quinta-feira, 15 de outubro de 2020
Era uma vez... Um menino muito pequenino, sentado à janela do seu quarto. Dali via um pequeno riacho, umas escadas, daquelas que já não há, cavadas na terra, sem mais nada... Daquelas escadas que se a passada fosse mais forte se desfaziam e a queda seria o destino mais provável. No entanto, mesmo com essas escadas, as pessoas não tinham tanto medo de cair como agora, nas escadas fortes e seguras que construíram para evitar uma queda, que até sabia bem e arrancava uma gargalhada. Dali conseguia ouvir o rio correr, correr para o mesmo sítio de sempre, ainda não sabia que o mesmo sítio de sempre podia ser sempre diferente. Desta janela imaginava lutas intermináveis contra monstros nunca vistos, imaginava-se capaz de voar um dia, correr o mundo como corria pelos quintais à volta de casa, porque o mundo era pequenino só para quem sabia voar. Dali imaginou que seria diferente de toda a gente, que iria muito mais longe, dali, daquela janela conseguia perceber que não havia país que o dissesse como seu, não haveria limites nem obstáculos para as suas vontades. Seria livre, livre como nunca ninguém foi, ditaria o seu próprio destino, sem medo de opiniões, sem regras que o guiassem. Enfim, seria ele, ele próprio, como nunca ninguém se atrevera a ser. Depois, um dia, muitos anos depois... Já tinha cumprido a escolaridade obrigatória, já o tinham ensinado a não voar, cortaram-lhe as asas e deram-lhe um trabalho, que lhe impôs as regras que imaginara nunca ter. Durante algum tempo nem ia pelas escadas, subia de elevador, agora tinha medo que o elevador parasse e já temia cair escadas abaixo. Comprou um apartamento rés do chão com uma janela virada para o fim e uma gaiola para prender a imaginação. E o "era uma vez" tornou-se num "até ao fim" e por ali ficou até perceber que nunca tivera asas, tinha sim uma enorme vontade de voar, presa agora numa gaiola enferrujada
sexta-feira, 18 de setembro de 2020
terça-feira, 3 de dezembro de 2019
Na noite terrível, substância natural de todas as noites,
Na noite de insónia, substância natural de todas as minhas noites, Relembro, velando em modorra incómoda,
Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.
Relembro, e uma angústia
Espalha-se por mim todo como um frio do corpo ou um medo.
O irreparável do meu passado — esse é que é o cadáver!
Todos os outros cadáveres pode ser que sejam ilusão.
Todos os mortos pode ser que sejam vivos noutra parte.
Todos os meus próprios momentos passados pode ser que existam algures,
Na ilusão do espaço e do tempo,
Na falsidade do decorrer.
Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que nem sequer sonhei;
O que só agora vejo que deveria ter feito,
O que só agora claramente vejo que deveria ter sido —
Isso é que é morto para além de todos os Deuses,
Isso — e foi afinal o melhor de mim — é que nem os Deuses fazem viver...
Se em certa altura
Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita;
Se em certo momento
Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim;
Se em certa conversa
Tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro —
Se tudo isso tivesse sido assim,
Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro
Seria insensivelmente levado a ser outro também.
Mas não virei para o lado irreparavelmente perdido,
Não virei nem pensei em virar, e só agora o percebo;
Mas não disse não ou não disse sim, e só agora vejo o que não disse;
Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas,
Claras, inevitáveis, naturais,
A conversa fechada concludentemente,
A matéria toda resolvida...
Mas só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói.
O que falhei deveras não tem esperança nenhuma
Em sistema metafísico nenhum.
Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei.
Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar?
Esses sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver.
Enterro-o no meu coração para sempre, para todo o tempo, para todos os universos.
Nesta noite em que não durmo, e o sossego me cerca
Como uma verdade de que não partilho,
E lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível p’ra mim.
domingo, 6 de outubro de 2019
Coloquei-te o meu mundo na tua mão. Acreditei que contigo esse mundo poderia tornar-se mágico. A forma como brincavas com ele e como o fazias rodar à velocidade do teu sorriso, era feliz. Deixei-te ficar com ele. Acreditei que não faria sentido deixares de o fazer brilhar porque julgava brilhares também. Acreditei e não passou disso. Uma inocência que custou a quase destruição de um mundo que podia ter sido só nosso. No fim, partiste para outro mundo, para o teu, para aquele que nunca deixaste mesmo para trás. Aproveitaste que tinhas um outro mundo e foste brincado, quase como que quem brinca para passar tempo, ignorando que, como quando uma estrela aquece um planeta, todo esse planeta passa a depender do calor da sua estrela para continuar a viver. Mas tu não quiseste saber. Foste brincando enquanto foi conveniente ficar por outra galáxia, mas assim que te foi possível voltar, voltaste e nem esperança onde antes havia calor deixaste. Partiste sem problema, sabendo que já não precisavas deste mundo, porque agora já não precisavas de te entreter. E foste sem querer saber tudo o que destruíste, porque já nem valia a pena.
