todos os "erros" que se nos esbarraram. É engraçado como agora entendo perfeitamente o facto de quereres aprender tudo o que te era dado a ensinar, admito agora, com um certo pesar, que devia ter tentado ser um bocadinho como tu, até porque o medo, muitas vezes surge do que desconhecemos. Agora entendo e admito que se tivesse dado ouvidos ao que me poderia ter sido ensinado, não teria medo ao desconhecido. Tal como já tinha dito, o que nos torna velhos não é o tempo, mas, talvez, o medo de conhecer novos espaços. E enquanto tu te davas ao trabalho de descobrir, eu queria um mundo que nunca existira, que tu sem medo, acabaste por inventar. E eu fui criando este medo de entrar nesse mundo inventado por ti, que eu já tinha procurado, mas não tive a capacidade de inventar.

E um dia, talvez, num estranho momento de eclipse "eterno" possamos ficar juntos e misturar os nossos dois mundos e esperar que não seja o caos que havíamos perspectivado naquele Verão...

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De: Helena Coutinho

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Aqui repousa a alma da que jamais descansou de sentir tudo,
de todas as maneiras.
Aqui ecoará, para sempre, um querer, infinito, de poeta.
Aqui perdurará o tempo que a vida não me deixou escrever."
Morreste-me ali amor... Sei que ainda respiras... Mal, mas respiras... Sei que ainda aí vives... Mas sei que te perdi ali algures onde a vida vira... Fomos tantas e tantas vezes ao limite do ser que nos perdemos para lá do ir... Fomos longe demais procurar o que tínhamos mesmo à mão de ser... Quisemos ser tudo... Quisemos viver tudo, quisemos ter a certeza... E com a certeza de que o amanhã é incerto, guiamo-nos pela incerteza... Perdidos por ali... Fomos morrendo...
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