"Aqui jaz um corpo que esculpiu palavras.
Aqui jaz o sorriso de quem ousou querer o mundo dos imortais;
os cabelos onde borboletas passeavam liberdade
e as mãos de jardim, onde beija-flores bebiam fantasia…
Aqui jaz a que não temeu sonhar todas as vontades do coração.
Aqui repousa a alma da que jamais descansou de sentir tudo,
de todas as maneiras.
Aqui ecoará, para sempre, um querer, infinito, de poeta.
Aqui perdurará o tempo que a vida não me deixou escrever."
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014
sábado, 15 de fevereiro de 2014
Boa noite
Mais uma noite havia passado... Mais uma noite perdida... Talvez... Afinal, quantas noites já perdera ao longo destes anos... Já há muito havia percebido que a maioria das noites não dormidas pouco mais eram que nada. Pouco mais que uma dor de cabeça no dia seguinte... Deitou-se embriagado pelas conversas da treta, drogado pelos cenários de embriaguez que perseguiu a noite inteira. Antes tomou um café, como que para despertar para dormir. Ou para se envolver com as pessoas que perderam a noite a dormir e acabavam de acordar para mais um dia, enquanto ele se preparava para dormir. Chegado a casa caiu redondo, como que se o café o tivesse deixado cheio de energia para dormir. Quando acordou tinha a ideia de que a noite não fora nada, foi uma noite igual às outras todas. O tempo passou e outra noite se aproximou. Aos poucos foi percebendo que não foi só mais uma noite, foi uma noite diferente das outras todas, voltou a ver o sol nascer. Voltou a perceber que nem tudo se perde na tempestade, percebeu que nem tudo o que é dado como perdido é encontrado. Percebeu que muitas vezes o que está perdido não deveria ser mesmo encontrado. Aos poucos foi percebendo que se tem de aceitar o que fica para trás para conseguir compreender o que vem pela frente. "Foi uma boa noite", pensou!! E por aí vem outra, outra nova noite. Será sempre só mais uma, enquanto houver outra a seguir. E é assim que tem de ser, foi assim que percebeu que o passado nunca terá o peso do futuro e a leveza do presente. "Sim, foi mesmo uma boa noite"!!
Boa noite...
terça-feira, 11 de fevereiro de 2014
No meio do caminho tinha um poeta
"No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra."
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra."
Carlos Drummond de Andrade
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
Uma cerca, uma pequena cerca
Era feliz, até ali, até onde conhecia. No fundo nunca pensara muito no que teria feito para ser feliz. A vida corria-lhe como o sangue, que sabia correr-lhe nas veias desde aquela vez que se cortara a avançar aquela cerca. Não ligou muito, a felicidade estava do outro lado, o golpe, esse, mal o sentiu. Atingido o outro lado, a felicidade corria-lhe mais depressa que a dor lhe percorria o corpo. Muitos anos lhe haviam atravessado desde esse pequeno golpe de felicidade. Agora, da janela, olhava para a cerca e perguntava-se como a teria algum dia avançado, era alta, pensava. Naquela altura não pensou, avançou sem medo, sem pensar, avançou sem calcular. Hoje, da tal janela diferente das outras todas, observa a felicidade do outro lado, com a certeza óbvia de que desta vez nunca a conseguirá alcançar. A felicidade ainda lhe grita, lá, do outro lado "Anda, tu és capaz, já o fizeste antes!! Não penses, não tenhas medo, afinal o que tens a perder? Nunca pagarás mais