terça-feira, 15 de outubro de 2013

Tristeza nos olhos mais alegres


E depois, ao fim de muito tempo, deu consigo a ter saudade do seu país... É muito mais difícil construir uma vida num país que não é o nosso, descobriu agora, com um certo assombro. À medida que se ia afastando nem deu conta de para onde caminhava, pensava que tudo seria igual. Talvez não fosse preciso mudar os costumes, talvez os amigos se fossem continuando a encontrar como sempre, talvez conseguisse manter os hábitos que tão familiares lhe eram. Talvez... Foi com esta mentalidade que foi abandonando o seu país. Não sabia que ao mudar de país, por muito gradual e subtil que a mudança fosse, tudo o que tinha como real, mais não seria que uma longínqua recordação de como bom era viver naquele país que sempre fora o seu. A realidade caiu-lhe aos pés como uma pedra grande atirada de um arranha-céus. As pessoas lá, no outro país, eram mais tristes, a sua aura era mais cinzenta, as gargalhadas do seu país foram, aos poucos, transformando-se em lamurias, os grandes projectos tornaram-se em pequenas conquistas perdidas pouco depois. Lá, nesse país para onde viajara, não imperava a alegria e o espírito do seu país natal. Lá, nesse país tudo era desgraça e nada parecia ter tendência a melhorar. 
Quando deu conta deparou com uma triste e estridente realidade... Não foi ele que mudou de país, foi o país que mudou dele. Perguntava-se agora como é que chegou ali, àquele país que não era dele, sem nunca ter saído do mesmo sítio. Tentava culpar um ou outro mas ninguém o ouvia, no fundo já ninguém ouvia ninguém. O país que sempre fora acolhedor parecia querer mandá-lo embora... E como se só isso não fosse suficiente, aqueles que tomaram conta daquele país que fora seu, ainda o incentivavam a sair, como se alguma vez fosse possível, naquele país de outros tempos, uns quantos senhores bem vestidos e bem remunerados, expulsar todo um povo lutador e sonhador. Pegou no carro, com vontade de espalhar por todos os cantos do país que um dia também fora dele, mas ao fim de uns quantos metros desistiu porque sozinho não faria a diferença num país agora cinzento, cansado e com medo de sonhar. Talvez um dia, aquele povo que um dia habitou o seu país, acorde do pesado pesadelo e consiga voltar o país que no fundo sempre foi dele. Até lá... Tristeza nos olhos mais alegres.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Silêncio, que se vai ficar calado

Diz-se muito, ainda, daqueles que dizem pouco. Talvez porque confunda as pessoas haver alguém que não tem sempre de dizer alguma coisa. As pessoas habituaram-se de tal forma a ouvir sempre a mesma coisa que não aceitam o silêncio dos outros. Pelo contrário, olham para ele com um certo receio. Ainda acerca do silêncio ou do falar demais tenho a dizer que...

sábado, 12 de outubro de 2013

Uma questão de tempo

Corriam todos na sua direcção... Parecia que o mundo se queria aproximar dele, decidiu esperar... Vinham de todas as direcções, vinham longe, decidiu esperar, mas ainda estavam todos muito longe, tão longe que ao ao fim de 3 longos dias ainda pareciam estar no mesmo sítio. E ao fim desse tempo, todos pareciam à mesma distância, ou então seria da fome, sede não seria que tinha uma garrafa de água que ia bebendo lentamente, como que a adivinhar que demorariam muito. Continuou à espera, mais tarde ou mais cedo chegariam à beira sua beira e trariam, com certeza, comida, bebida e ofertas várias. No fim de contas ele era o centro do mundo e todos vinham na sua direcção. Ao fim de uns quantos dias, não se sabe bem quantos caiu. Diz-se agora que morreu ao fim de uns 8 dias. Diz quem o conhece que se julgava importante, talvez o centro do mundo e de todas as suas atenções. Morreu sem perceber que as pessoas iam e vinham, na sua rotina habitual e nem deram pela sua presença no centro de um verde parque. Quem o conhecia disse também que mesmo que lhe dissessem que ninguém vinha na sua direcção ele teria continuado à espera porque também se julgava o dono da razão. E assim viveu e assim morreu, sempre dono da razão... E se não fosse a sua razão estar errada, teria vivido com sentido. Os que não o conheciam disseram que quando percebeu que ninguém vinha para si tentou ir para os outros, mas andou às voltas porque não conseguiu perceber quem tinha mais perto e esquecendo-se de que o caminho deve ser sempre em frente, sempre que lhe parecia ter alguém mais perto voltava para trás, para os que pareciam mais perto. E assim morreu, longe dos que teria alcançado se tivesse continuado.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Levado à letra