domingo, 21 de maio de 2017
Soltamos das paredes da imaginação o quadros com os sonhos... Caminhamos por caminhos que nunca tinham sido nossos... Deixamos quem éramos lá atrás e retocamos os quatros ainda há pouco desprendidos. Entorpecidos pelo amor, caminhamos enquanto pintamos, sonhamos enquanto caminhamos, construímos enquanto destruímos. Depois de soltos os sonhos, acabam por se prender em quem amamos. Ali, em quem amamos, residem agora os quadros dos nossos sonhos, as paredes da nossa imaginação, os limites da nossa existência. Ali, ali fica tudo o que já fomos e tudo o que gostaríamos de ter sido. Ali, como quem troca para uma casa maior e mais bonita, procuramos uma parede mais perfeita onde possamos decorar a vida.
Mas, quando por alguma razão o amor nos falha e a vida nos ludibria, deixamos de ser quem já fomos. Há muito deixamos aquelas paredes velhas. E há muito que os sonhos que um dia soltamos das paredes já não são os mesmos. Quando o amor nos falha por qualquer razão voltamos sem sonhos, pelo menos sem os mesmos. Porque aqueles que um dia foram os nossos, já são de outra pessoa, já não pertencem só à parede da nossa imaginação, agora são parte daquelas novas paredes que construímos em conjunto.
Voltados atrás já não somos nada. Já nos traímos, já nos perdemos. Já não somos quem fomos. Somos uma parede vazia, sem coragem, sem imaginação, sem vontade. Quando voltámos somos mais vazios, mais ocos, mais cansados, mais frios, mais tristes, mais sozinhos. Sempre que voltamos perdemos... E sempre que perdemos, perdemos-nos... Acabamos por cair no mais fundo que há de nós. Um fundo vazio, frio e sem sonhos. Soltamos das paredes os sonhos e levamo-los para longe de nós. E somos menos, cada vez menos.
Mas, quando por alguma razão o amor nos falha e a vida nos ludibria, deixamos de ser quem já fomos. Há muito deixamos aquelas paredes velhas. E há muito que os sonhos que um dia soltamos das paredes já não são os mesmos. Quando o amor nos falha por qualquer razão voltamos sem sonhos, pelo menos sem os mesmos. Porque aqueles que um dia foram os nossos, já são de outra pessoa, já não pertencem só à parede da nossa imaginação, agora são parte daquelas novas paredes que construímos em conjunto.
Voltados atrás já não somos nada. Já nos traímos, já nos perdemos. Já não somos quem fomos. Somos uma parede vazia, sem coragem, sem imaginação, sem vontade. Quando voltámos somos mais vazios, mais ocos, mais cansados, mais frios, mais tristes, mais sozinhos. Sempre que voltamos perdemos... E sempre que perdemos, perdemos-nos... Acabamos por cair no mais fundo que há de nós. Um fundo vazio, frio e sem sonhos. Soltamos das paredes os sonhos e levamo-los para longe de nós. E somos menos, cada vez menos.
terça-feira, 14 de junho de 2016
Morreste-me ali amor... Sei que ainda respiras... Mal, mas respiras... Sei que ainda aí vives... Mas sei que te perdi ali algures onde a vida vira... Fomos tantas e tantas vezes ao limite do ser que nos perdemos para lá do ir... Fomos longe demais procurar o que tínhamos mesmo à mão de ser... Quisemos ser tudo... Quisemos viver tudo, quisemos ter a certeza... E com a certeza de que o amanhã é incerto, guiamo-nos pela incerteza... Perdidos por ali... Fomos morrendo...
Agora, agora vais-me a enterrar quando não restar nada... Quando formos só uma imagem do ontem, um sonho enterrado vivo e morto à nascença... Morremos ali... Aonde a vida vai e nos ficamos... Vamos a enterrar, sozinhos de nós...
sexta-feira, 22 de janeiro de 2016
Deixei contigo o meu amor,
música de açúcar a meio da tarde,
um botão de vestido por apertar,
e o da vida por desapertar,
a flor que secou nas páginas de um livro,
tantas palavras por dizer
e a pressa de chegar,
com o azul do céu à saída.
por entre cafés fechados e um por abrir.
