sábado, 26 de setembro de 2009

Será assim?

"Sei o que quero. E sei o que posso.
As circunstâncias que me levaram até ao que sou hoje nunca seriam suficientemente interessantes. Interessa-me o que posso ser. Interessa-me o que sou. Interessa-me o pensamento, o sentimento, o espírito.
Interessam-me com fascínio estranho os obstáculos, desafios, buracos que obrigam ao salto, descidas rápidas, mas mantenho um pé na prudência, no juízo.
O percurso das vidas transforma-se em igual. Interessa quando se pára, analisa, pesquisa, quando se é diferente sem se tentar ser diferente, original, único, inédito nas acções, nas ideias, nas palavras.
Qual é o meu retrato? Como me desenho? Procuro sem ansiedade ou desassossego mas anseio pelo próximo passo.
E o que me move é e será sempre o pensamento, a ideia. Descobri-los.
Não o pensamento inteligente, o pensamento lateral, criativo, perspicaz ou criador.
Nem é o pensamento da vida, sobre a vida, pela vida no seu aspecto mais amplo ou transcendente. Ou o pensamento filosofal, exagerado, circunscrito às ideias e ampliado ao universo.
Mas o pensamento sobre as coisas, sobre as pessoas, sobre os objectos e as imagens. Um pensamento tão simples que é o de todos os dias e talvez o de todas as pessoas mas que de vez em quando se transforma na ideia brilhante, no texto exemplar ou simplesmente no que procuro ser. De vez em quando.
E este é o meu retrato."

Encontra-se no segundo impacto.

Os verdadeiros burros e os falsos loucos

"O mais esperto dos homens é aquele que, pelo menos no meu parecer, espontâneamente, uma vez por mês, no mínimo, se chama a si mesmo asno..., coisa que hoje em dia constitui uma raridade inaudita. Outrora dizia-se do burro, pelo menos uma vez por ano, que ele o era, de facto; mas hoje... nada disso. E a tal ponto tudo hoje está mudado que, valha-me Deus!, não há maneira certa de distinguirmos o homem de talento do imbecil. Coisa que, naturalmente, obedece a um propósito.Acabo de me lembrar, a propósito, de uma anedota espanhola. Coisa de dois séculos e meio passados dizia-se em Espanha, quando os Franceses construíram o primeiro manicómio: «Fecharam num lugar à parte todos os seus doidos para nos fazerem acreditar que têm juízo». Os Espanhóis têm razão: quando fechamos os outros num manicómio, pretendemos demonstrar que estamos em nosso perfeito juízo. «X endoideceu...; portanto nós temos o nosso juízo no seu lugar». Não; há tempos já que a conclusão não é lícita. "

Fiodor Dostoievski, in "Diário de um Escritor"

Frivolidade

"O respeito que a tragédia inspira é muito mais perigoso do que a despreocupação de um chilrear de criança. Qual é a eterna condição das tragédias? A existência de ideias, cujo valor é considerado mais alto do que o da vida humana. E qual é a condição das guerras? A mesma coisa. Obrigam-te a morreres porque existe, dizem, alguma coisa que é superior à tua vida. A guerra só pode existir no mundo da tragédia; desde o começo da sua história, o homem apenas conheceu o mundo trágico e não é capaz de sair dele. A idade da tragédia só pode ser encerrada por uma revolta da frivolidade. As pessoas já só conhecem da Nona de Beethoven os quatro compassos do hino à alegria que acompanham a publicidade dos perfumes Bella. Isso não me escandaliza. A tragédia será banida do mundo como uma velha cabotina que, com a mão no peito, declama em voz áspera. A frivolidade é uma cura de emagrecimento radical. As coisas perderão noventa por cento do seu sentido e tornar-se-ão leves. Nessa atmosfera rarefeita, desaparecerá o fanatismo. A guerra passará a ser impossível."

Milan Kundera, in "A Imortalidade"