Entraram para a sala de teatro, assim quase como que a correr. Tinham-se atrasado, cruzaram-se com uns amigos que iam,com toda a certeza ver outra peça qualquer, lembraram-se pouco antes do fim. Sentaram-se na primeira fila e por ali ficaram durante toda a peça. Às vezes um ou o outro vinha cá fora comprar alguma coisa para lhes alimentar a fome que se fazia sentir nas cenas que pareciam iguais a outras que já tinham visto. Mal se davam conta de que a peça a que assistiam nada mais era que a vida de outra pessoa qualquer, que a viam a partir de casa, do café, do trabalho, de qualquer sítio assistiam ou discutiam a vida desse homem anónimo, com uma vida como tantas outras, com rotinas inquebráveis, hábitos inquestionáveis, vícios recrimináveis. Mal se davam conta que enquanto assistiam à vida, ou peça de teatro do outro a sua própria vida era esquecida, tornaram-na menos importante que o teatro do outro. E aos poucos a cortina foi-se fechando e nunca tiveram a oportunidade de afirmar que "A vida é uma peça de teatro" mais não era que um cliché a cair em desgaste. Acabadas as suas vidas, fechadas as suas cortinas, o teatro do outro homem lá continuou com todos os defeitos que lhe apontaram sempre, a fazer o que os outros, os que assistiam não faziam... A viver. 

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Chove cá dentro... "Faz sol lá fora"


Lá fora sentia-se um vento, não se sabe se frio se quente, lá dentro o calor fazia-se cuspir por um daqueles aparelhos de aquecimento que se amontoam agora pelas divisões da casa. Talvez fosse frio... O vento. Lá dentro todos se sentiam protegidos, sem frio, aconchegados. A casa era grande e eles eram só dois. Cá fora, ao vento, estava aqueles que não tinham casa. Amontoavam-se cá fora à falta de dinheiro para um tecto. Mesmo a comida se fazia escassa por estes dias. Foram vítimas de um país que os arruinou. Os outros, os da casa grande e vazia de sentimento ignoravam os gritos mudos dos que tinham fome e não tinham força. Dali, aconchegados, riam, quase como que para aquecer a alma fria e oca. O calor podia aquecer-lhes os pés, mas nunca lhes aqueceria a alma. Há muito haviam deixado de sentir para serem felizes. Os outros, os que tinham fome cá fora ainda sentiam, ainda davam valor, ainda dividam o nada que tinham pelos muitos que eram. 
Os da casa e os da rua julgavam-se sem esperança. Os da casa viviam só porque parecia mal morrerem porque quiseram, afinal tinham de manter a imagem de sempre. Os da rua imaginavam-se a morrer ali, ao frio, pelo menos ninguém lhes diria que estavam gordos (era uma piada que usavam, para ao menos morrerem com dignidade). Um dia, o calor que se fazia sentir vindo da lareira atirou-se aos cortinados queimou-lhes a casa, não os matou. Com a casa tudo o que tinham desapareceu e nenhum daqueles que um dia frequentaram a casa, nenhum daqueles a quem queriam mostrar a felicidade que não tinham, nenhum desses os ajudou. Ajudaram-nos sim os da rua. Não, não os mataram (isso seria ajudar demais), aceitaram-nos apenas na rua e deixaram-nos viver. Diz-se quem viu de perto que lhes deram um cantinho junto deles. E o que eles mais queriam era um cantinho longe do mundo. E por ali ficaram até perceberem que este nada que tinham era mais real do que tudo o que tiveram quando viviam na casa, quando viviam para os outros. E por momentos chegaram a amar-se, a amar-se como nunca se tinham amado antes. Aos poucos foram aceitando o olhar reprovador de todos os outros, não fosse a fome e talvez tivessem sido felizes... 
Afinal não precisavam de tanto, só precisavam de uma ou outra refeição e um do outro... Agora era tarde para ser feliz... E tarde para ter fome. 