Mas trouxe comigo o teu amor,
os murmúrios que o dizem quando os lembro,
a surpresa de um brilho no olhar,
brinco perdido em secreto campo,
o remorso de partir ao chegar,
e tudo descobrir de cada vez,
mesmo que seja igual ao que vês
neste caminho por encontrar
em que só tu me consegues guiar.
Por isso tenho tudo o que preciso
mesmo que nada nos seja dado;
e basta-me lembrar o teu sorriso
para te sentir ao meu lado.
Nuno Júdice, in O Estado dos Campos (Dom Quixote, 2003)
sábado, 9 de janeiro de 2016
Ele acreditou sempre... O mundo inteiro dizia-lhe que era doido... Mas ele sabia que não... Ele sabia que o mundo inteiro não estava certo... Ele sabia, desde a primeira vez que a viu sorrir, que era ela... Teve a certeza quando ela lhe deu o primeiro abraço e o mundo dele parou... Sonhou... Sonhou muito... Construiu um mundo onde seriam só eles... Tudo fazia sentido e o mundo não fazia ideia do que era certo ou errado... Entregou-se... A ele e ao mundo dele... Mostrou tudo o que era e tudo o que não era... Desprendido de merdas, completamente entregue a ela deixou-se ir... Não tinha muitas dúvidas.. E se dúvidas havia perdeu-as quando pela primeira vez os seus lábios tocaram no dela e pôde ver, por entre a perfeição de cada beijo, aquele sorriso, aquele olhar... E aquela covinha no rosto que se ia desenhando de quando em vez... Sabia que era amor... Teve a certeza naquele momento de que o mundo era doido e só ele é que sabia... Entregou-se, já sem medo, àquele amor que sabia ser perfeito... Deixou-se sonhar... E foi acreditando, mesmo quando parecia já não fazer muito sentido... Mesmo assim o mundo não sabia nada pensava ele... E o mundo deixou-o estar, deixou-o ser assim, sonhador, como sempre fora... Deixou-o acreditar e nunca mais lhe disse que era impossível... O mundo, como que num gesto de pena e compaixão deixou a vida dele entregue ao tempo... E o tempo veio e trouxe a verdade.. E a verdade trouxe a realidade... O mundo inteiro estava certo e ele era só mais um sonhador que acreditava em coisas absurdas... Um menino entregue a um sonho de quem não chegou a crescer... Agora, agora que o tempo lhe mostrou que ele e o seu sentimento não são nada, o mundo troça dele... E mostra-lhe, vez atrás de vez, o que ele nunca quis ver... Mostra-lhe o que esteve sempre ali, mesmo à sua frente... E ri-se... Ri-se baixinho... Com mais pena ainda... O mundo tem pena do menino que não é nada, nem nunca será... Tem pena dele por ter encontrado o amor e o amor lhe ter mostrado que não era suficientemente "bom" para quem amava... E o mundo ria-se baixinho... E ele gritava calado... E chorava de coração... E o mundo ria-se baixinho...
A vida vem por ali... De mão dada com o tempo.. A sorrir... A realidade vem atrás... E os nossos sonhos andam por ali... E vem a vida e o tempo e a realidade... E nós só temos um sonho... Um sonho e um amor que ainda não conhece limites... Temos a vontade de quem sentiu a perfeição por entre os braços... E temos o calor do sorriso mais lindo do mundo... Os sonhos, apesar de nunca terem sido, são perfeitos e, na nossa inocência, completamente tangíveis... Julgamos-nos felizes... Julgamos ter tudo...
Mas vem a realidade... Bate de frente com o sonho... O amor abana mas não cai... É o nosso amor... É o nosso sentimento construído calmamente por entre a confusão, sabemos que é forte, sabemos que é indestrutivel, sabemos que é perfeito... Mas a realidade acaba por nos esfregar na cara que por muito grande que possa ser e que por muito lindos que possam ser os sonhos não são nada à beira dela... Esfrega-nos na cara que demos tudo e não somos nada... Somos amor... Amor perdido, amor sozinho... Somos pais de um sentimento órfão... Ficamos com o amor para nós porque não chega para mais nada... Podemos amar... Amar muito... Podíamos entregar a nossa vida na construção de uma vida perfeita... Mas não chega... A vida mostra-nos, dia atrás de dia que somos pouco... Que somos menos... E ficamos assim... E vamos vivendo assim, a morrer devagarinho.. Até ao fim...