que um golpe!! E se não valer a pena será só um golpe, um golpe que te fará lembrar que pelo menos tentaste". Do lado de cá respondia-lhe envergonhado que tinha medo, agora tinha a capacidade de calcular os riscos e era demasiado arriscado tentar um salto que sabia impossível para as suas pernas, tivesse, ao menos, uma escada para lhe facilitar a subida e um colchão para lhe amparar a queda do outro lado. Não tinha nada além de um colchão do lado de cá e uma escada do lado de lá. Vistas assim as coisas, fazia mais sentido a felicidade vir até ele. Só não viria se não quisesse, tinha tudo a seu favor. Todos os dias espreitava à janela , sempre a mesma escada, sempre a mesma felicidade, sempre tudo ao contrário. Longos anos se devem ter passado, agora imaginava que nem conseguiria subir a escada se o mundo se virasse e ao cair ao outro lado pouco mais lhe restava que uma perna partida. A felicidade, essa, já lhe havia deixado de acenar há muito. Pelo que parece não espera pela coragem, já há muito deveria ter tentado a medo. Agora, agora até teria coragem, mas seria um salto em vão, talvez caísse, talvez já tivesse caído há muito no esquecimento. Talvez fosse apenas uma breve memória do que nunca foi para a felicidade. É tarde, é sempre tarde. Talvez o colchão fosse um trampolim, quem sabe. Um dia foi até perto da grade... Já tarde, já sem nada do outro lado. Era uma grade caída, quem diria. Lá, de longe, da janela, pareceu-lhe sempre intransponível e afinal, dali, era só serpentear por entre os ferros e estaria do outro lado. Não se atreveu a ir ao outro lado e descobrir que não havia nada... Preferiu voltar para a janela e continuar a imaginar que a grade foi sempre assim, intransponível, porque no fundo foi... Foi uma barreira, talvez psicológica, para aquilo que nunca chegaria a ser. E sabe-se que nunca foi, porque já não havia nada para ser. Não se sabe bem quanto tempo passou, o que realmente aconteceu não se sabe, só se sabe que não foi tempo. sabe-se que o tempo passou, não se sabe para onde. Mas agora, que também há-de ser tempo, não há nada a não ser mais tempo para mais nada. E diz-se que a sua vida foi cheia de nada. Diz-se que poderia ter sido tudo. É tarde para ele, para a felicidade e para a grade que se diz ir ser removida para construir um muro. Dali, da janela, lamenta apenas que o muro o impeça de ver a felicidade. E acaba por se nem lembrar que poderia correr para o outro lado antes que levantem o muro. Afinal, ali poderá ser sempre feliz com o que não há do outro lado. Porque enquanto estiver do lado de cá, haverá sempre felicidade do lado de lá. E há-de ser esta esperança que o faz acordar todos os dias e percorrer o mesmo caminho de sempre para lado nenhum.
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014
Nada
A vida vem com morte marcada... Às vezes vem mais tarde, às vezes vem mais cedo... Há a sorte de não termos de esperar no mesmo sítio e há a sorte de se poder tentar viver enquanto se espera. Uns perdem o tempo com a vida dos outros e assim perdem o tempo da vida delas. E a cada instante que passa é mais um instante que se perde ou se ganha. Não se pode ganhar à morte, pelo que se crê, mas pode-se vencer batalhas de instantes. E a todos os que se perdem na vida dos outros e perdem mais um bocadinho para a morte, enquanto julgam ganhar um bocadinho da vida dos outros costuma dizer-se: nada...
