sábado, 15 de novembro de 2014

Serás?

Entregue ao que nunca será, vive como se fosse para sempre... Entregue ao impossível, vive como se sempre tivesse sido, sem nunca for... Entregue ao que não é, ao que não são, vive como se ser já fosse!! Perguntar-lhe-iam se serão felizes com o que nunca será... Teria como resposta um "foram" enquanto forem... Novamente entregue a si e ao que é, quer voltar a não ser.. Porque o que nunca será, será sempre perfeito. Porque se sabe sempre como é e como seria o que nunca será... Perguntar-lhes-iam como se vive hoje sem amanhã e teriam como resposta que se vive como quem é feliz agora e não se importa de não ser amanhã. Porque, como se só pode ser feliz hoje sem pensar na dor de amanhã, tem de se viver com o impossível de amanhã como o possível de hoje. Sabe que não serão para sempre, sabe que nunca serão. Mas também sabe que não sabe nada. E o impossível de ontem já foi possível hoje e pode ser amanhã. E os dias vão passando e o impossível que será sempre, não o foi até ali. E se nunca se perder na viagem, se nunca se esquecer de quem foram, serão sempre para sempre. Porque nunca se consegue esquecer que se viveu o impossível.

domingo, 2 de novembro de 2014

Pura Magia

Por magia entendia-se, na maioria das vezes, uma ilusão... Um truque, uma forma de enganar o público menos atento... A partir dai passou a chamar-se de ilusionismo e o impacto da ilusão foi destruindo aquilo que se entendia como mágico. A magia deixou de existir simplesmente. Tudo mais não era que um truque, uma farsa, uma ilusão. A magia, aos poucos, perdeu-se na mentira da ilusão... Poucos seriam os que ainda descobriam magia... Verdadeira magia, magia que não mentia... Algures no meio de milhares de pessoas ainda se podia encontrar uma ou outra pessoa capaz de não fazer truques, capaz de não "mentir", capaz de ser verdadeiramente magia. Algures no meio de uma multidão conseguia ver-se alguém capaz de não fazer truques, de ser magia apenas, de não temer enfrentar o mundo com verdadeira magia. Muitos não conseguiriam ver para além da simplicidade de um gesto óbvio, que não engana. Poucos foram os que perceberam que era pura magia... 

Palavra

"Vou escrever-lhe" pensou... Depois entendeu, e bem, que as palavras nunca chegariam para lhe dizer tudo. Não havia nada tão maior que o que tinha para lhe dizer... E, no entanto, as palavras mostravam-se raras, insuficientes, pequenas... Restava-lhe acreditar, acreditar que tudo o que não dizia fosse ouvido e compreendido. Afinal, as palavras não são assim tão importantes... E diz-se que palavras leva-as o vento... E eles eram isso, eram vento, eram tempestade, eram brisa, eram suspiro, eram respirar. Dentro deles tinham o mundo inteiro... As palavras chegariam para dizer que traziam nos seus mundos mares e oceanos, que eram tempestade, que trovoavam de quando em volta, que gritavam mudos, que sorriam um com o outro... Sim as palavras diriam isto... Mas as palavras nunca seriam suficientes para descreverem o que sentiam juntos, para descrever o poder de dois mundos diferentes a chocar um no outro... As palavras nunca seriam capazes de perceber a forma como seguravam o mundo... O mundo um do outro, as palavras seriam sempre poucas ao tentarem contar a forma como eram felizes com tudo ou sem nada, seriam sempre poucas para descreverem o medo que os invadia sempre que se lembravam que existe um universo inteiro e que eles são apenas dois mundos, dois pequenos mundos. 

Quase

Tantas vezes ficamos à beira do quase fizemos que acabamos por nos contentar com o que quase foi feito. Acabamos por ter uma vida que nunca será perfeita porque lutar pela vida que sempre quisemos há-de custar mais que ficar com o futuro que já se tem como certo. Arriscar torna-se cada vez mais sem sentido, a vida, essa, já nos ensinou que o tempo nos consome a alma e o corpo. Somos muitas vezes consumidos pelo passado, tantas vezes consumidos pelo presente, que nos consome o futuro que se nunca alcançará. Caminhamos cheios de  histórias de"teria sido fantástico" e por quase ter sido tantas vezes quase se consegue ser feliz, quase se consegue ser inteiro. E ao fim, consumidos por tudo o que não fomos, por tudo o que não tivemos, há-de chegar o último dia, o que nos consome a alma, o que nos diz que independentemente de todos os cenários possíveis, o fim chegaria sempre. No fim não se pergunta se se foi ou não feliz, se valeu ou não a pena, no fim aceita-se apenas que ser feliz teria sido outra forma de ter chegado ao fim. Como tantas histórias que terminaram antes de começarem, tantos acabam antes de serem felizes. Tantas vezes esbarramos de frente com a felicidade e fugimos-lhe, como que se ficar não fosse mais que destruir a felicidade que seria, tantas vezes nos escondemos para não provarmos o que seria ter sido feliz. Tantas vezes corremos do que teria sido fantástico com medo de que não seja, que de todas as vezes o que acabamos por aproveitar é mais uma oportunidade de não sermos felizes. E aceitamo-lo de ânimo leve, porque se diz que se não pode ser feliz para sempre. E quando se diz que não agarrámos as oportunidades, agarramo-las todas, agarramos todas as possibilidades de não sermos felizes... Outros agarrarão, com toda a certeza, todas as oportunidades de serem felizes. E no fim, nem uns nem outros, desperdiçaram oportunidade alguma, apenas as aproveitaram de formas diferentes.