Lembramo-nos de que mentem todos aqueles que dizem deixar de amar... Ou aqueles que dizem que conseguem, se forem magoados, transformar o amor em ódio... Mentem aqueles que dizem que o amor é sempre maior que tudo... Mentem também os que dizem que se não sente, no toque dos lábios, o amor de uma vida... Que se não sente num abraço o calor de uma vida... E mentem os que dizem que não há apenas uma pessoa capaz de nos fazer tirar os pés do chão e voar... E mentem os que dizem que não há ninguém no mundo capaz de nos fazer rastejar pelos becos do sofrimento...
Há, talvez, amores assim, que possam deixar de ser... Há amores que possam não ser tão grandes... Há-de haver amor que não nos transcenda... Há-de haver menos amor.. Um amor mais pequenino... Daqueles amores a meio, que nem aquecem muito e que acabam por nem ser muito frios... Amores onde há um acomodar, um aceitar não ser mais... Onde se acaba por ser cúmplice de um viver à margem de um amor maior, em troca do conforto e do sossego de não ter de se dar tudo... Onde se pode perder... Onde não temos de ser inteiros... Onde não temos de ir sempre, porque há-de estar sempre ali e se não estiver, há-de estar outro...
Mas quando é amor, sente-se... Sente-se tudo... Sente-se a ausência, sente-se a falta e sente-se necessidade para lá da vontade... Somos dominados por um sentimento que nos faz perder a razão, que nos faz querer ser só ali, naquele sítio...É um querer estar sempre, querer partilhar tudo, querer fazer parte de tudo...
E quando o amor não chega... E quando esse amor vai sem direcção... Quando o amor perde o sentido e quando já não passa de algo em que já se não pode acreditar, sente-se dor, sente-se raiva, sente-se revolta e sente-se o frio do mundo debaixo dos pés... Quando tudo se perde e a realidade vai contra o sentimento que nos rasga de dentro para fora, quando a impossibilidade nos rasga o peito de fora para dentro... Dói... Morde-nos o corpo e deturpa-nos a vontade... Faz-nos querer desaparecer de um mundo que já só parece meio... E que nunca voltará a ser inteiro...
E a vida, a vida passa a saber a pouco... O que se constrúia para lá do que se via deixa de ser sustentado e cai... Esmaga-nos... Fica só um vazio sem espaço... Não cabe nada para lá de vazio... Somos ocos... Somos menos... Deixamos de ser aos bocadinhos... E depois percebemos que mentem também os que dizem que o tempo leva tudo... Não leva, o tempo não leva este vazio... O que o tempo faz é tornar oco o vazio... O que o tempo faz é ensinar-nos a viver com metade da vida... Como quem vive com meio coração... Aos poucos vamos sendo metade daquilo que seríamos... O tempo faz com que recalquemos um sentimento que foi maior que nós e faz com que queiramos ser só mais um no mundo... A viver pela metade... Ao lado de uma pessoa que até poderia ser tudo, mas nunca vai ser nada... E vamos viver assim... Em lume brando... Com meio brilho... E vazios... Vazios de tudo... Vazios de amor...
E a vida, a vida passa a saber a pouco... O que se constrúia para lá do que se via deixa de ser sustentado e cai... Esmaga-nos... Fica só um vazio sem espaço... Não cabe nada para lá de vazio... Somos ocos... Somos menos... Deixamos de ser aos bocadinhos... E depois percebemos que mentem também os que dizem que o tempo leva tudo... Não leva, o tempo não leva este vazio... O que o tempo faz é tornar oco o vazio... O que o tempo faz é ensinar-nos a viver com metade da vida... Como quem vive com meio coração... Aos poucos vamos sendo metade daquilo que seríamos... O tempo faz com que recalquemos um sentimento que foi maior que nós e faz com que queiramos ser só mais um no mundo... A viver pela metade... Ao lado de uma pessoa que até poderia ser tudo, mas nunca vai ser nada... E vamos viver assim... Em lume brando... Com meio brilho... E vazios... Vazios de tudo... Vazios de amor...