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014
Saudade
Estava por ali perdido em pensamentos. De repente um sentimento invade-o abruptamente. Era um sentimento todo ele novo, cheio de emoção, cheio de vida e no entanto vazio... Era saudade, mas era um novo tipo de saudade que nunca experimentara... No entanto não se assusta, apesar de ser um sentimento que nunca conhecera, não o fez pular do seu confortável sofá. Por ali andava a saudade do seu cão, aquele que sempre desejara ter e nunca acabara por "conquistar" (sim, porque um cão tem de se conquistar, não é só ter lá em casa), tinha saudade daquelas férias com os amigos que nunca chegaram a ser, tinha saudades daquele amor que nunca chegou a viver, saudades daquela viagem para não mais voltar que nunca tivera coragem de concretizar, sentia saudade daquele casaco que viu uma vez numa qualquer rua que acabou por não comprar. Tinha saudade até daquele momento em que não foi, mas acabou por ir e não devia. Tinha saudade daqueles breves momentos em que pediu que não fossem, tinha saudade da tristeza daquele amor, daquele que também não deve ter sido. Tinha saudade de tudo o que quase foi. Tinha saudade de ter arriscado!! Tinha saudade. Onde outro qualquer teria encontrado arrependimento ele encontrou saudade. Talvez porque tenha sempre compreendido porque ficava, porque não ia, porque seria, porque não poderia ser, porque deveria não comprar um casaco que combinava mal com as meias, porque sabia... E o saber deixava-o ter saudade... Deixava-o sorrir para o passado com orgulho... Deixava-o sonhar com o que não foi! Era um sonhar com o que seria, era no fundo, como alguém lhe havia dito um dia, "ter saudade do futuro"... Porque se nunca chegou a ser ainda não é passado, ainda é uma porta aberta para o futuro. Foi por ali, por aqueles instantes que percebeu que não era, afinal, uma pessoa sem sonhos. Percebeu ali que os seus sonhos são os mesmos de sempre, são já saudade, são já como se tivessem acontecido sem nunca o terem de ser. Percebeu, por fim, que sonhava mais que todos os que lhe apontavam o dedo por sonhar de menos e se diziam sonhar alto. Sonhavam baixo, afinal... Sonhava mais alto ele porque esteve sempre a um pequeno passo do sonho da saudade. Ao contrário dos outros, que sabem onde estão os sonhos, mas não sabem como lá chegar, ele sabe porque não chegou à saudade e agora é só sonhar. Agora é só continuar a sorrir para tudo o que tem e ter saudade de tudo o que poderia ter. É olhar, sorrir e sonhar com a saudade que terá um dia pelo que nunca foi hoje. Ah, saudade!! Saudade do futuro preso por bocadinho de sonho perdido num passado que ainda pode não o ter sido.
domingo, 2 de fevereiro de 2014
Heróis
Os heróis de antigamente faziam frente aos mais poderosos, os heróis de agora batem nos miúdos pequenos. Os heróis de antigamente construíam tudo com um quase nada que se não sabia de onde vir, os heróis de agora destroem tudo sem se perceber como será possível destruir tanto em tão pouco tempo. Os heróis de antigamente opunham-se, sem medo, às opiniões pequenas... Morriam, mas com eles morria a convicção de que sempre foram o que quiseram. Os heróis de agora adaptam-se às opiniões e morrem invictos, sem verdade, sem razão... Vazios... Os únicos heróis, agora, são os que amam sem querer destruir o que os que amam possam amar mais. Os únicos heróis, os que ainda se podem chamar, são os que constroem à sua passagem, são os que deixam ficar a medo, são os que olham e vêem para lá de si. Os verdadeiros heróis sãos os que abandonam o conforto dos seus lares, para partilharem o lar atormentado de outros "quaisqueres", são aqueles que abraçam um moribundo, são aqueles que respiram ao lado de alguém que dá, por fim, o seu último suspiro. são aqueles que sofrem com os que se não salvam, são aqueles que que descem ao mundo, sem medo de não voltar e abraçam os que são aceites como ninguém. São os que sabem tanto quem ser que, sem medo algum de se perderem de quem são, se confundem com a multidão de "ninguéns" e com eles caminham para o fim, que esperam não ser também o deles. São esses os heróis, é por esses que o mundo ainda faz sentido... É por eles que ainda existe a palavra "herói", é por eles que esta palavra mais não é que mais uma terra do nunca. Por eles.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
Era uma vez... Um menino muito pequenino, sentado à janela do seu quarto. Dali via um pequeno riacho, umas escadas, daquelas que já não há, ...
-
Era uma vez... Um menino muito pequenino, sentado à janela do seu quarto. Dali via um pequeno riacho, umas escadas, daquelas que já não há, ...
-
Mais uma manhã de chuva, daquelas manhãs que dá vontade de não deixar ir embora porque nos embala num sono em que se fica acordado e se par...