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

O homem que se fez

Era uma vez... Um menino muito pequenino, sentado à janela do seu quarto. Dali via um pequeno riacho, umas escadas, daquelas que já não há, cavadas na terra, sem mais nada... Daquelas escadas que se a passada fosse mais forte se desfaziam e a queda seria o destino mais provável. No entanto, mesmo com essas escadas, as pessoas não tinham tanto medo de cair como agora, nas escadas fortes e seguras que construíram para evitar uma queda, que até sabia bem e arrancava uma gargalhada. Dali conseguia ouvir o rio correr, correr para o mesmo sítio de sempre, ainda não sabia que o mesmo sítio de sempre podia ser sempre diferente. Desta janela imaginava lutas intermináveis contra monstros nunca vistos, imaginava-se capaz de voar um dia, correr o mundo como corria pelos quintais à volta de casa, porque o mundo era pequenino só para quem sabia voar. Dali imaginou que seria diferente de toda a gente, que iria muito mais longe, dali, daquela janela conseguia perceber que não havia país que o dissesse como seu, não haveria limites nem obstáculos para as suas vontades. Seria livre, livre como nunca ninguém foi, ditaria o seu próprio destino, sem medo de opiniões, sem regras que o guiassem. Enfim, seria ele, ele próprio, como nunca ninguém se atrevera a ser.
Depois, um dia, muitos anos depois... Já tinha cumprido a escolaridade obrigatória, já o tinham ensinado a não voar, cortaram-lhe as asas e deram-lhe um trabalho, que lhe impôs as regras que imaginara nunca ter. Durante algum tempo nem ia pelas escadas, subia de elevador, agora tinha medo que o elevador parasse e já temia cair escadas abaixo. Comprou um apartamento rés do chão com uma janela virada para o fim e uma gaiola para prender a imaginação. E o "era uma vez" tornou-se num "até ao fim" e por ali ficou até perceber que nunca tivera asas, tinha sim uma enorme vontade de voar, presa agora numa gaiola enferrujada...
Imagem sugerida por je suis... noir

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Do amor pouco fica

Era um dia quente de Maio, ou seria Junho, perdeu-se no tempo havia muitos anos, e por arrasto ou encantamento esqueceu-se também de que se perdia no tempo. Mas este pequeno pormenor não é importante para a história. Nesse tal dia que se não lembra viu-a a passar, disso tinha a certeza, ela passou, não sabe quando e não tem bem a certeza de onde. Sabe que a voltou a encontrar noutro lado, talvez um mês depois, talvez nem tenha sido tanto tempo. Encontrou-a, dirigiu-se a ela e perguntou-lhe se nunca se haviam conhecido. Também se não lembrava muitas vezes que se esquecia de coisas importantes. Ela respondeu-lhe que sim, que foram casados e as coisas não tinham corrido bem. Não lhe quis perguntar porquê. Saiu. Triste, pelo que se lembrava. Como poderia alguém deixar de amar alguém com aquelas feições. Via nela a sua alegria, a sua razão. Não lhe perguntou se foram casados muito tempo. Ou se já tinham seguidos caminhos diferentes há muito. Depois, deu conta de que esta história não era sua, talvez fosse só a sua imaginação. Também não se lembrava que era doido. Agora percebe-se porque se esquecia tanto, era a sua defesa contra a vida. 

Era uma vez... Um menino muito pequenino, sentado à janela do seu quarto. Dali via um pequeno riacho, umas escadas, daquelas que já não há, ...