domingo, 12 de outubro de 2014

Chega

Chega um dia em que deixam de ser os princípios o meio para sermos quem somos. Chega um dia em que sermos quem queremos deixar de fazer sentido. Chega o dia em que o sofrer é inevitável e nem o conforto de se saber que se sofre para um bem maior é suficiente para acalmar uma dor que grita, calada num quarto fechado e escuro de olhos fechados. Chega um dia em que queremos deixar de sentir, chega o dia em que não queremos saber dos nossos princípios, nem dos nossos meios, nem de nós nem de ninguém. Chega um dia em que só queremos fazer parte da multidão, ser igual a toda a gente, O dia em que nos bastar ter o que os outros têm. Chega o dia em que nos sentimos de menos, chega o dia em que sabemos que não valemos a pena. E chega o dia em que só queremos desaparecer. E esse dia chega e fica... E há-de ficar para sempre. Porque quando se é marcado no coração o para sempre corre-nos no sangue até ao fim. Mas chega. Chega de tudo e chega de quase viver. Chega de lutar contra a evidência e contra a falsa verdade, chega de tentar viver o conto de fadas. Chega de acreditar no fim feliz. Chega... Agora é hora de deixar ir, de ser ser o que se for, de aceitar que se não há-de ser nada. Chega,,, Chega de acreditar e de sonhar... E chega de tentar ser diferente, é hora de não ser eu, é hora de ser o que querem que seja. Chega a hora de ser o que se espera, chega a hora de ser o que se pode ser. Chega de acreditar que a felicidade é uma coisa que vai dormir todos os dias à minha beira. Chega.
Já não sou papel branco onde se escreva, já não sou esperança onde se viva, já não sou felicidade que não foge. Chega. Não sou nada. Chega.

* E chega de escrever... 

sábado, 13 de setembro de 2014

Vendo ir

E às vezes é só assim... Um baixar os braços, um desistir, um deixar ir... E esperar que, de alguma forma, um dia, a vida lhe va piscar o olho e dizer "anda ser feliz"... E é com essa estranha confiança que vai continuando a viver como quem ainda não morreu... Mas, sabem os outros que aquele viver já não é de quem ainda vive, percebem que é um viver de quem ainda não morreu...

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Palavras leva-as o vento

Pediu-lhe baixinho que o ouvisse, pelo menos desta vez... Não é que desta vez o que tinha a dizer fosse mais importante que de todas as outras vezes, talvez fosse apenas porque sentia que aquele era o momento de dizer tudo o que havia a ser dito, como que se o que fosse dizer desta vez e mais uma vez, fosse ter um efeito diferente do que teve de todas as outras vezes... Esquecera-se, por aquele instante, que se não pode esperar reacções diferentes com a mesma "mistura de palavras" de sempre... Sentia de repente que pouco a pouco seria esquecido, sentia que nunca mais seria procurado, aos poucos sentia-se como se não mais fosse ser encontrado... A inquietude do esquecimento fazia com que a brisa que lhe varria o pensamento de quando em volta se transformasse numa tempestade de proporções nunca antes sentidas... As palavras voavam a uma velocidade incontrolável, o pensamento, esse, perdia-se nas palavras e não se encontrava na razão... Sentia como que, se não dissesse tudo agora, ficaria sempre à margem do coração, à margem da vida, à margem do tempo, à margem do mundo... E as palavras voavam soltas, sem direcção... Perdido em pensamentos e em palavras perdidas deixou-se ficar calado... E pediu-lhe baixinho, como quem já não tem força para dizer nada, como quem se perdeu no meio da tempestade, como quem deixa de acreditar no sentido e se deixa levar por um mar de emoções até bater num oceano de desilusões... "Não me ouças... Sente-me, não há nada que diga que faça mais sentido que sentir"... E sorriu, não havia muito mais a fazer que sorrir... E assim, assim se deixou levar pela tempestade carregada de palavras tontas... Palavras que a tempestade lhe arrancava do pensamento, pensamentos que se perdiam em gritos mudos, à margem do tempo, à margem da vida, à margem deles...

Era uma vez... Um menino muito pequenino, sentado à janela do seu quarto. Dali via um pequeno riacho, umas escadas, daquelas que já não há, ...