E aquele amor que foi... Fica ali... Parado... À espera de outra vida... De outra vida que nunca virá... E no fim, bem lá para o fim... Pode ser que tenhamos a sorte de nos conseguirmos enganar e confundir o vazio com felicidade... E pode ser que com sorte a memória nos falhe e nos apague o vazio que nunca será cheio...
quarta-feira, 23 de dezembro de 2015
Feliz Natal
Não é que falte tempo, ou falte espaço, ou vontade, diria até mesmo que motivos também não faltam. O que aconteceu foi que não houve empenho, não houve dedicação e este espaço foi sendo filho de pai ausente. Como que numa tentativa desesperada de compensar o tempo perdido vou dar-vos prendas!! (não, não vai acontecer!!!! Sou um pai ausente, mas dedicado quando tem de ser :p )
Desejo-vos um fantástico Natal... Cheio de amor e mais dedicação!!
quarta-feira, 21 de outubro de 2015
Sonho
E depois, como que atropelado por uma vida que queria para si, decide acreditar, acreditar faz sentido, tal como viver ali, naquele espaço pequeno, estrondosamente pequeno, que de repente se tornou maior que tudo, maior que que a existência. Mas, como se nada o fizesse adivinhar, sente-a fugir... A vida que queria.. O futuro que um dia imaginara desvanece-se na realidade que se impôs, que foi sempre mais forte, mais forte que tudo aquilo em que acredita. é como que se o sonho que sempre se imaginara maior fosse, afinal, pequeno, esmagadoramente pequeno, à beira da realidade.. E a vida e o tempo e o tempo de vida e o que lhe resta é menos, é menos do que sonhara, é menos do que imaginara... Mas pior, muito pior, era a realidade, a sua realidade, ser tão mais pequena que o sonho.
Dizia-se, já há muito, que era sempre assim... Aparentemente tudo parecia ser possível, que a simbiose se julgava perfeita, até que se percebia que a perfeição nem sempre chega, o sentimento de sobra nem sempre é suficiente... Afinal é como todos diziam, os sonhos não cabem na realidade... E não cabem só porque parecem possíveis e parecem fáceis de alcançar e parecem perfeitos e parecem... parecem... Só isso... Parecem... Na realidade o sonho não pode ser possível... Se fosse realidade já não era um sonho e um sonho não pode ser real... E a felicidade não pode ser assim, fácil...
E foi assim que percebeu que não podia, não podia ser real, tinha de ser um sonho... Mas depois, mais uma vez a vida e o tempo... O faziam questionar... Se o sonho pode ser real e a realidade pode ser sonhada.. Porque é que se não vive o sonho? Se na realidade o pior que acontece quando se acorda de um sonho bom é querer ficar a sonhar mais um bocadinho? Então, se agora conseguia sonhar de olhos abertos, porque é que tinha de correr mal? Porque é que não poderia voltar a querer ficar acordado e sonhar? Só mais um bocadinho?
domingo, 12 de julho de 2015
Vejo-vos por aí!!
Foi então que percebeu que o que tinha a fazer, era fazer nada... Abrir mão do que julgara ter, aceitar que era pouco mais ou pouco menos, quase que tanto fazia... Percebeu que a sua chegada não veio mudar grande coisa ao mundo, ao mundo que criara... Percebeu, talvez a tempo que aquele sonho que vivia era só dele e de mais ninguém... Dizem ainda, aqueles que olharam mais de perto, que acreditava genuinamente no que sentia... E que sentia mesmo a dor que parecia... Não sabem, mesmo aqueles que olharam mais de perto, se o sonho morreu com o mundo, ou se o mundo morreu com o sonho, o que sabem é que lá vai, não no caminho que sonhara, mas no caminho que lhe sobrava... às escondidas dele diziam que fora cego a vida inteira ao olhar para o caminho que não existia... Dizem que estivesse cego pela luz do amor, mas nem sabem se amava... O que é certo é que, mais tarde, admitira que vira para lá do que era real... Que se deixou levar pelo que sentia e era o amor que o conduzia... Se o conduziu bem ou mal... Ninguém sabia... Mas sabia ele que só tinha uma alternativa... Soube-se pouco depois que desistira... Não se sabe se vivia, mas sabe-se que ainda caminhava... Sem norte ou razão, deixou de ouvir o coração... Diz-se que se tornou mais frio... E que o olhar perder brilho... Diz-se que ficou mais vazio...
Não é que tivesse deixado de sonhar... Mas aos poucos percebeu que o lugar que julgava ocupar, não ocupava... Aquilo que julgava ser possível era atropelado pela verdade e pelo sentido e pela realidade, não é que não sentisse ser capaz, mas sabia que não era possível... Restava-lhe ir... Não é que o que sentia fosse mais pequeno, ou tivesse tendência a diminuir... Só não podia ficar ali, à beira da verdade, da outra verdade, da verdade real... Não havia já lugar para si, nem para o que sentia, nem para nada... Só havia espaço para não ser... E deixar de ser calava-o... Era o que tinha de ser... Deixar de ser... Era deixar de fazer... Era fazer nada... Partir, deixar de existir ali...
