domingo, 29 de dezembro de 2013

Nada

Chegou o dia que tanto esperava, ali estava ela ao fundo da sala... Anos passaram até àquele momento, o momento em que olharia para ela e iria perceber que iria estar sempre tudo bem!! Estava acompanhada, seria mesmo ela? Não se sabe. Foi ali que sentiu que poderia perder tudo... Deu uns passos na sua direcção e percebeu que não era só companhia e que não era outra, era ela... Foi ali que percebeu que já tinha perdido tudo, porque o se nunca teve nunca foi dele para perder. E o tudo que parecia ter iria perder, mais tarde ou mais cedo... Poderia ter ficado destruído, no entanto sentiu-se leve, desprendido de si, por momentos sentiu os pés soltarem-se do chão!! Caiu extasiado! Ah, como era leve a sensação de não ter nada a perder, a sensação de que já perdeu tudo, a sensação de que, como uma estrela extinta há milhões de anos, poderia ter tudo que no fim não seria nada, mas poderia brilhar até ao fim, sem medo de perder, de se perder. E não era ela, apesar dela ser ela... Poderia admirá-la, pelo menos e viver outra vida que não aquela, mas seria feliz, porque já perdera tudo e nunca ganhará nada. E no fim será igual, quer fosse de uma ou outra forma. No fim será nada!!

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Uma onda qualquer que não é igual a mais nenhuma

Ele tinha sonhos que não podia contar a ninguém... Todos o iriam julgar um doido, teria de encontrar alguém como ele, alguém que entendesse que barulho era mais que ruído de tudo o que nos envolvia, precisava de encontrar alguém, que como ele, quisesse entender o barulho. Precisava encontrar alguém a quem pudesse contar que ficava sentado à varanda a ouvir o bater das ondas nas pedras, não pelo facto simples de acalmar toda a gente, mas a distinguir a forma como se desfaziam, a imaginar todas as histórias que onda que acabava de se desfazer poderia contar. Teria de encontrar a pessoa a quem poderia contar que muitas vezes ficava acordado a noite inteira a contar estrelas só até cinco e depois se perdia em pensamentos vagos. Tinha de descobrir alguém que compreendesse que a magia existia se acreditássemos nela, se não a tentássemos destruir, queria acreditar com alguém em histórias de fantasmas e ter medo e demorar a adormecer. Mas não, não poderia mostrar isso ao mundo, esse seu lado seria a autoestrada da sua destruição. Não. Vivia atrás de uma máscara, uma máscara de pessoa racional, que não acredita no poder da imaginação, que não se atreve a pensar mais que o vizinho do 3ºESQ. Cumpria tudo o que a sociedade há muito o havia tentado convencer a cumprir sem o atrevimento de questionar. Esquecido já da sua verdadeira essência, enganado pela máscara que criou para os outros, acreditou que era o homem da máscara e casou, diz-se que com uma mulher fantástica, daquelas que têm uma carreira fantástica e cozinham e arrumam a casa e só resmungam ao Domingo porque a novela dá muito tarde. Ele, o homem mascarado que se tornou na máscara um dia descobriu que ainda conseguia sonhar. Mas agora, agora já era tarde para sonhar, o tempo havia passado e sonhar já não fazia sentido. Tirava a máscara de quando em vez na varanda a ouvir as ondas baterem desesperadas contra as rochas, como as suas ideias batiam desorientadas contra a muralha que criou para o seu mundo. Agora, agora é tarde pensava a vizinha do 3ºESQ que também havia descoberto há alguns dias que ainda conseguia sonhar. Diz quem os conhece que nunca chegaram a falar sequer, não deviam gostar da máscara um do outro. Porque sem as máscaras teriam vivido as mais loucas aventuras que já se haviam contado. Juntos teriam voado, teriam acreditado, teriam uma vida mágica. Assim, assim mais não foram que dois desconhecidos, mascarados, longe da essência, longe deles próprios. Ah se eles soubessem que eram iguais e que podiam tirar a máscara um para o outro talvez ainda descobrissem o que aquela última onda teria para contar. É tarde, tão tarde. Mais uma onda, mais uma história, menos tempo, sempre menos tempo a cada onda. 

domingo, 22 de dezembro de 2013

Gostar é

"Gostar é tão simples como teres uma caixa vazia e meteres lá alguma coisa... Deixa de estar tão vazia, e quanto mais se gosta, menos vazio há!"

Boas festas!!!

Em tempos de pouca esperança todos procuram uma saída , saída essa que incessantemente se procura e não encontra. E é nesta ânsia de procura descontrolada que se perdem as coisas mais pequenas e tão maiores. Portanto neste Natal não procuremos a felicidade de olhos fechados, sejamos atentos às pequenas acções, aos gestos tímidos de quem faz mais do que parece poder e lhe parece pouco, recebamos de sorriso aberto as prendas “pequenas” que enchem o coração de quem as dá. Não esperemos muito dos outros, façamos!! Feliz Natal.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Às vezes, quando se tem tudo, não se tem nada

Era um homem poderoso... Dele dizia-se não saber o dinheiro que tinha. Para ele as coisas não tinham valor algum, tinham apenas um valor simbólico na imensidão da sua fortuna. Os amigos, se é que lhe podia chamar assim, pouco mais custavam que um jantar de quando em vez. Dia sim muitos dias não, tinha a casa cheia de convidados vazios de vontade de estarem com ele. Nos outros dias tinha os empregados, perdidos por uma casa suficientemente grande para acolher uma aldeia inteira. Comprara tudo o que tinha e nem queria e no entanto sentia não ter nada. O dinheiro não lhe podia comprar a sincera amizade de alguém e o dinheiro fez com que fosse difícil alguém ser amigo dele. Viveu assim, como que cheio de vazio por dentro e farto de tudo por fora. Sempre que ponderava largar tudo e começar de novo pensava que era tarde demais, quando na realidade teria ido a tempo em qualquer altura que tivesse tentado. Nada fez, assim continuou. De quando em volta dava consigo perdido dentro de 4 paredes. Quando morreu perguntaram ao porteiro «Quanto é que ele deixou?» O porteiro respondeu: «Deixou tudo.» Ninguém é mais pobre do que os mortos. (frase de António Lobo Antunes) No meio de tudo... viveu sempre sem nada... Acabou por deixar tudo e continuou com o nada que sempre teve.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Dias Diferentes

O dia de repente tornara-se mais escuro... Talvez começasse a anoitecer mais cedo em dias mais vazios, fazia sentido... Era estranho, nada fazia sentido agora... Foi por ali, por aquela altura, que entendeu que ela lhe fazia falta, não precisava de ser muito, bastava estar, atirar-lhe com a culpa volta e meia, dividir o tempo consigo a toda a hora. Sobravam minutos nas horas sem ela. Os caminhos não eram nada mais que sítios por onde se perdia onde antes foi na direcção de alguma coisa. A chuva que se lhe fazia cair nos ombros lembrava-o que um dia já dançara à chuva. Foi ali que percebeu que lhe fazia falta o mundo, o mundo dela, deles e de outros tantos. Foi ali que percebeu que sozinho nunca seria feliz para sempre. Foi ali que percebeu que não havia para sempre... E foi feliz.

Era uma vez... Um menino muito pequenino, sentado à janela do seu quarto. Dali via um pequeno riacho, umas escadas, daquelas que já não há, ...