Um recado

A poesia eternamente sinónimo de melancolia, casou-se obrigada com a tristeza, a mágoa e o pesar. Sinónimo de inteligência da mente e do espírito foi sendo considerada como o género literário mais difícil de compreender e de alcançar.Usada tanto na oralidade como na escrita, a poesia significou sempre um lado triste de alguém, ou o lado sincero.Sempre o compreendi. Sempre me revi na poesia escura e nas palavras duras e sérias e também naquelas vagas, nas metáforas que se compreendem à terceira e no significado que parece ser o nosso. E que e é capaz de ser tão incrivelmente simples.Na vida, não pode ser igual. A poesia não pode estar ligada ao nosso corpo como a nossa figura. Deve sobrepor-se como uma capa e uma mentira se for preciso. A vida não é o que se escreve.Um dia achei que sim quando me entreguei por completo e as palavras eram mais palavras (achava eu) se as sentisse como elas se designam.A morte, o frio, a solidão, a saudade. E tinha que sentir a morte, o frio, a solidão e a saudade.E as palavras chegavam lindas, com um significado imenso, carregadas de sentimento que os outros nunca compreenderiam porque é bom ser-se incompreendido na poesia, e eu chorava e queria morrer e estava bem ali, naquele fundo imenso, naquele abismo cheio de palavras e cheio de sentimentos e sem nenhuma e qualquer vida.Não interessava, porque no caderno tinha tudo e um dia... sempre o sentimento utópico de que um dia, alguém iria saber.Os outros deixaram de ser importantes, não precisava de ninguém para escrever, essa ausência alimentava-me, sustentava-me. E a vida passava. Passava sem que me importasse.Lá fora havia as coisas que escrevia e adivinhava. Havia as pessoas que me amavam como nunca um livro me poderia amar e conheciam-me como nunca um poema meu o poderia fazer.Não interessava, porque o meu buraco escuro conhecia-me, achava eu. E a vida lá fora era fraca, débil, superficial. Na poesia criava o meu mundo e a minha vida tinha interesse e conteúdo e linhas e páginas.Até que um dia, no dia mais triste da minha vida, não fui capaz de olhar directamente nos olhos da minha mãe.E como se eu fosse doente, procurou os meus olhos e não me conhecia.Escrever era um corte que diariamente me aliviava os braços e as pernas e o corpo todo. E os outros não me faziam falta até ali.E nos piores sentimentos que procurei na poesia, encontrei-o ali. À minha frente. Não fui reconhecida por quem estava mais perto.E sem deixar de lado a minha vida, a minha poesia, aquilo que ainda hoje me faz chorar e sorrir, puxei para mim aqueles, que hoje me fazem escrever.

By: Maria Ana

Ambiçao...

No dia-a-dia, contento-me com o meu trabalho que me parece sempre suficiente até começar a pensar realmente nele. De repente, sou atingido por um vento forte de ambição e empreendedorismo. Eu vou fazer isto! Eu podia fazer aquilo!Pego num caderno, olho para a folha, preparo a caneta e procuro as ideias.
Dura 2 minutos.Lá vão elas.

In: http://segundoimpacto.blogspot.com/

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

O livre arbítrio não existe.

"O livre arbítrio não existe.Contemplando uma cascata, acreditamos ver nas inúmeras ondulações, serpenteares, quebras de ondas, liberdade da vontade e capricho; mas tudo é necessidade, cada movimento pode ser calculado matematicamente. O mesmo acontece com as acções humanas; poder-se-ia calcular antecipadamente cada acção, caso se fosse omnisciente, e, da mesma maneira, cada progresso do conhecimento, cada erro, cada maldade. O homem, agindo ele próprio, tem a ilusão, é verdade, do livre-arbítrio; se por um instante a roda do mundo parasse e houvesse uma inteligência calculadora omnisciente para aproveitar essa pausa, ela poderia continuar a calcular o futuro de cada ser até aos tempos mais distantes e marcar cada rasto por onde essa roda a partir de então passaria. A ilusão sobre si mesmo do homem actuante, a convicção do seu livre-arbítrio, pertence igualmente a esse mecanismo, que é objecto de cálculo. "

Friedrich Nietzsche, in 'Humano, Demasiado Humano'

sábado, 5 de setembro de 2009

Escrever

Escrever é não aguentar mais guardar a alma.
É largar o peso das palavras e fugir a sete pés.
Escrever é quando a vida se mente a si mesma e tudo são flores e rios e céus azuis e passarinhos queridos e velhinhos felizes de mãos dadas.
Escrever é quando a vida se revela sem piedade e tudo é guerra.
Escrever é paixão.
É a vontade, a saudade estranha e a que existe.
Escrever é a tristeza.
A grande e a pequena tristeza.
Escrever é ter um filho, perder um lápis, querer um gelado.
Escrever é casar, fugir, esquecer.
Escrever é amar o mundo e desejar que nunca existisse.
É viver numa ilha e estar preso no meio da multidão.
É perder o tempo com nada e não haver tempo para tudo.
É chorar sem porquês, rir sem porquês, viver sem porquês.

Escrever é estar aqui para sempre.

Em: Segundo impacto

Era uma vez... Um menino muito pequenino, sentado à janela do seu quarto. Dali via um pequeno riacho, umas escadas, daquelas que já não há, ...