Não é que tivesse deixado de sonhar... Mas aos poucos percebeu que o lugar que julgava ocupar, não ocupava... Aquilo que julgava ser possível era atropelado pela verdade e pelo sentido e pela realidade, não é que não sentisse ser capaz, mas sabia que não era possível... Restava-lhe ir... Não é que o que sentia fosse mais pequeno, ou tivesse tendência a diminuir... Só não podia ficar ali, à beira da verdade, da outra verdade, da verdade real... Não havia já lugar para si, nem para o que sentia, nem para nada... Só havia espaço para não ser... E deixar de ser calava-o... Era o que tinha de ser... Deixar de ser... Era deixar de fazer... Era fazer nada... Partir, deixar de existir ali...
E agora, agora podia partir... Não se sabe se partiu para algum sítio, o que se sabe é que deixou aquele... E se realmente o que sentia, era o que se dizia... Adivinhava-se que não partira, apenas desistira de fazer seu o sítio que sabia ser de outra pessoa para sempre... Era só um sonho absurdo no mundo, era só o seu e o de mais ninguém...
E com ele partiu também este sítio... Foi uma viagem engraçada... Foi um prazer ter-vos sempre comigo... Mas para onde vai este senhor, já não há espaço para este sítio... Tentarei criar outro, onde já não haja este senhor... Obrigado a todos... Até daqui a outro sítio!!!
O sítio passa a ser este:
http://outrasdiambulices.blogspot.pt/
E com ele partiu também este sítio... Foi uma viagem engraçada... Foi um prazer ter-vos sempre comigo... Mas para onde vai este senhor, já não há espaço para este sítio... Tentarei criar outro, onde já não haja este senhor... Obrigado a todos... Até daqui a outro sítio!!!
O sítio passa a ser este:
http://outrasdiambulices.blogspot.pt/
quinta-feira, 2 de julho de 2015
O que é que se espera de onde já nada espera?
Depois, com o passar do tempo, vão-te matando os sonhos, vai morrendo o futuro, vão-se suicidando as expectativas... Vai morrendo a vida, aquela vida... E a cada dia, morre-se mais um bocadinho ali... Claro que, como se diz, morre-se aqui para se nascer noutro lado qualquer. Mas... E quando se não quer morrer ali, quando se quer continuar a sonhar, quando queremos que aquele futuro não morra e que as expectativas aguentem!? Tentamos segurar o tapete, tentamos agarrar as expectativas que estão ali mesmo, penduradas em cordas de pés sem chão já... Mais um movimento e morrem umas outras tantas... É como que se a morte fosse iminente e a única coisa que segura a vida são já as cordas de expectativas que não vivem, expectativas sem sonhos para respirar... Surge então a questão... O que é que se faz sem sonhos? Com o que é que se sonha sem expectativas, como é que se vive sem vida? Como é que se segura um futuro que já morreu? Será que nos prendemos a um futuro morto? Mas... Se é um futuro morto, como é que o presente tem ainda tanta vida? Se as expectativas já morreram todas porque é que continuamos à espera que o que nunca acontecerá, aconteça?
terça-feira, 30 de junho de 2015
Foi ali, naquele momento, que lhe não disse que a amava, que lhe não disse que não via outra mulher no lugar da mãe dos seus filhos, ali, naquele momento em que lhe não pediu para que ficasse, ou que se fosse, o levasse com ele... Foi ali, naquele momento em que não a beijou e não deixou que aquilo que não conseguia dizer chegasse até ela... Foi ali, naquele momento em que não teve a coragem de a ver sofrer, mais uma vez, com histórias do que seria, naquele momento em que nem ele próprio teve coragem para lhe dizer que tinha a certeza de que o mundo deles seria para sempre perfeito, foi ali, naquele momento em que nem ele sabia se seria melhor para ela partir ou ficar... Foi naquele momento em que não lhe consegiu dizer que sem ela o mundo já não fazia sentido... Foi ali, naquele momento do que não foi... Que foi o momento em que a perdeu... E vai te-lá em si para sempre... E nunca a terá... Perdeu-a ali, num momento que não foi
segunda-feira, 22 de junho de 2015
É sempre a adiar... Até ao fim...
Conhecemos as pessoas durante anos, até mesmo dezenas de anos, habituamo-nos a evitar os problemas pessoais e os assuntos verdadeiramente importantes, mas guardamos a esperança de que, mais tarde, em circunstâncias mais favoráveis, se possam justamente abordar esses assuntos e esses problemas. A esperança, sempre adiada, de um relacionamento mais humano e mais completo nunca desaparece completamente, porque nenhuma relação humana se contenta com limites definitivos, restritos e rígidos. Permanece, portanto, a esperança, de que haja um dia uma relação «autêntica e profunda». E permanece durante anos, até mesmo décadas, até que um acontecimento definitivo e brutal (em geral, uma coisa como a morte) vem dizer-nos que é demasiado tarde, que essa «relação autêntica e profunda», cuja imagem tínhamos amado, também não existirá; não existirá, tal como as outras.
Michel Houellebecq, in 'As Partículas Elementares'
segunda-feira, 15 de junho de 2015
Sentia-se assim... Uma casa de férias... O sítio onde as pessoas vinham passar uns dias, onde fugiam ao mundo delas... Era assim que se sentia, o sítio que nunca será o sitio, o sítio que nunca mais será que um ponto de passagem, é um sitio bonito... Mas não é um sitio onde seja possível ficar, ali não é possível viver, é longe da vida, é longe da felicidade, fica longe do trabalho e da vida de todos os dias... É bonito, o sítio, mas é impensável ficar mais que 2 semanas... Ali até correm bem as coisas, mas não correriam sempre, é só aquele bocadinho... É uma casa, só uma casa noutro sitio, longe do lar, longe da vida, longe de tudo... Não é nada, é só um espaço desprovido de sentido, é um sítio... Só uma casa levantada do chão, com o único objectivo de ser por uns dias o que não pode ser para sempre... E o coraçao dele é assim, como essa casa... Cheio quando ela volta, vazio quando ela vai para a casa aonde pertence... Um coração que não é nada, uma casa vazia... Um mundo sem sentido...
.P.Q.P.
Tantas vezes ouvira dizer que tinha de sonhar, que tinha de acreditar, que tinha de ser feliz... E que a única forma de ser feliz era acreditar sempre, para sempre, que alcançaria os seus sonhos... Ensinaram-no também a não sonhar alto demais, a sonhar com o que era possível... A sonhar com base no futuro, a sonhar apenas com aquilo em que acreditava ser possível... Sonhou... Sonhou sempre e nunca deixou de acreditar... Até que um dia se cruzou com a realidade... E a realidade ultrapassou de longe o sonho... E foi mais feliz ainda... Foi feliz como nunca imaginara ser possível, foi feliz para lá do sonho e para cá da realidade... Fez deles o mundo dele e dele o mundo deles... Mas como em alguns sonhos, a realidade dele não fazia sentido no mundo dela... E agora?! Perguntava-se... Nunca lhe haviam falado de que a realidade poderia ser maior que qualquer sonho, nunca lhe disseram o que se fazia a partir dali... Não sabia, não sabia nada... Era tudo novo... E a realidade, tal como um sonho, tornou-se maior que ele... Como os sonhos, ele construiu a sua vida à altura de uma realidade que nunca conseguiria alcançar... Foi algures por ali que percebeu que se consegue desistir de um sonho, mas nunca se consegue desistir da realidade... Porque a realidade é a verdade... E perante a verdade não há por onde fugir... Agora... Agora restava-lhe desistir do que era real, desistir de para onde a realidade o levava, de para onde o sonho o trazia... Agora restava-lhe aceitar que a realidade ultrapassou de longe o que seria o mais lindo sonho... Restava-lhe desistir e aceitar que só podia voltar a sonhar... Desistir... Desistir de ser feliz ali, "naquele lugar" que o fazia acreditar que a vida era mais que um sonho, dali, de onde percebia que a vida era o concretizar os sonhos todos ao lado dela... Restava-lhe, por fim e como que numa última tentativa de não morrer ainda, aceitar que não esteve à altura da realidade, só esteve à altura de sonhar... Pode ser que um dia consiga voltar a sonhar... Agora, agora os sonhos já não fazem sentido... A única forma de voltar a si... É abrir mão de ser feliz... É desistir da realidade que o leva a sonhar todos os dias... É aceitar que o sorriso que o faz sentir o mundo na palma da mão não será nunca dele, é aceitar... Aceitar que a realidade se tornou muito grande para ser suportada por si... É aceitar que até agora, crente no que era real, construiu um mundo que não será nunca o seu, nunca o deles... É aceitar que a verdade dele é só dele... E desistir da realidade para voltar a sonhar... Desta vez... Um sonho mais pequeno... Um sonho ao alcance dele... Desistiu, por fim...
domingo, 14 de junho de 2015
Caminhava, como caminham todos os loucos, sem direcção. Desesperadamente à procura de um futuro que nunca seria, de uma vida que nunca teria, de uma felicidade que nunca alcançaria. Louco, caminhava. Caminhava em círculos, sonhava. Sonhava até onde a imaginação o levava. Julgava ele, o louco, que o mais feliz que conseguiria ser, seria até onde a imaginação fosse capaz de chegar. Caminhava... Sonhava... Não vivia... Perdia... Os dias, os meses, os anos, a vida, a felicidade... Perdia-a todos os dias.... Sabia-o agora, que a encontrara, que a imaginação não pode ir tão longe, que um sonho nunca poderá ser tão brilhante, que uma vida nunca poderia ser tão preenchida como fora até então... Julgara ter sido feliz até ali, àquele momento. No momento em que a realidade ultrapassa o sonho, e o que existe ultrapassa o onírico... Agora, agora percebe finalmente que nunca foi inteiro e que quem não é inteiro não é feliz. Agora, agora que a encontrou, sabe que foi sempre parte de um mundo que ele próprio construiu. Agora ela aparece-lhe e dá forma ao que nunca foi. Agora, agora que sabe o que é realmente viver num mundo de entrega e confiança e sentimento e felicidade e de vitórias e de derrotas e de tudo, agora não pode voltar a sonhar com o que sonhou um dia, agora tem de sonhar com um mundo todo ele novo, todo ele inteiro, todo ele perfeito. Agora, agora que sabe que o que sente é mais do que qualquer sonho, agora que sabe que é possível, agora que ama... Agora não sabe nada, agora não sabe sonhar, agora que não sabe outra coisa senão ser feliz à beira dela, não lhe sabe dizer que o que sempre sonhara nunca passou, na realidade, de um esboço, de um pequeno esboço dela. Agora, agora não lhe consegue explicar que o que sente por ela é tão grande que seria capaz de engolir o universo inteiro e transformá-lo num magnífico, quase mágico, jogo de luzes... Agora, agora não sabe nada... Só sabe que tudo o que antes foi, com a chegada dela desmoronou-se num magnífico palácio de ruinosos lindos sentimentos. Agora, agora sabe que só há um caminho para a felicidade, agora sabe que qualquer outro caminho não o fará feliz. Agora sabe que tem de ir por outro lado, mas agora não pode sonhar, porque o sonho fica preso ali, à beira dela. Para sempre... Sempre... E o seu sonho será sempre, para sempre, aquele sorriso que lhe aquece os dias e lhe incendeia a alma... E a sua luta, o seu sonho... será para sempre aquele sorriso, será sempre lutar por aquele brilho, por aquela magia, por aquele olhar, por aquele toque, por aquele abraço, por aquela partilha... Fica para sempre entregue a ela e ela ficará para sempre como a razão do seu sorriso... E aquele que sempre fora um louco, agora sabe aonde pertence... E pertence-lhe sempre a ela, para sempre... E nunca haverá lado algum que o faça voltar a sonhar depois de ter embarrado na perfeição... E diz-se agora, no fim dos dias... Que sorriu sempre, mesmo sem caminho ou direcção, só sentado na recordação.
sexta-feira, 12 de junho de 2015
"Posso vir a ter outros amores
na hora do tédio
recusado.
Posso vir a ter outro passado
e inventar-me
em formas de viver.
E posso transgredir-me de emoção
renavegar na margem
de outros corpos.
E transmitir de mim
para outras mãos
a chama do sagrado.
E posso várias vezes repetida
condescender-me em gesto
dizer coisas que sei
e que não quero.
E ser imensa
até ao desespero.
Absoluta.
Enorme.
E encher de palavras outros nomes.
Mas é a ti que pertenço."
na hora do tédio
recusado.
Posso vir a ter outro passado
e inventar-me
em formas de viver.
E posso transgredir-me de emoção
renavegar na margem
de outros corpos.
E transmitir de mim
para outras mãos
a chama do sagrado.
E posso várias vezes repetida
condescender-me em gesto
dizer coisas que sei
e que não quero.
E ser imensa
até ao desespero.
Absoluta.
Enorme.
E encher de palavras outros nomes.
Mas é a ti que pertenço."
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